Thursday, September 6, 2012

Homem de Ferro - Iron Man




Robert Downey Jr. = Tony Stark = Homem de Ferro

Quando falamos de super heróis vindos directamente de Banda-Desenhada, não parece haver disputa que os mais populares serão o Super-Homem, Batman e Homem-Aranha. Popularidade aqui prende-se com o conhecimento das características estéticas de tais personagens e também de algumas das suas características particulares: afinal de contas mesmo sem ler as BDs respectivas, muitos de nós sabemos que o Super Homem é um extraterrestre com super força, visão raio-X,  super velocidade, imune a quase tudo,excepção feita à kriptonite; também sabemos que o Batman é um vigilante que possui um grande arsenal de engenhocas que usa no combate ao crime; o Homem-Aranha tem poderes aracnídeos como trepar paredes, disparar teias e um "sentido de aranha" que o alerta para o perigo imediato que o ameaça.

Além deste conhecimento, também identificamos facilmente os seus uniformes, sabemos quais as suas identidades secretas, ou alter-egos e reconhecemos um ou outro vilão mais icónico - normalmente o arqui-inimigo, o mais incansável, o mais diabólico e amiúde a simbólica antítese do herói.

Para estas personagens, a sua chegada ao grande ecrã foi  a evolução lógica da sua popularidade e estatuto icónico na cultura popular do século XX; as adaptações cinematográficas de filmes como Super-homem (1978, de Richard Donner com Christopher Reeve), O Homem-Aranha (2002, de Sam Raimi com Tobey Maguire) ou Batman (1989, Tim Burton, com Michael Keaton) apresentaram a personagem a um público mais amplo, foram um passo importante - provavelmente o que faltava - da sua consagração no imaginário popular.

Contudo o Homem de Ferro, não se encontrava nesta categoria, como personagem de BD; nunca gozara do mesmo tipo de popularidade das personagens que referi antes. Criado por Stan Lee e aparecendo pela primeira vez numa BD em 1963. Criado para ser a epítome do Capitalismo, Tony Stark é um bilionário playboy, construtor de armas. Publicado no auge da guerra fria, Stan Lee decidiu desafiar os seus jovens leitores, com uma personagem que era essencialmente um senhor da guerra narcisista, um génio da tecnologia e do armamento sofisticado que lutava contra os comunistas. Estavam aqui reunidos os ingredientes para uma personagem sem futuro: uma personagem pró-guerra numa América pós-Segunda Guerra Mundial é o equivalente a um elefante numa loja de porcelana, de armadura.

Mas Tony Stark - um pouco como o Batman - é uma personagem atormentada, que esconde os seus problemas sob uma capa de auto-confiança e arrogância. Tony Stark é um alcóolico com uma necessidade enorme de provar que podia viver longe da sombra do seu pai, o criador das indústrias Stark, um dos maiores produtores de armamento do mundo. Conferindo-lhe fraquezas os escritores da BD do Homem de Ferro tornaram a personagem popular e memorável.

Chega, no entanto de enquadramento, até porque estou aqui para falar do filme da perspectiva de um cinéfili e não de um conhecedor de BD - que não sou de forma alguma. como tinha dito, o Homem de Ferro era uma personagem popular nos comics, mas o público em geral estava marginalmente ciente da sua existência. Ora a Marvel, cavalgando o sucesso dos filmes do Homem Aranha e X-Men (2000, Brian Singer) decidiu apostar numa adaptação do Homem de Ferro.

O escolhido para desempenhar o papel de Tony Stark, foi Robert Downey Jr. um actor conhecido tanto pelos seus grandes desempenhos em Assassinos Natos (1994, Oliver Stone) e Chaplin (1992, Richard Attenborough), como pela sua atribuladíssima vida pessoal que o colocava frequentemente nos tablóides - prisões sucessivas por posse de narcóticos ou por conduzir sob a influência de alcool e drogas, assim como as suas imensas visitas a centros de reabilitação.

Antes de ser escolhido para o filme Homem de Ferro, Downey vinha de um período de longa normalidade que lhe permitiu participar numa série de filmes cuja aclamação crítica, das obras em geral e dos seus desempenhos em particular, convenceram a Marvel a apostar nele - cito por exemplo o filme Zodiac (2007, David Fincher).

E que aposta. Robert Downey Jr. criou um Tony Stark playboy, juvenil, calculista, arrogante, narcisista, piadético e a espaços empático. Aliás, o arco narrativo da personagem está intimamente ligado à tentativa da personagem se tornar mais conscientes do efeito que o negócio bélico tem na humanidade e em formas de o combater.

Veja-se a cena que abre o filme: Tony Stark atravessa um deserto, tendo vendido o seu mais recente e
letal míssil; está sentado num veículo militar, escoltado por soldados, de copo na mão, fato imaculado, piada na língua e um rádio a tocar AC/DC. Os soldados estão fascinados com ele e o espectador também - neste momento passaram 5 minutos desde o início e já nos esquecemos que pagámos bilhete para ver um homem numa armadura caríssima, a causar explosões. Eventualmente Tony Stark é sequestrado e ferido - com armas produzidas pela sua empresa - e forçado a construir armas para os seus captores.

Os primeiros 30 minutos são um equílibrio ténue - mas bem sucedido - entre a luta de Stark com os efeitos nefastos da sua política bélica/comercial. O filme nunca retomará este tópico com a mesma força e empenho, pois a sua missão é entreter, mas é de louvar a sua coerência para com um tema que é real e muito sério. Que o faça sem caricaturar - pelo menos no início -e sem perder o espectador é em si um feito notável.

O resto do filme posso dividir em duas partes: o enredo, com as peripécias típicas de um filme de origem e todos os momentos em que Robert Downey Jr. esté em cena. Não pensem com isto que o enredo é mau, ainda que não seja o ponto forte do filme.

Temos a obrigatória história de origem, em que assistimos à forma como Tony Stark decide abandonar o fabrico de armas, a sua decisão de criar a armadura - um processo lento, mas muito interessante e humorístico em que o espectador é colocado no lugar de um assistente de Stark, vendo a armadura sendo criada - tudo sem grandes explicações verbais, mas com a dinâmica de cena e as ajudas visuais necessárias para que o espectador nunca se sinta alienado da acção. Depois há as cenas de acção rápidas, entusiasmantes, que emitem uma vibração enorme de urgência e humor - sempre o humor neste filme -com doses generosas de efeitos especiais, mas nunca descurando o elemento humano - mostrar a cara do protagonista dentro do fato é sempre uma boa forma de imersão do espectador na acção.

Por fim um elenco de grandes actores compõem as cenas e os procedimentos: Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow e Terrence Howard. É um elenco pequeno para um blockbuster de grande estúdio, mas o filme é pequeno na escala da acção, o que contribui para o tornar mais intenso e para nos deixar ainda mais cativado pela personagem de Tony Stark.

No fundo é disto que se trata: Robert Downey Jr. criou um protagonista tão carismático, que tudo o resto não interessa: estamos dispostos a ignorar o argumento previsível, a identidade e motivação do vilão, a obrigatória tensão romântica entre Tony Stark e Pepper Pots (Gwyneth Paltrow) e o obrigatório desenlace feliz com seta a indicar a sequela. Tudo isto porque é um prazer ver um actor como Downey a mostrar ao público que se está a divertir - só faltava quebrar a quarta-dimensão e piscar o olho ao espectador - a ouvir as suas piadas e ficar com a sensação que todas as suas falas foram improvisadas no momento- algo que o documentário behind the scenes do dvd deste filme confirma em parte.

Downey criou um alter-ego em Tony Stark de tal forma que parece assumir em público a mesma postura muito confiante, ligeiramente trocista e de galã que criou para o filme.
Recentemente e para promover o terceiro filme da saga Homem de Ferro - sim eu demorei quatro anos e dois filmes a escrever sobre  o Homem de Ferro - Downey surgiu numa convenção ao som de Luther Vandross e com um adereço do filme Homem de Ferro 3. A questão que surge imediatamente é: está RDJ aqui como RDJ ou a interpretar Tony Stark? Apesar de falar do filme e dos seus objectivos - o que levaria logo a assumir que não estava in character - RDJ usou alguns maneirismos típicos da personagem.

Desta forma RDJ assume aquela postura de showman que estamos mais habituados a reconhecer de certos músicos - nomeadamente aqueles rockers das décadas de 70/80 cujas on stage personas eram indistinguíveis das suas façanhas ou tragédias operadas na vida privada e pública. Com o seu Tony Stark RDJ tornou-se um actor "rock star", uma presença mediática, que entretêm,  um cómico, quase maior do que a vida, mas não tanto. O seu percurso errático parece ter desaparecido, substituído por um fantástico comeback - e como o mundo, os Norte-Americanos em particular, adoram isso - que veio para ficar.

Espero que se mantenha, pois com esta postura desafiadora, este impulso para o puro entretenimento de massas, para lá da tela, deu ao mundo um novo RDJ e um novo ícone. Robert Downy Jr. é o Homem de Ferro e o Homem de Ferro é entretenimento pipoqueiro de qualidade e um bom filme de super-heróis - a sequela, por outro lado...to be continued...

Veredicto: 5/5 (Whoopers)

Realizador:
John Favreau
Elenco:
Robert Downey Jr.
Jeff Bridges
Gwyneth Paltrow
Terrence Howard
John Favreau

Monday, April 16, 2012

Uma lista a abater - The Kill List


 Ninguém pára para pensar no significado literal da "última missão..."

Jay (Neil Maskell) é um ex-militar com dores crónicas na coluna - segundo o próprio - e um jaccuzzi avariado. A sua esposa Shel (MyAnna Buring), também uma ex-militar, queixa-se da inactividade do marido e da postura sorumbática do mesmo. O pequeno Sam, é o espectador privilegiado das estrondosas discussões que os seus pais vão tendo ao longo do filme. Estamos perante um thriller arrebatador que aparenta ser uma crónica da relação instável de uma família, presa na inércia da vida suburbana Britânica.
Shel organiza um jantar e convida Gal (Michael Smiley) o amigo de longa data de Jay. O jantar não corre bem, pois a relação de Jay e Shel não lhes permite sequer ter um jantar sem que haja tiradas cruéis e toda a composição da mesa espalhada no chão - imagino como seriam os seus jantares fora de portas.
Sabendo que Jay está a precisar de dinheiro, Gal traz-lhe uma proposta de "trabalho": uma pequena lista de alvos a abater, cujo pagamento é demasiado bom para ignorar. Jay está relutante no início, mas parece ser a sua inércia e letargia aprendida os grandes entraves, já que ele e Gal já fizeram trabalhos semelhantes no passado. Finalmente e após muitas cenas da vida doméstica - leia-se discussões, tréguas maritais, discussões seguidas de mais tréguas maritais e sinais de agoiro místico - Jay e Gal aceitam o trabalho, que não será tão simples como ambos previam - nem podia ser de outra forma, pois este tropo em consonância com o "one last job" são parte fundamental deste tipo de cinema. As cenas em que os amigos se preparam para o trabalho, vigiando os alvos, são típicas de filmes sobre assassinos a soldo e em conjunto com a interacção doméstica estabelecem perfeitamente os laços que unem estas personagens. Porém estas são das poucas cenas que o filme tem de convencional - e talvez nem estas o sejam na verdade visto que a banda sonora que as acompanha é, na ausência de melhor termo, lúgubre.

O que se segue é uma sequência cada vez mais inquietante de aparições sinistras, símbolos do oculto de significado ambíguo, uma atmosfera cada vez mais tensa e inquieta(nte), mortes violentas e algum humor extremamente negro. Quão negro? Imaginem que estão a jantar e que alguém vos diz que debaixo da vossa mesa está uma bomba. Contudo afiançaram-vos que essa bomba está desligada e não explodirá. Como corre o resto do jantar? Ainda tem apetite se vos oferecerem um manjar delicioso? Agora substituam o jantar por algumas piadas contra o catolicismo e grupos de auto-ajuda e a bomba por este filme...ou melhor ainda esqueçam esta metáfora pouco clara e lembrem-se disto: Kill List é estranho, opaco, violento, opressivo, assustador e hipnótico; começa com um ruído que só consigo explicar como o que ouviria se estivesse num túnel de comboio e viesse um na minha direcção - curiosamente essa toada inicial marca o desconforto que este filme mantêm até terminar.

Não revelei o que acontece após Jay e Gal aceitarem o trabalho, porque tudo merece ser vivido sem grandes spoilers e dessa forma cada um poderá fazer sentido do que acontece. "Kill List" não é um filme claro, certos eventos são de tal forma estranhos e a  razão para os mesmos não é clara, o que obriga o espectador a criar as suas perguntas, mas também as suas respostas. Este filme é uma espécie de kit "faça você mesmo" dos thrillers de horror, na medida e que fornece as peças todas, mas não o manual de instruções não está todo traduzido...no fim podem sobrar algumas peças e mesmo assim funcionar.

O realizador Ben Wheatley pegou em convenções do género de acção - a última missão, "buddy movie" - misturou com outras de filmes de horror - algum gore, claustrofobia, paranóia - e resultado é um filme estranho, uma montanha russa a alta velocidade, mas na completa escuridão; uma mescla de géneros que resulta pois faz juz ao género do thriller - o espectador tem o corpo preso à cadeira e os olhos colados no ecrã.

Certamente que não será um filme para todos, o final em particular é em igual medida sinistro, divisivo, perverso  tão enigmático que quase ameaça destruir toda a lógica do enredo...e no entanto, quando tudo termina as pontas soltas ameaçam ficar atadas.

Na minha opinião um dos grandes filmes do género.

Veredicto: 5/5 (coelhos)

Realizador:
Ben Wheatley

Elenco:
Neil Maskell
Michael Smiley
MyAnna Buring
Emma Fryer

Notas: "The Wicker Man", 1973, Robin Hardy, é um outro thriller de terror Britânico, que partilha algumas temáticas com "The Kill List" e é um clássico algo subvalorizado.

Monday, March 19, 2012

Os créditos finais

Regresso, após uma longa ausência - longa demais - durante a qual nunca deixei de procurar os filmes, simplesmente não encontrava as palavras - e as palavras, de simples nada têm. Tenho novas ideias, novos textos e espero que em breve todas possam florescer neste espaço. Mas antes, uma pequena lembrança.
Uma lembrança que o cinema, é arte, escapismo, produto e kitch; é uma visão, ou visões, são falas inesquecíveis, superação, eternidade, esquecimento e batimentos cardíacos com ritmo musical. Um filme começa com os créditos iniciais e termina com a luz branca após os créditos finais. E são últimos que venho evocar. Cada pessoa sente e vive um filme de forma diferente, longe de mim querer evocar a norma perfeita, a forma única e incondicional de ver um filme. É a minha forma, é a minha visão, nada mais: para mim um filme começa com os créditos iniciais e termina com a luz branca que sucede os créditos finais. A música, ou a sua ausência, é a moldura para todos os nomes que compõem um grupo enorme de pessoas que se uniram para criar um filme e ignorar essa parte é de certa forma ignorar a sua importância. Além disso os créditos finais tem muitas vezes certas surpresas: os bloopers impressionantes dos filmes de Jackie Chan, algumas vezes superiores - em entretenimento - ao filme que os precederam; ou outtkakes cómicos de algumas comédias - às vezes engraçados outras vezes supérfluos; sequel hooks nos grandes blockbusters de acção ou nos filmes de terror - o assasino afinal está vivo!
Ou talvez mais importante do que tudo isto, os créditos são a via media que nos permite assimilar a experiência que vimos no grande ecrã; é o primeiro período de reflexão, em que voltamos a nós, voltamos à realidade e escolhemos - ainda que de forma inconsciente - as imagens, mensagens e temas que sempre associaremos ao filme, pelo menos até à próxima vez que o voltarmos a ver - um bom filme, é como um bom livro, suscita diferentes leituras.
A minha experiência dita que mais de metade das pessoas sai imediatamente após o fim da narrativa, o chamado "fade to black", pelo que cedo me habituei a abafar o ruído dos passos e pacotes de pipocas amarrotados - ainda que acabe sempre por reter um ou outro comentário. Alguns minutos depois saio também, a sala já vazia, sem música, sem créditos, apenas o som dos meus e pensamentos da memória recente de uma experiência que no fundo se perpetua para lá da sala de cinema e que inevitavelmente me fará regressar.

P.S: Os créditos finais deste texto são os comentários dos seus leitores.