
Um heist movie onírico
Como espectador, gosto de me informar o suficiente sobre um filme antes de o ver, mas nunca gosto de ir mais longe do que uma breve sinopse - brevíssima até, já que hoje em dia a arte do spoiler é praticada mesmo de forma inconsciente - e um ou outro trailer. Com Inception levei esse conceito ao extremo, pois bastou-me um trailer e uma tagline "Your mind is the scene of the crime" para decidir que este filme seria uma visualisação obrigatória.
Imagens de cidades a dobrarem sobre si mesmas, corredores que giram, desafiando a gravidade e a lógica, tiroteios estilizados reminiscentes da "Matrix" e uma premissa única, prenderam-me a este filme. Quando finalmente me sentei no cinema para o ver, as minhas expectativas não foram defraudadas.
O enredo estabelece-se à volta da seguinte sinopse: Dominic "Dom" Cobb (Leonardo Dicaprio) é um extractor de ideias, um especialista em infiltrar-se na mente do seu alvo enquanto este dorme extrai-lhe os seus segredos mais valiosos. Perseguido pela lei devido ao seu trágico e sombrio passado, Dom depara-se com uma oferta única: aceitar um trabalho que lhe permitirá deixar de ser um fugitivo. No entanto, em vez de roubar, a sua missão será plantar uma ideia, iludindo o seu alvo a julgar que a sua própria mente a gerou.
Estamos perante uma premissa já testada em vários filmes de golpada - heist movies - na qual o protagonista é um especialista na sua "arte", mas incapaz de viver uma vida fora do mundo que escolheu para si; entretanto surge a oportunidade de adquirir uma tranquilidade e normalidade através de um "último trabalho", que o espectador sabe à partida esconder mais do que inicialmente é proposto. Pois bem, neste filme já sabemos à partida que o acto de introduzir uma ideia na mente de alguém está perto do impossível, mas Dom diz ser capaz de o concretizar.
O filme contém a obrigatória sequência de apresentação dos elementos da equipa, que como manda a tradição revela um grupo carismático de indivíduos: Arthur (Joseph Gordon-Levitt) encarregue de pesquisar os alvos, Ariadne (Ellen Page) a arquitecta dos sonhos que constrói os locais oníricos onde o grupo irá tentar a implantação da ideia e Eames (Tom Hardy) o falsificador hábil em assumir diferentes identidades.
Neste filme existem dois mundos: o real, onde vemos o grupo de Dom a preparar o golpe e o onírico, onde eles treinam os seus passos e onde tomará lugar o golpe. A forma como os dois mundos se articulam é bastante intrigante, mantendo uma superficial semelhança que se dissolve à medida que prestamos atenção aos detalhes. De facto atenção ao detalhe é algo que qualquer espectador deve ter para identificar elementos cruciais para interpretarmos o que se passa e para compreendermos as implicações do mundo que se desenrola perante nós.
O conceito de entrar no sonho de outras pessoas é apresentado através de diálogo de uma simplicidade desarmante, sem precisarmos de longas sequência de diálogo enfadonhas, sem nunca se abdicar de certa complexidade que eleva este filme para o patamar de um high-concept blockbuster: eis um filme que nos apresente fantásticos efeitos especiais, cenas de perseguição empolgantes, tiroteios frenéticos, mas também e mais do que qualquer outra coisa, personagens com espessura dramática e diálogos inteligentes.
A ideia de um mundo manipulável, que existe na nossa mente e cujas acções tem efeito no mundo real, ecoam o filme "Matrix", até a forma como os personagens acedem aos sonhos é evocativa do filme dos Wachowski. Contudo o conceito de roubo de ideias, manipulação e navegação nos sonhos é muito mais coeso e familiar do que o mind jacking da trilogia "Matrix".
Christopher Nolan consegui criar um filme que é parte ficção-científica, parte heist movie, parte trhiller de acção com uns pozinhos de surrealismo e vénia à teoria Freudiana da interpretação dos sonhos. Esta é uma obra complexa sem ser impenetrável, frenética sem ser caótica, um filme que suscita amplas interpretações sobre a sua apresentação da realidade versus sonho - até onde somos capazes de estabelecer uma fronteira entre um e outro?
Nolan apresenta-nos uma viagem às complexidades da mente humana, sem nunca ceder às facilidades que um filme desta envergadura ofereceria a mãos menos capazes: os momentos de acção não são o centro do filme, os efeitos especiais servem nos fazer acreditar no mundo que se desdobra perante os nossos olhos, sem nunca serem intrusivos ou caírem no simples "fogo de artíficio".
Gostaria de destacar o virtuosismo do clímax, uma montanha russa de tensão, criada sem a mínima falha, prendendo o espectador até ao desenlace e capaz de tornar qualquer um num roedor de unhas inveterado. Menção também para todo o elenco, cheio de nomes sonante, entre promessas para a nova década Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, - já não é promessa, é uma certeza - Marion Cotillard e nomes credenciados como Leonardo Dicaprio - um grande actor, cujas escolhas de projectos revelam um artista multifacetado e carismático - Sir Michael Caine e Ken Watanabe. Os actores trazem um sentido de "gravitas" que nos permite simpatizar com as suas personagens e sentir genuíno interesse no seu sucesso.
Existe uma razão para manter a minha descrição vaga: este filme discute-se após ser visto, antes desse momento só existem conceitos e cenas desarticuladas. Após a experiência de o ver, surgem as questões, as opiniões, os debates, as emoções. Cada vez mais surge a necessidade de um cinema de espectáculo que não desprestigie a capacidade do espectador de participar, de questionar e de "intervir" na obra. Que um blockbuster de Verão o consiga é óptimo, que esse blockbuster seja um dos filmes mais inovadores e bem executados da última década, é um marco.
Veredicto: 5/5 (Labirintos)
Realizador:
Christopher Nolan
Elenco:
Leonardo Dicaprio
Ellen Page
Joseph Gordon-Levitt
Ken Watanabe
Tom Hardy
Marion Cotillard
Michael Caine
Cillian Murphy
Notas: para quem quiser mais thrillers sobre os limites da realidade, vale a pena descobrir "Shutter Island" de Martin Scorcese, também com Leonardo Dicaprio

