Tuesday, June 23, 2009

Zatoichi



"Even with eyes wide open, my world is one of darkness."

Zatoichi é uma personagem Japonesa imensamente popular, protagonista de inúmeros filmes e séries televisas. Aqui é nos apresentada a sua mais recente encarnação, pela visão do reconhecido realizador/actor Takeshi Kitano - que mais uma vez faz juz à sua reputação de prolífico artista realizando e protagonizando o papel principal.

Zatoichi é um massagista cego, que vagueia de aldeia em aldeia oferecendo os seus serviços. Um homem humilde, um sábio de voz suave e aparência inofensiva. Além disso é um dotado espadachim, extraordinário no combate com katanas. As suas habilidades em combate são acentuadas pelos seus sentidos apurados, que se assemelham a uma espécie de sexto-sentido.

O enredo é tradicional, não fugindo das características principais que tornaram Zatoichi uma personagem tão popular: o protagonista vagueia até uma aldeia aterrorizada por uma guerra entre gangues Yakuza e no ínicio não se faz notar, fazendo uso da sua natureza discreta. Além do medo face à violência que os gangues infligem, os locais são forçados a pagar valores muito altos para que os gangues não lhes façam mal.

Zatoichi cedo se verá envolvido na proteção dos habitantes da aldeia, particularmente o dono de uma quinta de quem se torna amigo e duas gueixas a quem oferece a sua ajuda, na procura por vingança contra o gangue Yakuza que lhes matou a família.

A acção neste filme é estilizada, com os samurais a executarem bailados minimais com os seus movimentos marciais. O sangue jorra de forma abundante, mas estilizada, o que em união com a desposição teatral dos corpos cria efeitos espantosos e dramáticos. Contudo as cenas de duelo são rápidas e vão alternando com momentos de exposição das personagens, das suas motivações e natureza. Os momentos em que as personagens se misturam com a natureza, que as rodeia de forma a criar uma tela realista, são variados e conferem ao filme uma contenção e contemplação próprios de uma representação de época de uma época longínqua em que homem começou a descurar a sua harmonia com a natureza.

A reconstituição do Japão Feudal está suberba e permite-nos mergulhar completamente no enredo e nas acções dos protagonistas. Falando ainda de protagonistas, é curioso como Takeshi Kitano nos apresenta uma personagem de voz suave, que parece desaparecer sob os diálogos e acções dos que os rodeiam, contudo não é apenas quando desembainha a espada que se torna o centro das atenções, pois até o seu estilo de combate é contido e minimalista; na verdade a sua natureza observadora e sensível ao que o rodeia torna-se o seu maior trunfo para conquistar a amizade e lealdade alheias.

Este é um excelente filme de samurais: contemplativo, sereno e com combates estilizados e vibrantes. Uma obra equilibrada, um filme que balança bem os seus vários elementos.

Veredicto: 4/5 ( Bengalas)

Realizador:
Takeshi Kitano
Elenco:
Takeshi Kitano
Tadanobu Asano
Michiyo Okuso
Yui Natskukawa
Guadalcanal Taka
Daigiro Taichibana
Yuko Daike
Ittoku Kishibe
Saburo Ishikura
Akira Emoto

Notas: num estilo diferente, mas do mesmo realizador recomendo "Fireworks" e "Kids Return"

Sunday, June 7, 2009

Monty Python e o cálice sagrado - Monty Python and the Holy Grail



Um épico cómico

Falar dos Monty Python é falar de um estilo de comédia que, quando surgiu, varreu completamente a face do humor televisivo. Aplicar esse humor tão sui generis ao grande ecrã resulta uma experiência única e delirante. Este filme aborda a demanda de Rei Artur pelo cálice sagrado. Para atingir esse feito, o Rei mitológico vai durante o curso da sua viagem recrutar os seus cavaleiros da mesa redonda, para formar um grupo valoroso de guerreiros. E assim chegamos ao fim de qualquer semelhança que este filme tem com a lenda de Rei Artur e do cálice sagrado.

O que vemos durante aproximadamente noventa minutos é uma sequência de cenas onde o humor típico dos Python está tão impresso em cada linha de diálogo, como uma impressão digital impossível de remover. E é um humor plural: absurdo, non-sequitur, negro, surrealista, político, satírico, auto-referencial, físico, libidinoso e non-sense.

Cenas como a do Cavaleiro Negro, A besta de Caerbannog, os Cavaleiros que dizem Ni, ou até mesmo os créditos iniciais, mostram que desde o primeiro segundo este filme não está interessado em ser normal. De facto as piadas muitas vezes quebram a quarta dimensão e estamos cientes que as personagens sabem que estão num filme. E é preciso ter isto em consideração quando presenciamos o clímax - ou o anti-clímax - deste filme. Claro que chegamos ao fim sabendo que uma obra tão desregrada, anárquica e inovadora como esta, não podia acabar de outra forma que não a que nos é apresentada.

Existe um gozo indisfarçável no rosto destes comediantes, enquanto subvertem um dos mitos mais conhecidos da literatura europeia e fonte de inúmeras adaptações televisivas e cinematográficas. Este piscar de olho a nós espectadores, torna-nos cúmplices e obriga-nos a estar atentos a todos os detalhes, desde as expressões faciais até aos adereços usados.

Falando em adereços, este filme foi filmado com poucos recursos e nem os realizadores nem os actores quiseram esconder isso. Logo de parcos recursos surgem amplas oportunidades de humor, desde os efeitos de pirotecnia baratos, aos cenários falsos, maquilhagem sofrível e substitutos para equídeos - naquele que é uma das piadas visuais mais conseguidas do filme.
Não obstante tudo isto, nunca por um segundo colocamos a credibilidade do filme em questão. Este é um épico sem dúvida, mas por razões diferentes, que não valores orçamentais.

O grande defeito deste filme é uma certa tradição de humor televisivo que acaba por ser transportado para o grande ecrã. As cenas assemelham-se a sketches, que nem sempre se articulam totalmente entre si, levando-nos a esquecer a razão da sua relevância para o enredo - mas tendo em conta a forma como o enredo é (mal)tratado, talvez isso seja propositado. Este estatuto estanque das cenas retira coesão ao filme, mas dado que são na sua maioria inovadoras e genuinamente engraçadas, é uma falha qe facilmente se esquece.

Este é um filme repleto de um humor que ataca em várias direcções, religião e política incluídos - se bem que não tanto como em filmes posteriores dos Pyhon - e que também brinca com conceitos filosóficos e existencialistas, relembrando-nos que a razão para os Monthy Python serem baluartes da comédia, é o facto de o seu humor ser de facto inteligente.

Para nos fazer rir e para nos provocar, sem reservas.

Veredicto: 5/5 (Coelhos brancos)

Realizador:
Terry Gilliam, Terry Jones
Elenco:
Graham Chapman
John Cleese
Eric Idle
Terry Jones
Michael Palin

Notas: Dos Python aconselho o seminal "A vida de Brian"
e "O sentido da vida".

Wednesday, June 3, 2009

Alta fidelidade - High fidelity



Música, amor e outras atribulações


O enredo de "Alta fidelidade" gira em torno de Rob Gordon (John Cusack) um melómano com pouco jeito para lidar com relações amorosas. Quando a sua namorada Laura (Iben Hjejle) termina a relação, John decide revisitar velhas paixões para tentar compreender o que falha nas suas relações.

Rob passa os dias na sua loja de discos, Championship Vynil, fazendo observações sobre os seus clientes - ou a falta deles. Juntamente com os seus amigos Dick (Todd Louiso) e Barry - um Jack Black em estado de graça que rouba todas as cenas em que participa e tem a mais engraçada tirada do filme - forma um trio de elitistas musicais que troça da ignorância dos seus clientes, elabora os mais variados "top 5" acerca de tudo o que possam imaginar e ás vezes vendem discos.

Entretanto Rob descobre que a sua ex-namorada está com outro homem e enquanto revisita as restantes 4 mulheres mais importantes da sua vida, vai tentando descobrir o que faz dele um bom ou mau namorado - ao mesmo tempo que faz cenas de ciúmes em frente a Laura.
Cada encontro que Rob tem com uma das mulheres com quem namorou, acentua simultaneamente a personalidade e transição que ele fez ao amadurecer e a ideossincrática personalidade de mulheres que ele parece já não conhecer. Estes encontros são simultaneamente fonte de humor e reflexão - mais para Rob do que para o espectador.

Um dos aspectos mais singulares desta obra é o facto de Rob se dirigir ao ecrã para falar, ou seja estabelece um diálogo com o espectador, quebrando a quarta dimensão. Esta característica cria proximidade, à medida que Rob confidencia em nós os seus desejos, ansiedades, medos e confusões. Tornamo-nos seus confidentes, ainda que não necessariamente seus amigos o que nos permite julgá-lo, mas nunca, na minha opinião deixar de simpatizar com ele - Cusack criou uma personagem, que não obstante os seus defeitos é fácil de gostar.

"Alta fidelidade" é um filme rodeado de música, quer nos diálogos que gravitam á volta do tema, quer nas melodias que servem de banda sonora para os diferentes momentos emocionais do filme. Contudo a música presente é normalmente diegética, o que confere um tom realista a um filme que, dado o tema, podia cair nos braços de um pseudo-musical, estragando a ambiência e capacidade emotiva de certas cenas-chave.

Este é um filme sobre e com música, mas também é um filme sobre pessoas: pessoas que amam, que erram, que estao frágeis e que procuram alguém para partilhar um futuro. Rob é particularmente pungente como um snob melómano, que age como adulto em part-time, reservando o resto do seu tempo para agir como um adolescente hormonal. A sua forma de agir com as mulheres de quem gostou permite-nos conhecer um homem com medo de compromissos, que se acha rebelde; alguém que sente o apelo de uma vida adulta, mas teme perder algo nessa transição. Uma espécie de Peter Pan dos tempos modernos.

Aqui não vão encontrar uma típica comédias de equívocos ou humor situacional. O tom é ligeiro, o humor subtil, mas inteligente e permite momentos de maior impacto dramático...um pouco como a vida real. Aqui o humor também surge muita das personagens que são carismáticas e dos actores que realmente as encarnam - sentimos que estas personagens podem de facto existir.
Um filme com sensibilidade, sentido de humor e muita música: aquela que ouvimos, aquela de que falam e aquela que imaginamos.

Veredicto: 4/5 (músicas sobre pessoas que estão em coma)

Realizador:
Stephen Frears
Elenco:
John Cusack
Iben Hjejle
Jack Black
Tim Robbins
Todd Louiso
Catherine Zeta-Jones
Lisa Bonet

Notas: De John Cusack aconselho os filmes "Gross point blanck", "Identidade Misteriosa" - desconstrução simpática do género trhiller - e "A barreira invisível".

Monday, June 1, 2009

Deixa-me entrar - Lat den ratte komma in




Flocos de neve, pingos de sangue

Os calmos subúrbios de Estocolmo são o pano de fundo para uma história de amor pueril, mas diferente do que é habitual. Entre prédios cinzentos, ruas vazias de pessoas e repletas de árvores nuas e muita neve, assistimos ao desenrolar da vida de Oskar (Kare Hedebrant), um solitário rapaz de 12 anos, vítima do abuso físico e psicológico por parte de um grupo de colegas de escola.
Oskar vive com a sua mãe, mas é claro que a sua existência é solitária, isolando-se do mundo e imaginando a vingança contra aqueles que o mal-tratam.

Contudo um dia conhece Eli (Lina Leandersson), uma pálida e misteriosa rapariga que se muda para o mesmo prédio e desde logo o avisa que não se podem tornar amigos. Contudo com o passar dos dias ambos desenvolvem um laço, à medida que partilham as suas existências solitárias, brincando juntos e trocando mensagens em código morse através das paredes dos seus apartamentos.

Eli não é, no entanto, uma rapariga normal. Além da sua tez pálida e do seu caracter reservado ela só sai à noite - algo que Oskar repara e refere causualmente. E apesar de como espectadores descobrirmos a natureza de Eli bem cedo no filme, Oskar vai-se apercebendo, mas não é algo que ele trate com muita importância ou que seja razão para se afastar: Eli é uma vampira. O homem com quem vive e que as pessoas assumem ser seu pai é na verdade aquele que lhe providencia o sangue que Eli necessita, matando estranhos para lhe drenar o sangue.

O rumo dos acontecimentos vai levar a que Eli fique sozinha e apartir daí o mundo que Oskar e ela criaram para si vai ser posto em causa. Sobre o enredo, isto é tudo o que sinto que devo dizer, ficando o resto para (re)descobrir por quem achar que este filme merece uma oportunidade - principalmente antes do já anunciado remake Norte-Americano.

Este é um filme com vampiros, mas não, na minha opinião, sobre vampiros. É um filme contemplativo, sincero e tocante. Não é um filme de terror ou de sustos gratuitos. Os vampiros são tratados com seriedade e é empregue alguma da mitologia relacionada com eles, - como a aversão à luz solar, por exemplo - mas isto não é feito com intuito sensacionalista ou como potenciador de cenas estafadas do subgénero dos filmes de vampiros.

Face ao epicentro emocional do filme, a relação entre Eli e Oskar, o tema do vampirismo é secundário, mas como já disse tratado com credebilidade. Sentimos ternura no desenrolar da relação inocente entre dois seres que estavam sozinhos no mundo até se terem um ao outro. É fácil esquecer o que Eli em momentos de ternura pueril entre ambos, momentos de inocência pincelados por brancos flocos de neve que pontuam a paisagem ao abrigo de calmas noites. Neste aspecto o filme é introspectivo, sereno e contemplativo.

Para contrabalançar esta faceta, a história desenvolve cenas mais violentas, próximas do que é normal ver em filmes de vampiros, mas isso assume-se como algo de natural no decorrer da história e serve para estabelecer os acontecimentos do terceiro acto: Oskar e Eli tomarão um percurso que os irá forçar a escolher entre o mundo que criaram ou o que tinham antes - alguns dirão que essa escolha nem sequer é apresentada, o que também é uma forma válida de interpretar os acontecimentos.

Raros são os filmes que apresentam tanta sensibilidade ao abordar temas tão reais como o bullying, o isolamento, o desagregar familiar com outros tão sobrenaturais como os vampiros e a sua dificuldade em amar e perdurar a sua presença numa sociedade que é simultaneamente o seu sustento emocional e físico. E Eli é um dos vampiros mais carismáticos da história do cinema com a sua postura tão intrigante e desconcertante, longe do comum estereótipo de imortal sedento de sangue.

Existe neste filme uma melancolia impregnada nas imagens, nos rostos e na fabulosa - a espaços lúgubre, a espaços radiante - banda sonora. Está presente também uma inocência desconcertante e pura como a neve que é entrecortada por cenas em que o sangue corre e pessoas perdem a vida. Contudo este não é um filme de dois tons - branco e vermelho - pois não sentimos um corte abrupto entre momentos de contemplação e outros de gore. Tudo flui sem esforço em direção a um final que é bem mais inesperado e ideal do que poderíamos julgar.

Veredicto: 4/5 (Cubos de rubix)

Realizador:
Tomas Alfredson
Elenco:
Kare Hedebrant
Lina Leandersson
Per Ragnar

Notas: outro filme de vampiros atípico e anti-clichés desse sub-género que recomendo é "Cronos" de Guillermo del Toro