Tuesday, September 1, 2009

Sacanas sem Lei - Inglourious Basterds



A guerra com um twist à la Tarantino

Quantin Tarantino é um autor de cinema. Os seus filmes são simultaneamente reverência e reinvenção. A sua forma de fazer cinema assenta em dois pilares essenciais: diálogos criados com mestria de artesão, como que tece uma intrincada tapeçaria para no fim a estender sob os nossos pés e a puxar logo de seguida, deixando-nos estonteados; o segundo pilar é uma mescla de diversos géneros de cinema, amiúde provenientes do cinema de série B, moldada de forma a que seja possível reconhecer todas as referências.

Este é um tipo de cinema meta-linguístico, em que uma forma de arte tem em si referências a si mesma e a outras formas de arte. Todos os filmes deTarantino contêm, de forma mais explicítia ou implícita, esta meta-linguagem, mas este é na minha opinião, o que mais faz para trazer o cinema para a linha da frente -e para a linha de fogo também - bastando para isto lembrar o clímax desta obra.

"Sacanas sem lei" apresenta uma premissa simples: uma unidade de soldados judaico-americanos semeia o terror entre as tropas nazis sediadas em França durante a ocupação alemã. O seu modus operandi é brutal: os alemães são executados com fogo de metralhadora, tacos de baseball e de outras formas "imaginativas". No fim os que tem o privilégio de voltar com vida, trazem uma lembrança na forma de uma suástica, gravada com faca, na testa.
Sabendo que os testas de ferro do terceiro reich, incluindo o próprio Hitler, vão estar todos num cinema em Paris, é formado um plano para os eliminar - este filme passasse num período histórico alternativo, por isso esperem surpresas.

Estes "sacanas" são um grupo ideossincrático de soldados - na boa tradição de um "Wild bunch" ou "Dirty dozen", filmes que de resto são inspiração e fonte de reverência para esta obra - liderados pelo tenente Aldo Rain, encarnado por um Brad Pitt em modo caricatural e que é fonte de muito do humor deste filme. O tenente Rain exige a cada um dos seus soldados cem escalpes nazis... o que não só é fonte de algumas cenas de gore explícito, como confere um tom western, a um filme que de resto está cheio de referências a esse género cinematográfico.

Esta obra é Tarantino em tour de force, pois é em partes iguais western, filme de guerra - o que apesar de não parecer, está longe de ser a fonte mais forte de inspiração temática, apesar da reconstituição competente da segunda guerra mundial - filme de acção, comédia negra, filme de vingança e claro aula de trivia cinematográfica ao bom estilo do realizador.

Depois de um "À prova de morte" centrado maioritariamente num só personagem carismático, o stuntman Mike de Krut Russell, Quentin Tarantino volta ao "ensemble filme" com um elenco vasto, repleto de personagens carismáticas e inesquecíveis: o tenente sulista, aficionado de escalpes, Aldo Rain, o "Urso Judeu" (Eli Roth) conhecido por matar nazis à bastonada, a judia fugitiva Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) e aquela que é a personagem do filme, o Tenente das S.S. Hans Landa (Christoph Waltz) -um educado oficial nazi encarregue de caçar judeus, capaz de gelar o sangue de qualquer um só com um sorriso. A cena de abertura é das melhores já vistas num filme de Tarantino ou em qualquer outro filme, que tente criar uma situação de suspense baseado em interpretações indeléveis, hipnotizantes, sustentadas em diálogos suberbos e num delicioso jogo de câmara - Hitchcock ficaria orgulhoso.

Falando em cenas marcantes, esta é uma obra em que o cineasta emprega de forma magistral
momentos de suspense construídos lenta, mas progressivamente desembocando em momentos de clímax inesquecíveis e muito recompensadores para o espectador. Nunca tantas cenas passadas à volta de mesas foram tão iconográficas - e mais não digo para não estragar a surpresa de quem ainda não viu.

Este é um regresso em força de um autor que muitos ainda dizem ser de culto, mas baseado na forma como os seus filmes geram antecipação e nunca caiem na indiferença, parece habitar a ténue encruzilhada entre o cinema de culto, o cinema de autor e o mainstream.

Veredicto: 5/5 (Copos de leite)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
Brad Pitt
Christopher Waltz
Mélanie Laurent
Michael Fassbender
Eli Roth
Diane Krueger
Daniel Bruhl
Til Schweiger

Notas: a ver alguns dos filmes que são revisitados nesta obra, "Wild Bunch", "The dirty dozen" "One upon a time in the west"

Tuesday, June 23, 2009

Zatoichi



"Even with eyes wide open, my world is one of darkness."

Zatoichi é uma personagem Japonesa imensamente popular, protagonista de inúmeros filmes e séries televisas. Aqui é nos apresentada a sua mais recente encarnação, pela visão do reconhecido realizador/actor Takeshi Kitano - que mais uma vez faz juz à sua reputação de prolífico artista realizando e protagonizando o papel principal.

Zatoichi é um massagista cego, que vagueia de aldeia em aldeia oferecendo os seus serviços. Um homem humilde, um sábio de voz suave e aparência inofensiva. Além disso é um dotado espadachim, extraordinário no combate com katanas. As suas habilidades em combate são acentuadas pelos seus sentidos apurados, que se assemelham a uma espécie de sexto-sentido.

O enredo é tradicional, não fugindo das características principais que tornaram Zatoichi uma personagem tão popular: o protagonista vagueia até uma aldeia aterrorizada por uma guerra entre gangues Yakuza e no ínicio não se faz notar, fazendo uso da sua natureza discreta. Além do medo face à violência que os gangues infligem, os locais são forçados a pagar valores muito altos para que os gangues não lhes façam mal.

Zatoichi cedo se verá envolvido na proteção dos habitantes da aldeia, particularmente o dono de uma quinta de quem se torna amigo e duas gueixas a quem oferece a sua ajuda, na procura por vingança contra o gangue Yakuza que lhes matou a família.

A acção neste filme é estilizada, com os samurais a executarem bailados minimais com os seus movimentos marciais. O sangue jorra de forma abundante, mas estilizada, o que em união com a desposição teatral dos corpos cria efeitos espantosos e dramáticos. Contudo as cenas de duelo são rápidas e vão alternando com momentos de exposição das personagens, das suas motivações e natureza. Os momentos em que as personagens se misturam com a natureza, que as rodeia de forma a criar uma tela realista, são variados e conferem ao filme uma contenção e contemplação próprios de uma representação de época de uma época longínqua em que homem começou a descurar a sua harmonia com a natureza.

A reconstituição do Japão Feudal está suberba e permite-nos mergulhar completamente no enredo e nas acções dos protagonistas. Falando ainda de protagonistas, é curioso como Takeshi Kitano nos apresenta uma personagem de voz suave, que parece desaparecer sob os diálogos e acções dos que os rodeiam, contudo não é apenas quando desembainha a espada que se torna o centro das atenções, pois até o seu estilo de combate é contido e minimalista; na verdade a sua natureza observadora e sensível ao que o rodeia torna-se o seu maior trunfo para conquistar a amizade e lealdade alheias.

Este é um excelente filme de samurais: contemplativo, sereno e com combates estilizados e vibrantes. Uma obra equilibrada, um filme que balança bem os seus vários elementos.

Veredicto: 4/5 ( Bengalas)

Realizador:
Takeshi Kitano
Elenco:
Takeshi Kitano
Tadanobu Asano
Michiyo Okuso
Yui Natskukawa
Guadalcanal Taka
Daigiro Taichibana
Yuko Daike
Ittoku Kishibe
Saburo Ishikura
Akira Emoto

Notas: num estilo diferente, mas do mesmo realizador recomendo "Fireworks" e "Kids Return"

Sunday, June 7, 2009

Monty Python e o cálice sagrado - Monty Python and the Holy Grail



Um épico cómico

Falar dos Monty Python é falar de um estilo de comédia que, quando surgiu, varreu completamente a face do humor televisivo. Aplicar esse humor tão sui generis ao grande ecrã resulta uma experiência única e delirante. Este filme aborda a demanda de Rei Artur pelo cálice sagrado. Para atingir esse feito, o Rei mitológico vai durante o curso da sua viagem recrutar os seus cavaleiros da mesa redonda, para formar um grupo valoroso de guerreiros. E assim chegamos ao fim de qualquer semelhança que este filme tem com a lenda de Rei Artur e do cálice sagrado.

O que vemos durante aproximadamente noventa minutos é uma sequência de cenas onde o humor típico dos Python está tão impresso em cada linha de diálogo, como uma impressão digital impossível de remover. E é um humor plural: absurdo, non-sequitur, negro, surrealista, político, satírico, auto-referencial, físico, libidinoso e non-sense.

Cenas como a do Cavaleiro Negro, A besta de Caerbannog, os Cavaleiros que dizem Ni, ou até mesmo os créditos iniciais, mostram que desde o primeiro segundo este filme não está interessado em ser normal. De facto as piadas muitas vezes quebram a quarta dimensão e estamos cientes que as personagens sabem que estão num filme. E é preciso ter isto em consideração quando presenciamos o clímax - ou o anti-clímax - deste filme. Claro que chegamos ao fim sabendo que uma obra tão desregrada, anárquica e inovadora como esta, não podia acabar de outra forma que não a que nos é apresentada.

Existe um gozo indisfarçável no rosto destes comediantes, enquanto subvertem um dos mitos mais conhecidos da literatura europeia e fonte de inúmeras adaptações televisivas e cinematográficas. Este piscar de olho a nós espectadores, torna-nos cúmplices e obriga-nos a estar atentos a todos os detalhes, desde as expressões faciais até aos adereços usados.

Falando em adereços, este filme foi filmado com poucos recursos e nem os realizadores nem os actores quiseram esconder isso. Logo de parcos recursos surgem amplas oportunidades de humor, desde os efeitos de pirotecnia baratos, aos cenários falsos, maquilhagem sofrível e substitutos para equídeos - naquele que é uma das piadas visuais mais conseguidas do filme.
Não obstante tudo isto, nunca por um segundo colocamos a credibilidade do filme em questão. Este é um épico sem dúvida, mas por razões diferentes, que não valores orçamentais.

O grande defeito deste filme é uma certa tradição de humor televisivo que acaba por ser transportado para o grande ecrã. As cenas assemelham-se a sketches, que nem sempre se articulam totalmente entre si, levando-nos a esquecer a razão da sua relevância para o enredo - mas tendo em conta a forma como o enredo é (mal)tratado, talvez isso seja propositado. Este estatuto estanque das cenas retira coesão ao filme, mas dado que são na sua maioria inovadoras e genuinamente engraçadas, é uma falha qe facilmente se esquece.

Este é um filme repleto de um humor que ataca em várias direcções, religião e política incluídos - se bem que não tanto como em filmes posteriores dos Pyhon - e que também brinca com conceitos filosóficos e existencialistas, relembrando-nos que a razão para os Monthy Python serem baluartes da comédia, é o facto de o seu humor ser de facto inteligente.

Para nos fazer rir e para nos provocar, sem reservas.

Veredicto: 5/5 (Coelhos brancos)

Realizador:
Terry Gilliam, Terry Jones
Elenco:
Graham Chapman
John Cleese
Eric Idle
Terry Jones
Michael Palin

Notas: Dos Python aconselho o seminal "A vida de Brian"
e "O sentido da vida".

Wednesday, June 3, 2009

Alta fidelidade - High fidelity



Música, amor e outras atribulações


O enredo de "Alta fidelidade" gira em torno de Rob Gordon (John Cusack) um melómano com pouco jeito para lidar com relações amorosas. Quando a sua namorada Laura (Iben Hjejle) termina a relação, John decide revisitar velhas paixões para tentar compreender o que falha nas suas relações.

Rob passa os dias na sua loja de discos, Championship Vynil, fazendo observações sobre os seus clientes - ou a falta deles. Juntamente com os seus amigos Dick (Todd Louiso) e Barry - um Jack Black em estado de graça que rouba todas as cenas em que participa e tem a mais engraçada tirada do filme - forma um trio de elitistas musicais que troça da ignorância dos seus clientes, elabora os mais variados "top 5" acerca de tudo o que possam imaginar e ás vezes vendem discos.

Entretanto Rob descobre que a sua ex-namorada está com outro homem e enquanto revisita as restantes 4 mulheres mais importantes da sua vida, vai tentando descobrir o que faz dele um bom ou mau namorado - ao mesmo tempo que faz cenas de ciúmes em frente a Laura.
Cada encontro que Rob tem com uma das mulheres com quem namorou, acentua simultaneamente a personalidade e transição que ele fez ao amadurecer e a ideossincrática personalidade de mulheres que ele parece já não conhecer. Estes encontros são simultaneamente fonte de humor e reflexão - mais para Rob do que para o espectador.

Um dos aspectos mais singulares desta obra é o facto de Rob se dirigir ao ecrã para falar, ou seja estabelece um diálogo com o espectador, quebrando a quarta dimensão. Esta característica cria proximidade, à medida que Rob confidencia em nós os seus desejos, ansiedades, medos e confusões. Tornamo-nos seus confidentes, ainda que não necessariamente seus amigos o que nos permite julgá-lo, mas nunca, na minha opinião deixar de simpatizar com ele - Cusack criou uma personagem, que não obstante os seus defeitos é fácil de gostar.

"Alta fidelidade" é um filme rodeado de música, quer nos diálogos que gravitam á volta do tema, quer nas melodias que servem de banda sonora para os diferentes momentos emocionais do filme. Contudo a música presente é normalmente diegética, o que confere um tom realista a um filme que, dado o tema, podia cair nos braços de um pseudo-musical, estragando a ambiência e capacidade emotiva de certas cenas-chave.

Este é um filme sobre e com música, mas também é um filme sobre pessoas: pessoas que amam, que erram, que estao frágeis e que procuram alguém para partilhar um futuro. Rob é particularmente pungente como um snob melómano, que age como adulto em part-time, reservando o resto do seu tempo para agir como um adolescente hormonal. A sua forma de agir com as mulheres de quem gostou permite-nos conhecer um homem com medo de compromissos, que se acha rebelde; alguém que sente o apelo de uma vida adulta, mas teme perder algo nessa transição. Uma espécie de Peter Pan dos tempos modernos.

Aqui não vão encontrar uma típica comédias de equívocos ou humor situacional. O tom é ligeiro, o humor subtil, mas inteligente e permite momentos de maior impacto dramático...um pouco como a vida real. Aqui o humor também surge muita das personagens que são carismáticas e dos actores que realmente as encarnam - sentimos que estas personagens podem de facto existir.
Um filme com sensibilidade, sentido de humor e muita música: aquela que ouvimos, aquela de que falam e aquela que imaginamos.

Veredicto: 4/5 (músicas sobre pessoas que estão em coma)

Realizador:
Stephen Frears
Elenco:
John Cusack
Iben Hjejle
Jack Black
Tim Robbins
Todd Louiso
Catherine Zeta-Jones
Lisa Bonet

Notas: De John Cusack aconselho os filmes "Gross point blanck", "Identidade Misteriosa" - desconstrução simpática do género trhiller - e "A barreira invisível".

Monday, June 1, 2009

Deixa-me entrar - Lat den ratte komma in




Flocos de neve, pingos de sangue

Os calmos subúrbios de Estocolmo são o pano de fundo para uma história de amor pueril, mas diferente do que é habitual. Entre prédios cinzentos, ruas vazias de pessoas e repletas de árvores nuas e muita neve, assistimos ao desenrolar da vida de Oskar (Kare Hedebrant), um solitário rapaz de 12 anos, vítima do abuso físico e psicológico por parte de um grupo de colegas de escola.
Oskar vive com a sua mãe, mas é claro que a sua existência é solitária, isolando-se do mundo e imaginando a vingança contra aqueles que o mal-tratam.

Contudo um dia conhece Eli (Lina Leandersson), uma pálida e misteriosa rapariga que se muda para o mesmo prédio e desde logo o avisa que não se podem tornar amigos. Contudo com o passar dos dias ambos desenvolvem um laço, à medida que partilham as suas existências solitárias, brincando juntos e trocando mensagens em código morse através das paredes dos seus apartamentos.

Eli não é, no entanto, uma rapariga normal. Além da sua tez pálida e do seu caracter reservado ela só sai à noite - algo que Oskar repara e refere causualmente. E apesar de como espectadores descobrirmos a natureza de Eli bem cedo no filme, Oskar vai-se apercebendo, mas não é algo que ele trate com muita importância ou que seja razão para se afastar: Eli é uma vampira. O homem com quem vive e que as pessoas assumem ser seu pai é na verdade aquele que lhe providencia o sangue que Eli necessita, matando estranhos para lhe drenar o sangue.

O rumo dos acontecimentos vai levar a que Eli fique sozinha e apartir daí o mundo que Oskar e ela criaram para si vai ser posto em causa. Sobre o enredo, isto é tudo o que sinto que devo dizer, ficando o resto para (re)descobrir por quem achar que este filme merece uma oportunidade - principalmente antes do já anunciado remake Norte-Americano.

Este é um filme com vampiros, mas não, na minha opinião, sobre vampiros. É um filme contemplativo, sincero e tocante. Não é um filme de terror ou de sustos gratuitos. Os vampiros são tratados com seriedade e é empregue alguma da mitologia relacionada com eles, - como a aversão à luz solar, por exemplo - mas isto não é feito com intuito sensacionalista ou como potenciador de cenas estafadas do subgénero dos filmes de vampiros.

Face ao epicentro emocional do filme, a relação entre Eli e Oskar, o tema do vampirismo é secundário, mas como já disse tratado com credebilidade. Sentimos ternura no desenrolar da relação inocente entre dois seres que estavam sozinhos no mundo até se terem um ao outro. É fácil esquecer o que Eli em momentos de ternura pueril entre ambos, momentos de inocência pincelados por brancos flocos de neve que pontuam a paisagem ao abrigo de calmas noites. Neste aspecto o filme é introspectivo, sereno e contemplativo.

Para contrabalançar esta faceta, a história desenvolve cenas mais violentas, próximas do que é normal ver em filmes de vampiros, mas isso assume-se como algo de natural no decorrer da história e serve para estabelecer os acontecimentos do terceiro acto: Oskar e Eli tomarão um percurso que os irá forçar a escolher entre o mundo que criaram ou o que tinham antes - alguns dirão que essa escolha nem sequer é apresentada, o que também é uma forma válida de interpretar os acontecimentos.

Raros são os filmes que apresentam tanta sensibilidade ao abordar temas tão reais como o bullying, o isolamento, o desagregar familiar com outros tão sobrenaturais como os vampiros e a sua dificuldade em amar e perdurar a sua presença numa sociedade que é simultaneamente o seu sustento emocional e físico. E Eli é um dos vampiros mais carismáticos da história do cinema com a sua postura tão intrigante e desconcertante, longe do comum estereótipo de imortal sedento de sangue.

Existe neste filme uma melancolia impregnada nas imagens, nos rostos e na fabulosa - a espaços lúgubre, a espaços radiante - banda sonora. Está presente também uma inocência desconcertante e pura como a neve que é entrecortada por cenas em que o sangue corre e pessoas perdem a vida. Contudo este não é um filme de dois tons - branco e vermelho - pois não sentimos um corte abrupto entre momentos de contemplação e outros de gore. Tudo flui sem esforço em direção a um final que é bem mais inesperado e ideal do que poderíamos julgar.

Veredicto: 4/5 (Cubos de rubix)

Realizador:
Tomas Alfredson
Elenco:
Kare Hedebrant
Lina Leandersson
Per Ragnar

Notas: outro filme de vampiros atípico e anti-clichés desse sub-género que recomendo é "Cronos" de Guillermo del Toro

Thursday, May 28, 2009

Vingança Planeada - Chinjeolhan geumjassi



Pura como neve


Uma procissão musical cristã toma lugar à porta de uma prisão, em honra de Lee Geum-Ja (Lee Young Ae) uma recém libertada e reformada prisioneira, sentenciada pelo homícidio de uma cirança chamada Won Mo. O caso, atraiu a atenção da nação devido à sua aparência jovem e inocente e condenou-a a uma longa sentença, senteça essa que foi encurtada devido à sua aparente transformação pessoal na prisão. No então mal abandona o cárcere, Geum-Ja ignora a procissão em sua honra e parte imediatamente com o intuito de se vingar.

Lee Geum-Ja, não cometeu o homícidio de que foi acusada. O verdadeiro assassíno, Mr. Baek (Choi Min-Sik) forçou-a a confessar pelo crime ou a filha recém nascida de Geum-Ja seria morta.
Na prisão vemos Geum-Ja a fazer um grande número de amizades: doa um rim a uma companheira de cela, toma conta de outras e assassina uma prisioneira que agradia e violava outras mulheres. O seu comportamento maternal granjeia-lhe a alcunha de "Sra. com um coração de ouro".

Fora do cárcere Geum-Ja começa rapidamente a largar essa fachada de simpatia e adopta simbolos que reforçam essa transformação como usar sombra para os olhos vermelho-vivo e sapatos de tacão provocadores. A sua sede de vingança manifesta-se através de sonhos recorrentes nos quais ela mata Mr. Baek.

Fora da prisão somos testemunhas do minucioso plano que Geum-Ja coloca em acção. A sua eficácia, meticulosidade, calma e descernimento fazem dela um ser frio e distante cujo o único objectivo é a vingança. A transformação de jovem inocente, para mulher amarga, mudada por circunstancias que não pode evitar, fazem de Geum-Ja o protótipo da anti-heroína: aqui está uma mulher que não conhece limites para atingir os fins. Como espectadores escolhemos antecipar o climax da sua vingança e crer que é justificada, ou aguardamos que uma cadeia irrevogável de acontecimentos a impeça de extrair a sua vingança? Que moralidade estará ausente aqui?

A transformação da protagonista conhecerá outro nível quando a sua filha reentrar na sua vida. Será que é tarde para esta mulher perdida voltar a encontrar o seu papel como mãe? A sua filha estava a viver com pais adoptivos Australianos e não fala Coreano. A intimidade entre mãe e filha atinge-se para lá das palavras.

Este é um filme sobre vingança, o terceiro na chamada "Trilogia da Vingança" do realizador Park Chan-wook e mais uma vez este realizador aborda esta temática de forma inesperada. Falei de moralidade e falei de antecipar o climax do filme. Revelar o terceiro acto seria estragar a experiência, mas dizer que a reflexão que cria sobre conceitos como a perda, a validade de quem quer vingança, é apenas despertar a curiosidade.

De facto este filme não se limita a apresentar-nos o vilão destorcido e a justiça que deve ou não ser-lhe aplicada; não apresenta na realidade o vilão como o único potencial monstro, pois coloca as coisas noutra perspectiva: um ser humano toldado pela injustiça da perda, é capaz das mais atrozes acções, capaz de suspender a sua humanidade para pagar na mesma moeda a quem lhe causou dor.

Este filme levanta estes temas e não nos apresenta um final fácil, mas consgue terminar com uma sensação de resolução. Dado os temas e acontecimentos que aqui vemos, parece-me algo difícil de fazer, mas que é bem sucedido. Para pensar sobre as implicações e sobre o que significa a vingança.

Veredicto: 4/5 (Cubos de tofu)

Realizador:
Park Chan-wook
Elenco:
Lee Young-Ae
Choi Min-Sik

Notas: Aconselho os dois restantes filmes desta "trilogia da vingança": "Simpathy for Mr. Vengeance" e "Oldboy-velho amigo"do qual já falei neste blogue.

Sunday, May 24, 2009

Irreversível - Irreversible



O tempo destrói tudo


Estamos na presença de um filme violento, um filme sem restrições, um filme que algumas pessoas irão considerar impossível de ver. "Irreversível" contêm uma cena na qual uma mulher é violada e agredida selvaticamente durante alguns, intermináveis, penosos minutos. A câmara permanece estática, nunca se desviando da hedionda cena. Outro momento já infame deste filme, consiste no brutal assassinato de um homem, com um extintor que é repetidamente, ad nauseam, arremessado à sua cara. Mais uma vez a câmara permanece focada nesse acto animalesco, obrigando-nos a desviar o olhar se não aguentarmos o que vemos.

Que haja muita gente que não viu o filme, mas conhece a sua fama, é normal e de facto a intensidade das cenas que referi não são para os de fraca disposição. Esta obra figurou em vários noticiários devido ao elevado número de pessoas que abandonavam a sua exibição nas salas de cinema. Contudo não considero que este filme seja sensacionalista ou pornográfico.

Tal como "Memento" de Christopher Nolan, este é um filme cuja estrutura cronológica está invertida. Contudo se assim não fosse em vez de abrir com a tenebrosa cena de agressão com o extintor, seriamos convidados a observar a intimidade de um casal muito apaixonado. Eles são Alex (Monica Bellucci) e Marcus (Vincent Cassel). Seguiríamos a sua vivência num dia em que decidiram ir a uma festa em casa de uns amigos. Pelo caminho reúnem-se com Pierre (Albert Dupontel), melhor amigo de Marcus e outrora amante de Alex.

Na festa Alex, vestida de forma sensual é claramente uma fonte de luxúria para os homens que a rodeiam. Seguidamente Alex ausenta-se da festa e caminha por um túnel para fazer um pequeno recado. Aí encontra um chulo chamado Le Tenia (Joe Prestia) que a viola e agride sem misericórdia.

Após esta tragédia seguimos Marcus e Pierre que vagueiam à procura do violador. Acabam por entrar num clube S.M. onde encontram um homem que julgam ser Le Tenia e um deles mata-o com uma fúria descontrolada.

Consideremos agora como o filme começa - com este brutal homicídio - e como termina - com cenas de ternura entre o casal. Com esta abordagem, o inverter dos acontecimentos altera a nossa percepção das cenas e metamorfoseia o impacto que tem em nós. Num plano cronológico normal, presenciaríamos uma descida gradual aos infernos, em que o sexo e a violência agem como uma "recompensa" chocante e sensacionalista - isso é algo que a pornografia faz. Aqui o pior é desde logo apresentado e depois voltamos atrás para observarmos vidas que serão para sempre alteradas.

Desta forma reconsideramos o que vimos nas cenas em que o casal está junto e em harmonia; reconsideramos os subtis sinais de perigo que levam à tragédia; consideramos que saber o futuro não é uma bênção, mas sim uma maldição - nós vemos o futuro e depois observamos o que ocorre antes. Sabendo como tudo acaba, qual o impacto das cenas de felicidade e paz que nos são apresentadas antes da violação? O filme relembra-nos que a nossa vida seria impossível de viver sem a inocência da nossa ignorância.

Ao colocar estas questões este filme apresenta profundidade, leva-nos a reflectir na fragilidade da nossa felicidade. Que as cenas de homicídio e violação nos sejam apresentadas no início obriga-nos a lhes "sobreviver" para que permaneçamos a ver o filme a pensar sobre todas as repercussões. Desta forma o filme não só é contra a violação como é, a nível estrutural, moral.

A ironia reside no facto de todo o conflicto emocional que este filme trasnmite, nos atingir antes e depois das famigeradas cenas que tanta polémica causaram -porque o impacto das mesmas é mais visceral que emocional.

Além disso este filme apresenta-nos uma caracterização feminina muito progressiva. Alex é uma mulher sensual, mas não é um mero troféu ou objecto de desejo. Ela é inteligente, independente, forte e lutadora. Quando é capturada por Le Tenia, observamo-la a utilizar todas as suas forças para lhe resistir, fugir e não se deixar subjugar.

Concluo enfatizando que este é um filme que nem toda a gente quererá ver, pois apresenta muita crueldade. Contudo este filme é contra o crime de violação e a pornografia advoga a favor aquilo que mostra. "Irreversible" não é um filme pornográfico. E no meio de tanta negrura ainda há frinchas que permitem perscrutar os locais de harmonia e beleza do espírito humano. Que isso sirva para nos fazer questionar o que vimos e lamentar a tragédia que se desenrola é uma prova da força e integridade deste filme.

Veredicto: 4.5/5 (Sinfonias nº7)

Realizador:
Gaspar Nóel
Elenco:
Monica Bellucci
Vincent Cassel
Albert Dupontel
Joe Prestia

Notas: Outros filmes que empregam a técnica da inversão cronológica e que recomendo: o supracitado "Memento" de Christopher Nolan e "Betrayal"de David Jones com Jeremy Irons e Ben Kingsley.

Monday, May 18, 2009

Os piratas dos mares da China - Project A




Um hino ao humor físico


Hong Kong 1900. Piratas ardilosos tem saqueados navios meses a fio, iludindo a polícia marítima e a força policial de Hong Kong. Claro que o facto de estes dois departamentos manterem uma acesa rivalidade - que culmina num visualmente deliciosa e caótica briga de bar - não ajuda na captura dos infames piratas. Dragon Ma (Jackie Chan) é um oficial da polícia marítima, que se vê obrigado a treinar sob a tutela da polícia de Hong Kong, numa tentativa de reunir esforços e capturar o líder dos piratas San-Po (Dick Wei).

Dragon Ma terá não só que tentar pôr cobro aos raids piratas, como também unir as forças policiais num esforço comum e combater a corrupção que existe no seio de ambas. Este é o resumo do enredo, mas honestamente nunca vi um filme do Jackie Chan pelo enredo e este não é excepção.

Os filmes de Chan não possuem enredos elaborados, nem são lembrados pela carga dramática que as cenas ou os actores transmitem. No entanto também não são essas as razões pelas quais eu vejo um filme deste talentoso actor. Sim talentoso, não na senda de um Nicholson, um De Niro ou Pacino, mas sim de um Buster Keaton ou Charlie Chaplin. Ou seja a capacidade de nos entreter com um humor físico extremamente expressivo, coreografado com um sentido de timing cómico sem mácula. Jackie Chan não é o sucessor de Bruce Lee nem pretende se-lo. Ele emprega as suas proezas físicas em situações de combate que tem um efeito visual cómico, mas também algo sério: não nos esquecemos que tudo é coregrafado, mas também não é possível não admirar a técnica e o timing com que tudo é executado. Além do mais é do conhecimento geral - através dos out takes que povoam os créditos finais de quase todos os seus filmes - que Jackie não usa duplos e arrisca imenso em algumas cenas de perigo real.

Neste filme existem cenas de grande escala, desde uma caótica briga num bar, passando, por uma perseguição nos telhados, até uma genial e extremamente cómica perseguição de bicicletas que só podia sair da mente de Jackie Chan. A presença de grandes estrelas do cinema de artes marciais como Sammo Hung e Yuen Biao asseguram que não é só Jackie que é capaz de nos impressionar com os seus feitos.

Em suma este filme é um entretenimento garantido, porque não é só um filme de acção e artes marciais; tem também momentos cómicos bem construídos, em que o humor situacional e físico imperam. É inegável a qualidade das coreografias de combate, assim como toda a reconstituição histórica que presenciamos - a nível de cenários e guarda roupa.

Num altura bem anterior á americanização de Chan, este é um dos seus melhores filmes dentro do género da comédia de acção.

Veredicto: 3.5/5 (Espingardas)

Realizador:
Jackie Chan
Elenco:
Jackie Chan
Sammo Hung
Yuen Biao
Dick Wei
Lee Hoi San

Notas: Aconselho também da filmografia de Chan a sequela deste filme, entitulada "Jackie Chan é o herói - Project A part II".

Thursday, May 14, 2009

Cães Danados - Reservoir Dogs



Vilões coloridos

Quentin Tarantino é conhecido pelo seu amor pelo cinema, pela forma apaixonada, quase pueril com que se refere aos seus filmes favoritos, quer os tenha realizado ou não. Particular aficionado dos filmes séries B e de exploitation, sempre fez questão, contudo, de reverenciar - e referenciar - vários géneros cinematográficos. Nesta sua primeira obra Tarantino evoca principalmente a estética do filme noir e do heist movie - este ultimo com uma certa variação.

"Cães Danados" conta uma história simples: cinco desconhecidos são contratados para assalatar uma joalharia. Nenhum se conhecia antes de serem contratados e para manterem o seu anonimato, cada um tem o seu nome substituído por uma cor: Mr. Blonde (Michael Madsen), Mr. Blue (Eddie Bunker), Mr. Brown (Quentin Tarantino), Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Pink (Steve Buscemi) e Mr. White (Harvey Keitel). Esta galeria de personagens coloridas tomará o centro da acção, quer física, quer falada. Afinal de contas este é um filme de Quentin Tarantino, pelo que além da violência gráfica, acção minuciosamente coreografada, numerosas referências à cultura popular, não podiam faltar os diálogos rápidos, incisivos, mordazes e auto-referenciais - a marca por excelência deste realizador.

Tal como no seminal "Pulp Fiction", a progressão narrativa é não-linear, transmitindo uma sensação de caos e adrenalina, tal como os eventos que ocorrem no filme. Referi que Tarantino evoca os heist movies - filmes de golpe/assalto -, mas numa interessante reviravolta apenas nos são mostrados os acontecimentos que antecendem e que precedem o assalto à joalharia. Com esta opção ficamos a saber o que aconteceu pela boca dos assaltantes e tendo em conta que surgem versões diferentes dos acontecimentos a situação fica extremamente tensa e misteriosa. A omissão do assalto coloca toda a atenção nas atitudes dos protagonistas, obrigando-nos a estudar as suas reações a procurar respostas. Contudo este mistério não é a parte central do filme. Esta obra gira à volta de homens duros e da forma como se relacionam em alturas conflicto - um conflicto que explode entre eles, quando o assalto corre de forma não planeada.

Estamos perante um cocktail de diálogos espirituosos, acção, música dos anos setenta, violência e homens que tentam ser grandiosos na sua maldade e frieza; falo da pose dos vilões dos filmes noir, traiçoeiros rudes - e aqui bastantes malcriados, porque a profanidade também é uma das marcas de Tarantino.
Sem dúvida que as personagens caminham as linhas do estereótipo dos vilões cool, mas isso é algo que não foi inventado por Tarantino, ele apenas se limita a reavivar essa imagem.

Para uma primeira obra sem dúvida que considero este filme de grande qualidade, ainda que perca em comparação com os filmes seguintes do realizador. Contudo a maior parte dos temas que lhe apraz abordar surgem já aqui na sua grande maioria. Um filme para fãs e para todos os outros que gostam quando a arte é auto-referêncial.

Veredicto: 3.5/5 (Orelhas)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
Harvey Keitel
Tim Roth
Steve Buscemi
Chris Penn
Michael Madsen
Lawrence Tierney

Notas: Deste realizador aconselho outro filme sobre uma golpada "Jackie Brown". Ou num registo diferente "Inglourious Basterds" cuja estreia no grande ecrã está próxima.

Monday, April 27, 2009

Este país não é para velhos - No country for old men





A morte tem um rosto


Este filme abre com a narração do sheriff Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), sobre como o crime está a aumentar naquela região desolada do Texas, em 1980. O seu tom está repleto de desalento, a voz de um homem que sabe que os tempos mudaram e que se tornou obsoleto perante essa mudança. Este monólogo de abertura corre o risco de se tornar um daqueles discursos icónicos da sétima arte.

Somos depois apresentados a Llewelyn Moss (Josh Brolin) um soldador, que enquanto caçava perto do Rio Grande descobre uma cena de massacre: vários carros abandonados, cadáveres por toda a parte e grandes quantidades de heroína. Claramente um negócio de droga que teve um desfecho trágico. Llewelyn descobre o homem que fugira com o dinheiro e decide guardar a avultada soma para sim - a calma com que ele faz tudo isso é digna de uma análise da personagem por si só. Ao fazê-lo vai despoletar uma cadeia de acontecimentos trágicos.

Llewelyn torna-se o alvo de Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino contratado para recuperar o dinheiro. Chigurh é um sociopata existencialista com um hábito de fazer perguntas filosóficas às suas vitímas. A sua busca pelo dinheiro é implacável e a sua habilidade para aparecer sempre perto do Llewelyn, quase sobrenatural. O seu desempenho no assassínio de todos os que se lhe opõem e até daqueles que não lhe oferecem qualquer resistência é infalível. Se lhe tirassemos o corte de cabelo ridículo, colocassemos uns óculos escuros e o despissemos de personalidade, estaríamos na presença do Exterminador Implacável. Contudo a sua personalidade e diálogos fantásticos e hipnotizantes tornam-no algo infinitamente superior a uma caricatura ou algo cómico. Sempre que Anton está em cena a tensão é palpável ,para as suas vítimas e para nós. Sem dúvida um dos grandes vilões da história do cinema.

O filme é uma espécie de western moderno, onde três personagens estão envolvidas numa perseguição sem tréguas. O sheriff tentar trazer Llewelyn para a segurança, mas este mostra-se irredutível em manter o dinheiro; Chigurh é uma força imparável e amoral que parece estar sempre um passo atrás; e Llewelyn não compreende que a situação na qual se colocou o transcende. O filme tem momentos de acção e tensão, ma so seu ritmo é contemplativo. Os diálogos são as força motriz do filme, com a sua simplicidade e genialidade desarmante. As cenas passadas em pleno deserto tem uma componente etérea belíssima.

Este é um filme que captiva pelas interpetações, diálogos e momentos marcantes. O seu ritmo é calmo, quase diria que é um Western zen. No fim levanta questões que importam discutir sobre a vida, a morte, a era moderna e os "bons velhos tempos", pois este é também um filme sobre uma América que já não existe, uma América que perdia ali, no início dos anos 80 o que restava da sua "inocência".

Veredicto: 4/5 (armas de gado)

Realizador:
Joel e Ethan Coen
Elenco:
Josh Brolin
Javier Bardem
Tommy Lee Jones
Woody Harrelson
Kelly Macdonald

Notas: Dos mesmos realizadores aconselho "Blood Simple", "Fargo", ambos filmes sobre as consequências desastrosas de planos que correm mal. Num tom mais ligeiro - bem mais de facto - "Destruir depois de ler".

O Cavaleiro das Trevas - The Dark Knight




O que significa ser um herói?


Gotham City é uma super metrópole decadente. Um local cheio de edifícios imponentes, sumptuosos, que contrastam com as ruas decrepitas e inseguras. A criminalidade é rampante e a polícia corrupta e inepta para a combater. Batman (Christian Bale) continua a ser um vigilante temido por uns, amado por outros, que se mantêm à margem da lei no seu combate ao crime. Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) continua activamente a combater o crime na barra do tribunal, agora com o seu namorado, o procurador Harvey Dent (Aaron Eckhart) como aliado. A máfia que controla a maioria do crime organizado na cidade continua a tentar eliminar Batman. Não mudou muita coisa desde o fim do primeiro filme. Isto é até surgir um novo tipo de ameaça.

O início do filme é electrizante: o assalto a um banco onde a máfia guarda o seu dinheiro, durante o qual os seus perpretores vão se eliminando um a um, supostamente a mando do cabecilha, para que não haja pontas soltas. Este começo intrigante e recheado de acção serve para nos apresentar desde logo a personagem do Joker (Heath Ledger) e para que saibamos que estamos na presença de um vilão extraordináriamente ardiloso e impiedoso. A segunda aparição do Joker servirá para que compreendamos que, de cada vez que ele surge em cena, não sabemos o que esperar, mas somos sugados pelo seu magnetismo, pela sua presença esmagadora.

Os temas principais desta sequela, do já bastante bom "Batman: O início", é: quanto tempo será Batman capaz combater a injustiça, antes de ceder à tentação de fazer justiça pelas suas próprias mãos; onde acaba a justiça e começa a vingança? O herói, ou anti-herói, dependendo da visão de cada um, começa a sentir-se assoberbado pela quantidade de injustiças e ignonímias que são perpretadas e ficam impunes face à lei. Será ele capaz de manter o seu código moral face a vilões que não possuem tal coisa e até usam isso contra Batman? Além do mais este novo adversário, este Joker é capaz de criar os mais dificeis dilemas, as mais dificeis escolhas que colocam o herói numa situação em que qualquer escolha implica uma pesada derrota.

Este é sem dúvida o filme de super-heróis que atravessa a linha do simples entretenimento e passa para territórios de elevado drama. As personagens são complexas, assim como as suas relações. As situações e os dilemas morais e pessoais apresentados são complexos e desafiantes.
Retirem a máscara a Batman e a maquiagem ao joker e estamos na presença de um filme policial de contornos operáticos. Mas sendo este ainda um filme de acção, não faltam momentos de grande espectacularidade, mas sem dúvida que o entretenimento jaz na interação das personagens e nas suas relações.

Este filme ficará para sempre marcado pelo desempenho do falecido e postumamente oscarizado Heath Ledger. Muito já foi dito sobre o seu desempenho de um joker que surge como um elemento causador de instabilidade e destruição; o caos personificado que não tem origem, apenas a finalidade de criar a desordem. Num filme com um elenco tão prestigiado, que o vilão seja a personagem que mais interesse provoca, não é minorizar as restantes, pois são todas soberbas, mas sim apontar a qualidade deste Joker que já se tornou um ícone cinematográfico.

Este Cavaleiro das Trevas é um dos filmes mais importantes do seu género e que não tenho dúvidas que ficará na história do cinema. As implicações que são lançadas aqui sobre o caminho que Batman terá que seguir, face aos acontecimentos que enfrentou, prometem uma sequela ambiciosa, mas que terá uma tarefa árdua de superar este grande filme.
Veredicto: 5/5 (Lápis que desaparecem)

Realizador:
Cristopher Nolan
Elenco:
Christian Bale
Heath Ledger
Maggie Gyllenhaal
Aaron Eckhart
Gary Oldman
Morgan Freeman
Michael Caine

Notas: Do mesmo realizador aconselho o enigmático "Memento" e o filme que antecede este "Cavaleiro das Trevas", "Batman : O início".

Friday, April 17, 2009

Blade Runner Perigo Iminente - Blade Runner




Da humanidade

L.A. 2019 . Uma paisagem repleta de edifícios gigantescos e imponentes, sobrevoada por veículos híbridos que parecem ter partes de nave e de carro e iluminada por painéis publicitários enormes. No entanto isto é apenas o céu, apenas a guarida de todos aqueles que tem dinheiro para viver nestes luxuosos colossos de metal, vidro e betão. Aqui vivem os magnatas, a elite de um mundo em que mega empresas controlam tudo. Nas ruas no nível térreo a realidade é bem mais caótica. As ruas estão sobrepovoadas, toda a gente tenta subsistir em todo o tipo de actividades legais ou ilegais, muitos neons, muitos prédios degradados, pobreza, criminalidade, ruas cheias de fumo, ruído e movimento. É neste ruas que se movimenta Rick Deckard (Harrison Ford), um Blade Runner que é forçado a sair da reforma para caçar replicants.

Um replicant é um ser humanóide artificialmente criado. Exteriormente são exactamente iguais aos humanos, sendo apenas passíveis de serem identificados através de um teste de empatia. Após uma revolta iniciada pelos replicants, a sua existência na Terra foi banida. Contudo quatro replicants fugiram de uma colónia no espaço e estão de momento a monte em L.A. Estes replicants foram construídos com um mecanismo que lhes permite viver apenas quatro anos, para que não desenvolvam memórias e se tornem demasiado humanos.
A missão de um Blade Runner é eliminar replicants. O instinto de um replicant é sobreviver a todo o custo a um Blade Runner...a todo o custo.

Acompanhamos Rick na sua deambulação pelas ruas decadentes desta metrópole (retro)futurista, ruas fumarentas, nas quais o protagonista erra como um detective saído de um noir. Deckard tem de facto um instinto apurado, mas de facto parece algo despistado nos seus confrontos com os replicants. A questão de como um humano sozinho pode ser um oponente contra os replicants, que são fisicamente mais fortes, surge muitas vezes no filme; mas dado que a questão da identidade e do que significa de facto ser humano povoa todo o filme, considero que isso é apenas mais uma parte do puzzle.

No iníco do filme Deckard conhece Rachael (Sean Young), uma assistente de Tyrell, o dono de uma das mais poderosas empresas do mundo e criador dos replicants. Rachael é uma replicant experimental que julga ser humana. As memórias que possui pertencem à sobrinha do seu patrão. Deckard sabe que Rachael não é humana, mas cedo um romance se desenvolve entre ambos.

Na sua procura pelos replicants foragidos Deckard mostra-se insensível à possibilidade de estes seres poderem ser mais que meras "criações", contudo envolve-se com uma. A natureza desta relação é ambígua e cada um poderá retirar uma leitura diferente: será que é uma relação puramente física, ou existe um verdadeiro sentimento de ambas as partes? Mas poderá um ser artificial sentir o amor? E Deckard? Será realmente humano? Como é possível que ele sobreviva constantemente a encontros mortais com os replicants e sobreviva? Sorte ou algo mais? Como disse a questão da identidade e do que implica a humanidade é algo que está sempre presente neste filme.

Mas e que dizer dos replicants? Principalmente do seu líder, Roy Batty (Rutger Hauer) um modelo de combate, alto, forte, loiro, ariano? Roy parece alternar entre um psicopata destemido e uma criança grande. No seu combate final contra Deckard, Roy demonstrará que a compaixão não é um valor exclusivamente humano. E o seu monólogo final coloca em perspectiva a questão da memória, da brevidade de toda a vida e experiência humana. A companheira de Roy, Pris (Daryl Hannah) é um modelo de prazer que também age como uma criança, mas quando é provocada torna-se mortal. Enquanto se escondem daqueles que os caçam, este replicants vivem num mundo quase de sonho, com um humano que cria brinquedos.

Estes replicants temem a morte, eles estão cientes que são finitos, que a sua existência é ainda mais breve que a dos humanos. Eles choram a morte um dos outros. Eles querem saber porque foram criados e se existem algum propósito ulterior á sua criação. Querem saber porque não lhes é permitido exceder as suas limitações impostas. É dificil não nos questionarmos onde jaz a humanidade nesta história e como consequência no mundo real. Quando um ser artificial é capaz de demonstrar mais compaixão que um humano, coloca-se a questão: a humanidade é um estado etéreo que transcende a componente biológica, física? Afinal o que é que nos torna realmente humanos? A capacidade de sentirmos empatia e compaixão, ou é tudo uma questão de estatuto biológico?

Que um filme seja capaz de levantar estas questões e muitas outras é por si só um feito notável. E sendo verdade que as respostas ficam para que nós as encontremos e os significados ocultos para que nós os decifremos, considero que este filme é um excelente ponto de partida para outros debates.

E este é um filme que suscita muito debate, devido á existência de várias versões, com finais diferentes que podem alterar a forma como interpretamos sequências chave. A edição a que este texto se refere é o Director's cut.

Veredicto: 3.5/5 (unicórnios de origami)

Realizador:
Ridley Scott
Elenco:
Harrison Ford
Sean Young
Daryl Hannah
Rutger Hauer
Edward James Olmos

Notas: filmes que abordam as relações complexas entre humanos e seres artificiais e que tal como este foram baseados emk romances de Philip K. Dick e que recomendo : "I.A - Inteligência artificial" e "I Robot".

Tuesday, April 14, 2009

Persepolis




O sinal mais famoso do Médio Oriente

Num aeroporto, uma jovem mulher, Marjane Satrapi é impedida de entrar num avião para o Irão. Sentada e a fumar um cigarro ela começa a relembrar a sua infância em 1979, como uma criança de 10 anos com sonhos de ser uma profeta e imitadora de Bruce Lee. Nessa altura o Chá do Irão, apoiado pelos E.U.A é extremamente impopular e a família de Marjane tenta apoiar a sua demoção na esperança de criar uma sociedade mais justa.

Contudo as eleições que se seguem são ganhas por Fundamentalistas Islãmicos e apartir daí a vida de Marjane vai conhecer uma profunda reviravolta, à medida que o governo no poder vai criando um estado repressivo: as mulheres tem que tapar a cabeça, não podem sair sozinhas à rua pois são assediadas pelos militares e outros homens, dissidentes são capturados e executados e qualquer desacordo com o regime pode causar sérios problemas.

Contudo a jovem Marjane é rebelde e livre de espírito. Face a códigos tão rígidos ela assume uma postura de desafio: usa t-shirts de bandas de metal na rua, houve música rock e protesta contra as mentiras que lhe ensinam na escola. Os seus pais também organizam festas secretas para gozarem os pequenos prazeres que o governo proíbiu, como o alcool.

Só que esta conduta rebelde coloca Marjane e a sua familía em perigo, pelo que decidem envia-la para a Europa para estudar e viver de forma livre. Na Austria, vai sentir-se terrivelmente isolada, numa sociedade que não valoriza as liberdades que possui, mas que gosta de as exibir. Aí alojada numa casa de freiras, Marjane vai continuar a demonstrar aos que a rodeiam , que a intolerãncia existe em todos os cantos do globo. Também haverá tempo para descobrir o amor e o desgosto.

A viagem pelas memórias de Marjane ainda vai permitir um regresso à sua terra, mas no que diz respeito à sinopse desta história, quedo-me por aqui, pois este filme é muito rico do ponto de vista narrativo e ainda só aflorei a superfície.

A história é de facto um ponto forte, não só pela forma como é narrada, mas também pelo uso absolutamente perfeito do equílibrio entre momentos de alegria e de tristeza. Não é todos os dias que o público ocidental pode contactar com um filme que pinta um retrato tão descomprometido de uma sociedade que nos habituamos a ver no noticiário - quase sempre pelas piores razões -, mas que mal conhecemos.

É um filme nos fala da guerra e da sua inconsequência e sempre que alguém morre, sempre que uma injustiça é cometida em nome da guerra ou de um ideal político ou religioso o filme não toma partidos, apenas aquele partido que devia ser de todos: o do respeito por toda a humanidade. Vemos sempre tudo da perspectiva da protagonista, quando esta é criança e quando é uma adolescente e pelos olhos de uma criança a guerra e o ódio são objectos feios, incompreensíveis e aberrantes.

É um filme que também nos mostra que os países do Médio Oriente, não são antros repletos de fanáticos religiosos; lá como em qualquer lado, mesmo ao fundo da vossa rua, existem pessoas capazes de uma humanidade tremenda e pessoas capazes das mais indizíveis acções. E quando um filme nos apresenta a realidade desta forma é dificil não ficarmos rendidos à simplicidade com que o faz. Não é maçudo, não é dramalhão, é honesto e não possui agenda política: o seu objectivo não é odiarmos o Irão, o Médio Oriente em geral, a religião cristã ou Muçulmana, a Europa ou os E.U.A. A sua agenda é questionarmos as acções que cada um de nós toma que limita, discrimina os outros, mesmo aquelas que fazemos sem pensar. Portanto o alvo são todas as sociedades que permitem ou toleram a descriminação, todas as sociedades que ainda fomentam a guerra seja por que motivos.

O feito extraordinário deste filme é a forma como nunca torna nenhum tema pesado ou politicamente comprometido. Os momentos de humor estão presentes e o filme consegue ser equilibrado: ver Marjane com um blusão de ganga com as palavras "Punk is not dead" a desafiar duas mulheres fanáticas é um momento em que o humor e a tensão estão em perfeita sintonia.

E Marjane é uma protagonista maravilhosa: expressiva, inteligente, rebelde, culta, mordaz, apaixonada. O filme resulta porque acima de tudo nos preocupamos com ela e ao observarmos o seu crescimento, sentimos mesmo que a conhecemos.

Por fim convém salientar a animação simples e a preto e branco que é de uma expressividade fulgurante: as ruas, as pessoas, os efeitos de movimento, os rostos das personagens e todas as suas inúmeras expressões compõem uma obra que visualmente é arrebatadora. Nunca um filme a preto e branco teve tanta cor. Um filme imenso e eterno - e baseado numa história real.

Veredicto: 5/5 (Botões do Michael Jackson)


Realizador:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco:
Chiara Mastroianni
Catherine Deneuve
Danielle Darrieux
Simon Abkarian

Notas: Para mais filmes que nos apresentam perspectivas diferentes das sociedades Orientais, recomendo "Paradise Now".

Thursday, March 26, 2009

Kill Bill






Here comes the bride...

Uma das controvérsias em torno do quarto filme de Tarantino gerou-se com a decisão de dividir a obra em duas parte, algo que muitos viram como uma jogada sem escrúpulos para receber mais dinheiro por um só filme. A minha opinião sobre os motivos que levaram à divisão do filme em dois não interessam, mas a minha leitura sobre o díptico é a seguinte: Kill Bill deve ser visto como um só filme; a parte dois não é uma sequela, mas sim a segunda metade que o completa. A parte um não faz sentido sem a parte dois, seria como ler um livro do meio até ao fim ou do início até ao meio. Contudo a divisão em duas partes, apesar de tornar os filmes algo desiquilibrados, permite analisar a diferença de tom e muitas das referências com as quais Tarantino, como cinéfilo, povoou o filme.

A narrativa é contada através de uma ordem cronológica não-linear, ao estilo do seminal "Pulp Fiction" e dividida em capítulos. Conhecemos a história da Noiva (Uma Thurman), uma assassina reformada, que é atacada no dia do seu casamento, estando grávida ainda para mais, pelo seu antigo chefe e amante, Bill (David Carradine). Desde o ínicio sabemos que esta será uma história de vingança, pois a Noiva, cujo verdadeiro nome apenas conhecemos no volume 2, sobrevive ao violentíssimo ataque do Esquadrão de Víboras, os assassinos de elite de Bill. Após o seu longo coma e tendo perdido a sua filha, a Noiva prepara uma lista de alvos a abater, sendo o último obviamente o titular Bill.

Esta é a simples premissa, como normalmente esperamos de um filme com a vingança como pano de fundo e de facto todo o percurso bebe inspiração de filmes mais antigos com temáticas de vingança. Tarantino essencialmente pegou em dois géneros que são clássicos do cinema mundial e que abordaram inúmeras vezes o tema da vingança: são eles o western e o filme de samurais. Culturalmente enraizados nos países de origem e na mente de cinéfilos de todo o mundo este tipo de filmes sempre mostraram homens e mulheres, que em situações adversas fazem justiça pelas próprias mãos. Claro que os temas não se esgotam aí, mas a vingança sempre assentou bem nas áridas planícies do deserto americano ou sob as amendoeiras em flõr de um Japão feudal.

Esta é claramente a primeira e mais óbvia diferença entre a primeira e a segunda parte. Se no volume um, a homenagem é totalmente direccionada aos épicos de artes marciais, na segunda é o western que assume destaque. Claro que se virmos os filmes como deviam ser vistos, ou seja de uma só vez, a transição é fluída, mas vistos separadamente a ideia que fica, é que o primeiro concentra a maior parte da violência e o segundo a maior parte dos diálogos e do desenvolvimento das personagens. Por mais que isto seja verdade, ambos os filmes são bem sucedidos naquele que é o seu objectivo principal: serem homenagens sentidas a um tipo de cinema de série B que teve o seu apogeu na década de 70 em ambos continentes Asiático e Norte-Americano.

A viagem da Noiva faz-se pelos subúrbios americanos, pelos bairros futurísticos e coloridos a neon do Japão, as vastas planíces desertas dos E.U.A e as praias do Novo México. Até chegar a Bill ela terá que enfrentar o seu esquadrão de assassinos, todos com nomes de código que remetem para uma espécie mortal de víbora - na melhor tradição de filmes de artes marciais em que os grupos de guerreiros tinham nomes de animais. Esse grupo é uma galeria de personagens diversas e muito especiais, que vão de Vernica Green, uma dona de casa verdadeiramente perigosa (Vivica A. Fox), uma loira e ciclópica assasina Elle Driver (Daryl Hannah), um aparentemente estafado e inútil segurança de um stripclub e irmão de Bill, Bud (Michael Madsen) - um actor que renasce sempre que é chamado por Tarantino - e O' Ren Ishi, uma chefe da máfia japonesa com ar angelical e um coração de gelo ( Lucy Liu).

Até embate final somos brindados com sequências de acção muito sangrentas, mas muito estilizadas - ao bom estilo dos filmes japoneses de acção - que o sangue jorra em quantidades absurdas; mas a intenção não é fazer rir, são simplesmente códigos estéticos que estão para os filmes de artes marciais, como os duelos ao amanhacer para os westerns. Os embates entre A Noiva e os "Víboras" são sempre épicos, cada um de forma diferente e sempre jogando com a noção que cada um de nós tem de como uma batalha entre titãs deve ser. Claro que tenho que destacar no segundo volume, o flashback do treino que a Noiva se submete às mãos do exigente e severo Pai Mai ( Gordon Liu). Este segmento coloca na nossa retina toda a mística representada pelo estereótipo do mestre eremita que é um deus do combate e da meditação. É um capítulo que quebra o tom de Western que domina a segunda parte, para nos enviar de novo para ambientes orientais. Na primeira parte a música de Nancy Sinatra "Bang Bang (My baby shot me down)" lembrava-nos o velho oeste enquanto a acção se desenrola no oriente. Tarantino prova que sabe jogar com os símbolos e ícones, numa sinestesia cinematográfica que só está ao alcance dos realizadores mais dotados.

Tarantino não inventa nada de novo, serve-se de todos os clichés que existem nos filmes que homenageia e aplica-lhes uma roupagem moderna, simultaneamente prestando-lhes reverência. Não só isso mas a forma como cria as personagens e as cenas indicam o carinho de alguém que cresceu a ver filmes de série B e que agora quer partilhar essa experiência com o público - e para os conhecedores o filmes está repleto de referências a outros filmes, tornando esta obra num meta-filme.
Claro que depois há os inigualáveis diálogos à la Tarantino: mordazes, incisivos, irónicos, rápidos e auto-referenciais - sendo que que a fala de Bill "Isto sou eu no meu mais masoquista" é já um clássico. Esta mescla cria um filme que é sem dúvida um épico e acção. Aqui o que está em causa é entreter e piscar o olho aqueles que sabem que o material que aqui está presente não é novo, mas é bem tratado, logo todo o tipo de cinéfilos que adoram filmes de acção, em que as personagens não são de cartão, vão encontrar aqui algo que lhes agradará.

Em suma Kill Bill entretém se for visto em separado, mas a sua escala e grandeza épica é melhor compreendida e saboreada se visto na sua completude de uma só vez - aceita-se um intervalo mais longo, até porque a duração total atinge as quatro horas. No fim desta viagem com a vingança como mote, como sede que tem que ser satisfeita, compreendemos que o cinema é como a literatura, feito de hiperligações em que um filme remete para outro e como a leitura de objectos diferentes pode servir para os aproximar. Este filme pode ser visto de várias maneiras, mas a primeira de todas deve ser em nome da diversão e do prazer pelo cinema. Tudo o resto que possamos receber são guloseimas que nos deleitam. Como cinéfilo quase fanático, antes de realizador, Tarantino sabe como adoçar a nossa boca.

Veredicto: 5/5 (Sequências de anime inesperadas)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
UmaThurman
Daryl Hannah
David Carradine
Vivica A. Fox
Michael Madsen
Gordon liu
Lucy Liu


Notas: O clássico "Pulp Fiction" e "Cães Danados" são filmes que recomendo da filmografia de Tarantino.

Monday, March 23, 2009

Os Guardiões - Watchmen




A natureza humana sob uma máscara

Na América existem vigilantes mascarados que combatem o crime. Nas décadas de 30 e 40 esses vigilantes formam um grupo chamado os Minutemen. Este grupo atrai a atenção do público e é de certa forma bem sucedido no combate ao crime. Contudo vários membros não são capazes de combater os seus próprios demónios - sob a forma de alcool, drogas, ou outros comportamentos que levam a que outros ou eles próprios ponham termo às suas vidas. Décadas depois uma segunda geração de vigilantes forma um novo grupo designado os Watchmen. Este novo grupo desempenhará um papel fulcral em ganhar a guerra do Vietname, a favor dos E.U.A. Como consequência disso em 1985 Richard Nixon é ainda presidente e os E.U.A estão em plena guerra fria com a Rússia, mas o holocausto nuclear está mais perto que nunca.

Contudo o público começa a ficar descontente e revolta-se contra a existência de vigilantes mascarados que eles consideram agir impunemente em relação à lei e como consequência no início da década de 80 os vigilantes mascarados são proibidos.

A acção principal decorre em 1985 com a morte de um dos membros dos Watchmen, O Comediante ( Jeffrey Dean Morgan). Claro que ninguém sabe que ele era um dos vigilantes mascarados, ninguém até outro antigo membro do mesmo grupo decidir investigar aquele homicídio. Entra em cena Rorschach (Jackie Earle Haley) o único elemento dos Watchmen que ainda opera como um vigilante mascarado, ainda que às margens da lei. Ele vai tropeçar num plano que consiste na aniquilação de todos os antigos vigilantes mascarados, cujos objectivos colocam em perigo toda a humanidade.

Esta é a premissa do filme e sobre ela não será necessário revelar mais, contudo ressalvo desde já que o enredo é coeso e bastante credível naquilo que ainda se pode considerar um filme de super heróis. Contudo "Watchmen" traz muito mais que isso. A minha entrada anterior neste blog falava de como o "Batman" de Tim Burton, marcava uma nova era nos filmes de super-heróis. Em 2008 três filmes vieram elevar ainda mais este género cinematográfico, colocando-os num patamar de entretenimento, que ousa ser mais do que ligeiro, ousa desafiar o intelecto, ousa oferecer mais que acção estilizada e efeitos cgi - esses filmes são Hellboy 2, Iron Man e The Dark Knight. Em 2009 a fasquia eleva-se um pouco mais com este filme.

Acima de tudo importa estabelecer desde já o seguinte: estes não são heróis no sentido tradicional do termo. De todos eles apenas um tem super-poderes, o Dr. Manhatan ( Billy Crudup), sendo os restantes capazes de manifestar proezas a nível físico e intelectual, que estando a cima da média do homem comum, não estão no reino da total inverosimilhança. Aqui ninguém voa, dispara lazers dos olhos, teias dos pulsos, ou é imune a balas. São todos mortais. Não apenas isso. São pessoas. As máscaras não escondem as suas personalidades, acentuam-nas, para o melhor ou para o pior.

O elenco é vasto e reside nele a força do filme. Edward Blake/O Comediante, cuja morte abre o filme, é-nos apresentado como uma irredutível máquina de guerra; um -aparentemente - amoral homem que só vive para destruir. Contudo surpreende-nos com a sua capacidade de analisar a sociedade que nos rodeia e o verdadeiro espírito da humanidade. Chama-se O Comediante, contudo nada nele é engraçado, é antes trágico, cru e real. Dele saem as verdades que toda a gente vê mas não quer enfrentar.

Walter Kovacs/Rorschach é um vigilante cuja máscara assume diferentes padrões - em tempo real, como que a reflectir o seu estado de espírito- a preto e branco, como um teste de Rorschach - daí o seu nome. A sua visão do mundo é, tal como a sua máscara, a preto e branco; esta visão absolutista torna-o amoral no que toca à punição dos criminosos, algo que ele faz com brutalidade e talvez algum prazer. Não há para ele condicionantes nos comportamentos humanos. É um absolutista que acredita que não existem concessões: a verdade tem que ser sempre encontrada, não obstante as consequências.

Laurie Jupiter/Silk Spectre (Malin Akerman) é uma antiga vigilante e a namorada de Dr. Manhatan. Uma mulher dividida entre o amor por um homem e o amor por um super homem. Sente saudades dos seus dias de combate ao crime. Sente que perdeu o seu lugar.

Daniel Dreiberg/ Nite Owl II passa os seus dias a remniscir sobre o passado. Nutre uma paixão irrealizada por Laurie. Se Bruce Wayne fosse descrito como um aborrecido e envelhecido excêntrico, talvez fosse assim. Contudo existe uma candura e uma força dormente neste Daniel Dreiberg que é despertada graças à paixão.

Adrian Veidt/Ozymandias é um homem que construiu a sua fortuna á volta da sua imagem como vigilante, vendendo merchandizing da sua personagem Ozymandias. é considerado o homem mais inteligente do mundo. Está empenhado em livrar o mundo da sua dependência de combustíveis fósseis, que na sua opinião é causa não só de poluição, como também do estado de medo nuclear que o mundo vive. Esta personagem é das mais complexas e o seu papel não é tão linear como poderíamos julgar. Na verdade o papel que ele desempenha suscitará algum debate quanto à sua natureza.

Dr. Jon Osterman/ Dr. Manhatan um cientista que após um acidente se torna num ser que vive num espaço quântico. Além da sua tonalidade azul, Jon tornou-se capaz de ver o seu próprio passado e futuro, mudar a constituição atómica do que o rodeia, teleportar-se, alterar o seu tamanho, desintegrar seres humanos...em suma ganhou poderes quase divinos. Vivendo numa realidade diferente da dos humanos, Dr. Manhatan vai perdendo a ligação com a humanidade, pois a sua percepção do tempo e das relações humanas altera-se. Para ele o tempo é relativo, pois não envelhece, o peso da vida humana é também relativo para ele que se torna imortal. O seu distanciamento da humanidade é um tema chave do filme e nele pesa não só uma reflexão sobre o valor da vida humana como da sua singularidade. Num momento comovente ele aperceber-se-á que a via humana é importante devido ao milagre que é surgir do caos, algo tão belo, neste caso a sua amada Laurie.

Mostrar os super-heróis como seres humanos, falíveis e com os quais nos podemos identificar, é uma tarefa admirável porque aqui é bem executada. Mas também levanta a questão: se eles não tem poderes o que tem de "super" um bando de homens e mulheres mascarados que combatem o crime, mas que podem ser - e alguns são de facto - mais perigosos que aqueles que combatem? De facto no filme não é usada a palavra super-herói, mas sim vigilantes mascarados e não creio que seja á toa. Podemos mascarar-nos, mas isso não nos torna heróis, as máscaras são escudos, algumas vezes de impunidade. Se os Watchmen são heróis, em certos momentos bem perto de um modelo olimpiano, é porque eles tem que fazer o que muitas vezes tem que ser feito, mas ninguém o quer fazer; porque queremos sentir-nos seguros, mas não queremos saber o que é preciso ser feito para atingir essa segurança.

Este tipo de reflexão é permitida neste filme e quando a tentamos aplicar a outros filmes deste género, conseguimos ver a diferença entre entretenimento inconsequente e entretenimento que respeita a nossa inteligência. Sim este filme tem cenas de acção estilizadas, é violento, negro e pede que suspendamos a nossa crença - tal como em qualquer outro filme de super-heróis; existem momentos em que sabemos que estamos a ver um filme de acção, quando há combates impossíveis, naves e homens azuis que manipulam os átomos e destroem tanques sem qualquer esforço. Só que para cada cena destas em que os códigos do cinema fantástico estão presentes, recebemos uma ou duas em que o que vemos são pessoas que lutam por serem sãs num mundo cada vez mais insano.

Ainda há muito mais para falar. Há uma cidade chuvosa e cinzenta saída de um policial, os flashbacks que nos explicam a vida de cada personagem sem serem intromissas ou aborrecidas; uma banda sonora inspiradíssima que passa por Nate King Cole, Bob Dylan,Leonard Cohen e muitos outros, que nunca destoa e é capaz de nos absorver ainda mais; há um comentário subjacente ao medo do Apocalipse criado pelo homem e como ele parece cego para o evitar; existem claros ecos do 11 de Setembro particularmente numa das ultimas cenas; existe uma análise das relações entre pais e filhos e subsequentemente entre inteiras gerações que tem que herdar o peso das expectativas que lhes são colocadas.

Sim isto é entretenimento. Sim é um filme com gente mascarada a lutar, a morrer, a amar e a falhar. Tanto que ainda poderia dizer sobre este filme: como quebra as regras do género em que se insere, mas será que ao fazê-lo não está a criar um novo sub-género? O do comic book film realista? Não sei, ainda preciso de o rever e aprender ainda mais sobre cinema. Sei que antes de o ver tive um pressentimento, que verbalizei com um amigo meu: este filme ou irá ser um marco ou cairá no esquecimento, votado a tudo o que é medíocre. Para mim a resposta agora é inequívoca.

Veredicto: 5/5 (Relógios marcianos)

Realizador: Zack Snyder
Elenco:
Malin Akerman
Billy Crudup
Mathew Goode
Peter Spellos
Jackie Earle Haley
Jeffrey Dean Morgan
Patrick Wilson

Notas: Do mesmo realizador aconselho aquilo que considero ser um exercício em estilo, "300". Não se aproxima deste filme é mais um filme pipoqueiro cuja força maior é a estonteante apresentação visual.

Monday, March 16, 2009

Batman




Ser herói é solitário

Bruce Wayne (Michael Keaton) é um homem com uma vida dupla. De dia é o herdeiro de uma enorme fortuna e Presidente da Wayne Enterprises. Wayne é um filantropo com reputação de playboy e que não gosta de dar nas vistas para além das suas vistosas festas e outras acções de caridade. De noite assume a identidade de um vigilante mascarado chamado Batman, que causa medo no coração do submundo criminal de Gotham City. Como Batman, a sua personalidade é sombria e os criminosos não tem como parar este justiceiro marginal.

Contudo este anti-herói não terá que lidar com um tipo de criminoso bem mais nefasto que os habituais fora da lei. Um gangster chamado Jack Napier (Jack Nicholson), braço direito do senhor do crime Grissom (Jack Palance) é traído pelo seu chefe e num confronto com Batman fica horrivelmente desfigurado: cabelo verde, cara branca e um permanente sorriso de orelha a orelha - literalmente - Jack torna-se no Joker, um ser ainda mais sádico e desvairado que antes.

Entre estes dois homens mascarados está Vicky Vale (Kim Bassinger), uma repórter enviada para envestigar o fenómeno do Batman e que cedo cai nos braços de Bruce Wayne e no gosto do Joker. Está será uma luta não só pelo controlo da cidade, como também pelos afectos de uma mulher.

A galeria de personagens ainda é considerável, mas obviamente que o foco da atenção será o duelo entre herói e vilão. De facto o vilão é na verdade a personagem que parece merecer as cenas mais delirantes, cómicas e assustadoras - esta tendência para o Joker roubar a luz da ribalta repete-se no "Cavaleiro das Trevas". O Joker que Nicholson criou é uma personagem espampanante, grosseira, com um humor macabro, uma gargalhada intimidante e uma presença imponente. O Joker não é bonito, mas a sua pose pode ser sedutora; é psicótico, mas perspicaz e inteligente. A sua presença implica que algo de perigoso, ruidoso e polvilhado de humor macabro vai acontecer e por isso estamos sempre em antecipação quando ele está em cena.

Batman por seu lado é soturno e monossilábico. Atormentado pela morte dos seus pais à sua frente, quando ainda era criança, Batman/Wayne não retira prazer do que faz: a sua demanda é por justiça, não fama nem glória. Os criminosos temem-no, mas a opinião pública também faz dele um criminoso. A polícia é na sua maioria corrupta, excepção maior será o comissário Gordon, por isso este vigilante também não granjeia a simpatia das forças policiais. Batman é por isso um anti-herói, opera às margens da lei, para a fazer cumprir. No entanto, o seu método é de captura e não de destruição; o Batman não mata criminosos, mas captura-os pois ele não é juiz, nem carrasco. Este código de ética impede-o de se tornar como aqueles que caça.

Contudo muitas vezes parece que o Batman não nos cativa tanto como o Joker, mas isso não significa que a personagem não seja caracterizada de forma competente pelo actor Michael Keaton. Na verdade creio que isto é prova da sua qualidade, porque Batman e Joker são opostos na sua dimensão física: um é calado e soturno, outro é maniacamente ruidoso e espampanante; um intimida com o olhar e outro com o seu sorriso desfigurado; Batman é quase monocromático - uniforme preto, com um símbolo amarelo no peito - e o Joker é uma palete de roxo, branco, verde e vermelho.

De resto são mais parecidos do que poderíamos pensar: dois párias da sociedade, incapazes de pertencer e atraídos um para o outro para se destruírem. vença quem vencer nenhum será aclamado herói, o vencedor será sempre temido por uma sociedade que os criou mas não os aceita. O Joker é um destruidor, causador de caos e anarquia que faz tudo com um sorriso nos lábios; Batman é um ser só empenhado em fazer justiça, que vive uma vida dupla, mas que ambas as suas facetas são viradas para o combate ao crime.

As restantes personagens são bem mais planas, principalmente Vicky Vale que não é mais que um interesse amoroso e a dama em perigo. A sua presença também serve para validar a constatação que Bruce Wayne não é muito mais que um sonho de normalidade do Batman: inepto a criar relações, a sua máscara de bilionário inconsequente é ténue.

O filme tem um tom negro. A metrópole de Gotham city não se parece com nenhuma cidade que tenhamos visto antes: repleta de edifícios imponentes com gárgulas, ruas com muito fumo, quase uma fusão da américa dos anos 50, com a estética dos comic books dos anos 80 e o imaginário tão próprio de Tim Burton. Os vilões são uma amalgama dos gangsters de um filme sobre Al Capone e rufias do boom inicial do rap. Burton cria uma cidade, um universo muito próprio que é uma homenagem às banda-desenhadas do Cavaleiro das Trevas, mas sem perder o realismo próprio de um filme em imagem real.

Este é um filme que abriu caminho para o género dos filmes de super-heróis. Uma visão pessoal do realizador, sobre um dos (anti-)heróis mais famosos da banda desenhada. Não é um filme alegre, consegue ser até bastante negro, mas é visualmente arrebatador, emocionante e espectacular. Um Jack Nicholson inspirado é também uma boa razão para ver esta aventura. Os fãs de Burton também gostarão, pois o ambiente e a estética são claramente "Burtonianos".

Veredicto: 4/5 (Dentaduras mecânicas)

Realizador:
Tim Burton
Elenco:
Jack Nicholson
Michael Keaton
Kim Bassinger
Robert Wuhl

Notas: A sequela "Batman Regressa" é de visonamento obrigatório para todos os que gostaram deste filme.

Saturday, March 14, 2009

O estranho mundo de Jack - The nightmare before christmas




Quando o Halloween tentou roubar o Natal


Halloween Town. Um mundo de fantasia repleta de monstros, mas são monstros nada assustadores, bizarros é certo, mas inofensivos; um mundo onde os cidadãos normais são tudo menos normais: lobisomens, diabretes, vampiros , bruxas e outras aparições sobrenaturais povoam as ruas serpentinas e algo góticas desta cidade tão peculiar. E no entanto nada nos assusta; somos "convidados" a conhecer a cidade e os seus habitantes, cujas personalidades são tão peculiares como a sua aparência.

Todos anos ocorre uma assombrosa celebração do dia das bruxas, liderada pelo Rei Abóbora, Jack Skellington (Chris Sarandon). No entanto Jack começa a cansar-se da rotina em que se tornou a celebração anual do dia das bruxas, ele sente que falta chama e novidade. Um dia Jack encontra acidentalmente um portal que o leva para a cidade do Natal. Encantado com o espírito e celebração do Natal, o Rei Abóbora decide que vai apoderar-se do Natal.

Esta é a premissa para uma aventura tão estranha como encantadora. A existência de uma cidade da qual dia das bruxas emerge e cujos habitantes são monstros é genialmente animada pela fabulosa técnica de stop motion - que voltaríamos a ver na obra de Burton em " A noiva cadáver". A cidade revela um aspecto gótico onde abóboras de sorrisos traiçoeiros, árvores contorcidas, gárgulas de pedra e outros adereços macabros criam uma atmosfera tipicamente de uma obra de Tim Burton: suficientemente negra para ser sobrenatural, mas não o suficiente para ser intimidadora. A cidade do Natal e o mundo humano estão também muito bem conseguidos e a diferença de ambiente, estética e a palete de cores, estabelece bem a antítese entre os diferentes mundos, conferindo a cada uma, um ar único e cativante. Contudo a cidade do Halloween destaca-se claramente e é natural já que é o pano de fundo principal de toda a acção.

As personagens são um hino á criatividade artística, à sensibilidade e até homenagem a monstros clássicos do cinema e de histórias de terror: desde as bruxas, cientistas loucos, passando pelo bicho papão, o monstro debaixo da cama, e numerosas outras, não esquecendo o adorável cão fantasmagórico de Jack, Zero ; são todos soberbamente animados e suportados por um competentíssimo elenco vocal. E claro não nos podemos esquecer de Jack, o esquelético rei de Halloween town: de mebros finos e esqueléticos, cadavericamente pálido, mas terrivelmente expressivo; os seus momentos de dança e cantoria são dos pontos mais altos de todo o filme, pois Jack Skellington é uma personagem muito carismática e com este filme tornou-se um ícone do cinema - e também um ícone de merchandising, nas suas mais variadas formas.

Este é um filme de animação intergeracional, aliás como são os grandes clássicos da Disney, mas "O estranho mundo de Jack" possui uma estética e uma premissa que o torna único, um patinho feio - e aqui este comentário funciona como um elogio - cheio de personalidade e magia. Os números musicais são elegantes e cativantes, a acção é povoada de humor e algum suspense próprio de um filme que não se leva demasiado a sério e quer acima de tudo entreter. E ainda há uma história de amor entre uma boneca de trapos - talvez uma reinvenção da noiva de Frankenstein, mas bem mais encantadora - chamada Sally, que rouba o coração (?) do rei Jack.

No fim Jack e Sally estão juntos no topo de uma colina encaracolada e Halloween town está em festa. Voltaremos sempre para os visitar.

Veredicto: 5/5 ( Beijos sob o luar)


Realizador:
Henry Selick
Elenco:
Danny Elfman
Chris Sarandon
Catherine O'Hara
William Hickey
Glen Shadix
Ken Page

Notas: Do mesmo realizador estreou recentemente "Coraline", outro filme sobre mundos encantados alternativos. O estilo é remniscente de Burton, apesar da obra conseguir alguma autonomia estética. No entanto deve agradar, talvez não na mesma medida, a quem gosto deste "Pesadelo".

Wednesday, March 4, 2009

Paprika




A vida polvilhada com sonhos


Num futuro próximo uma invenção chamada "DC mini" permite ao seu usuário ver e entrar nos sonhos das outras pessoas. Num departamento de psicoterapia, este método é testado para ajudar paciente com problemas psiquiátricos. A chefiar este departamento está a Dra. Atsuko chiba (Megumi Hayashibara) que não se limita a ter um papel de mera observadora: sob o disfarce de um alter ego chamado Paprika, Atsuko entra nos sonhos dos seus pacientes e ajuda-os a compreender e a superar traumas e medos que residem no seu subconsciente. Contudo o governo ainda não aprovou o uso do "DC mini" portanto a legalidade das acções de Atsuko / Paprika é questionável.

Cedo a situação complica-se quando três dispositivos "DC mini" são roubados. Numa reunião para se debater o que fazer, o chefe do principal do instituto de psicoterapia exibe comportamentos erráticos, como se sonhasse acordado: a sua psique é invadida por o sonho de outra pessoa. Nesse sonho aparece um enorme desfile recheado de animais que tocam instrumentos, objectos inanimados que ganham vida e vários icones culturais - este desfile é um elemento recorrente do filme e o seu significado está aberto a várias interpretações.

Começa então a investigação para descobrir quem anda a usar os "DC mini" para invadir os subsconscientes das pessoas criando ilusões e devaneios que as colocam em risco, pois a linha entre real e onírico esbate-se facilmente. O jogo de gato e rato que se segue seria enfadonho e meramente funcional se não fosse pela forma como é executado: fusão do real e do mundo dos sonhos e do inconsciente dá lugar a uma imagética misteriosa, intrigante que deixa as personagens e o espectador na dúvida sobre no que acreditar. Contudo este exercício não é cansativo ou forçado: o resultado é encantador e hipnótico porque a imagética do insconsciente que se funde com o real torna os cenários, que de outra forma seriam comuns, em locais que queremos explorar.

Na verdade a maior valência deste filme é a sua componente visual, os elementos oníricos e a sua apresentação moldam a realidade criando uma aura surreal, que não estranhamos mas aceitamos, porque também os nossos sonhos são assim, um cruzamento do real com o surreal.

O ùltimo acto do filme é particularmente belo, uma fusão de reinos oníricos, e uma imagética transcendente de beleza desenhada - talvez esteja a ser demasiado entusiasta, mas também é natural dado o tema do filme e como me identifico com ele - cheia de simbolismo. Um acto final digno de um filme que fala dos nossos sonhos e desejos que nem sempre queremos confessar porque achamos que o cinzentismo do mundo não tem lugar para eles. Contudo Paprika prova que há sempre lugar para ideias coloridas que enalteçam os grandes sentimentos e o gosto pela vida.

Não vejam pela história, mas sim por toda a estética, imagética que nos leva para um lugar especial: o lugar onde os sonhos nascem, sem abdicar de quererem ser reais.

Veredicto: 4/5 ( Bébés gigantes)

Realizador:
Satoshi Kon
Elenco:
Megumi Hayashibara
Akio Otsuka
Koichi Yamadera
Toro Foruya

Notas: Do mesmo realizador recomendo "Perfect Blue" e "Millennium Actress" dois exemplos de como a animação pode ser o veículo para filmes de grande reflexão que rivalizam com qualquer película em imagem real.

Thursday, February 26, 2009

Jack Burton nas garras do Mandarim - Big trouble in Little china




East meets West, com resultados inesperados

O camionista Jack Burton (Kurt Russel) e o seu amigo Wang (Dennis Dun) vão até ao aeroporto para receber amigos que vêm de visita da China. Mas, e tem que haver sempre um "mas", a namorada de olhos verdes de Wang é raptada no aeroporto por um gang e cabe a Jack e a Wang resgatá-la. A perseguição leva-os até ao misterioso e místico submundo de chinatown. Aí irão deparar-se com um ancião feiticeiro de nome Lo Pan (James Hong) que necessita de sacrificar uma rapariga de olhos verdes para poder quebrar uma maldição que lhe colocaram - os vilões tem sempre aquilo que merecem, principalemente quando são feiticeiros com mais de dois mil anos.

Jack irá deparar-se com gangs proficientes em artes marciais, seres sobre-humanos que controlam os elementos, pântanos místicos mesmo sob Chinatown e muitos outros obstáculos sobrenaturais e místicos, não esquecendo o supracitado feiticeiro malévolo. Para o ajudar terá não só Wang, mas Gracy Law ( Kim Cattrall) uma advogada, Egg Shen ( Victor Wong) um feiticeiro condutor de um autocarro turístico e também a colaboração do gang Chang Sing.

Se até agora tudo isto soa surreal e pouco coerente, deixo desde já o aviso que a nível de narrativa as coisas não vão melhorar, mas vão ficar mais divertidas. John Carpenter estabeleceu-se como um mestre do horror, mas neste filme apresenta-nos uma aventura com tons cómicos que é uma mescla de vários tipos de cinema: desde os filmes de artes marciais orientais, passando pelo género do fantástico, com cenas dignas de um típico filme de acção Hollywoodesco e ainda algum humor situacional. Carpenter brinca com os estereótipos inerentes a todos este géneros: cenas de acção estilizadas, tiroteios dsenfreados em que os vilões nunca acertam no herói - o que põe em causa a credibilidade de uma organização maléfica com mão de obra tão pouco qualificada -, a já habitual troca de galhardetes entre herói e vilão, momentos de grande emoção alicerçados por efeitos especiais grandiosos, havendo sempre espaço para o normal e esperado beijo entre o herói e o seu interesse amoros - que parece sempre antecer ou preceder imediatamente um grande embate.

As personagens não tem grande profundidade, na verdade caminham a ténue linha entre a caricatura e a planitude de uma mesa de mármore, mas aqui nem considero isso uma falha. Este filme é uma homenagem e até uma celebração de todos os géneros e estereótipos cinematográficos nele presentes. Um filme de entretenimento que não rouba ideias para as menorizar, mas antes para lhe prestar a devida vassalagem, ainda que numa roupagem cómica e cartoonesca. Depois temos Jack Burton o herói despistado, que julga ser capaz de todas as proezas, com uma postura de bravo, mas que vai sobrevivendo, mais devido à sorte e intervenção oportuna de seus aliados, do que devido a mérito próprio. Esta caricatura de uma espécie de John Wayne moderno e trapalhão é uma das forças maiores do filme.

Visualmente Carpenter criou uma Chinatown subterrãnea repleta de túneis sombrios e nevoados, templos orientais ocultos, salas emperiais que combinam néons vivos e monumentos orientais antigos, criando um mundo paralelo singular, mas estranhamente imersivo, ainda que nem sempre congruente e algo anacronístico de acordo com os estilos mais modernos - por outro lado é um visual muito típico dos anos oitenta e os fãs dessa época e dos filmes tão intrinsecamente "eighties" vão certamente gostar.

Sem grandes rodeios, este filme é para ver com o espírito de quem quer se entreter com um cocktail visual repleto de cenas de acção comédia e uma aura de espalhafato e humor auto-referencial. Não é um filme que se leva a sério e tendo em conta a premissa e o seu desenrolar essa é uma das suas maiores forças.

Veredicto: 3.5 (Tempestades)

Realizador:
John Carpenter
Elenco:
Kurt Russel
Kim Cattrall
Victor Wong
Dennis Dun
James Hong

Notas: Carpenter é por excelência um realizador de filmes de terror. Aconselho o seminal "Halloween", "Veio do espaço" ou num estilo mais dramático e fantástico "Starman".