Friday, July 23, 2010

A origem - Inception



Um heist movie onírico


Como espectador, gosto de me informar o suficiente sobre um filme antes de o ver, mas nunca gosto de ir mais longe do que uma breve sinopse - brevíssima até, já que hoje em dia a arte do spoiler é praticada mesmo de forma inconsciente - e um ou outro trailer. Com Inception levei esse conceito ao extremo, pois bastou-me um trailer e uma tagline "Your mind is the scene of the crime" para decidir que este filme seria uma visualisação obrigatória.

Imagens de cidades a dobrarem sobre si mesmas, corredores que giram, desafiando a gravidade e a lógica, tiroteios estilizados reminiscentes da "Matrix" e uma premissa única, prenderam-me a este filme. Quando finalmente me sentei no cinema para o ver, as minhas expectativas não foram defraudadas.

O enredo estabelece-se à volta da seguinte sinopse: Dominic "Dom" Cobb (Leonardo Dicaprio) é um extractor de ideias, um especialista em infiltrar-se na mente do seu alvo enquanto este dorme extrai-lhe os seus segredos mais valiosos. Perseguido pela lei devido ao seu trágico e sombrio passado, Dom depara-se com uma oferta única: aceitar um trabalho que lhe permitirá deixar de ser um fugitivo. No entanto, em vez de roubar, a sua missão será plantar uma ideia, iludindo o seu alvo a julgar que a sua própria mente a gerou.

Estamos perante uma premissa já testada em vários filmes de golpada - heist movies - na qual o protagonista é um especialista na sua "arte", mas incapaz de viver uma vida fora do mundo que escolheu para si; entretanto surge a oportunidade de adquirir uma tranquilidade e normalidade através de um "último trabalho", que o espectador sabe à partida esconder mais do que inicialmente é proposto. Pois bem, neste filme já sabemos à partida que o acto de introduzir uma ideia na mente de alguém está perto do impossível, mas Dom diz ser capaz de o concretizar.

O filme contém a obrigatória sequência de apresentação dos elementos da equipa, que como manda a tradição revela um grupo carismático de indivíduos: Arthur (Joseph Gordon-Levitt) encarregue de pesquisar os alvos, Ariadne (Ellen Page) a arquitecta dos sonhos que constrói os locais oníricos onde o grupo irá tentar a implantação da ideia e Eames (Tom Hardy) o falsificador hábil em assumir diferentes identidades.

Neste filme existem dois mundos: o real, onde vemos o grupo de Dom a preparar o golpe e o onírico, onde eles treinam os seus passos e onde tomará lugar o golpe. A forma como os dois mundos se articulam é bastante intrigante, mantendo uma superficial semelhança que se dissolve à medida que prestamos atenção aos detalhes. De facto atenção ao detalhe é algo que qualquer espectador deve ter para identificar elementos cruciais para interpretarmos o que se passa e para compreendermos as implicações do mundo que se desenrola perante nós.

O conceito de entrar no sonho de outras pessoas é apresentado através de diálogo de uma simplicidade desarmante, sem precisarmos de longas sequência de diálogo enfadonhas, sem nunca se abdicar de certa complexidade que eleva este filme para o patamar de um high-concept blockbuster: eis um filme que nos apresente fantásticos efeitos especiais, cenas de perseguição empolgantes, tiroteios frenéticos, mas também e mais do que qualquer outra coisa, personagens com espessura dramática e diálogos inteligentes.

A ideia de um mundo manipulável, que existe na nossa mente e cujas acções tem efeito no mundo real, ecoam o filme "Matrix", até a forma como os personagens acedem aos sonhos é evocativa do filme dos Wachowski. Contudo o conceito de roubo de ideias, manipulação e navegação nos sonhos é muito mais coeso e familiar do que o mind jacking da trilogia "Matrix".

Christopher Nolan consegui criar um filme que é parte ficção-científica, parte heist movie, parte trhiller de acção com uns pozinhos de surrealismo e vénia à teoria Freudiana da interpretação dos sonhos. Esta é uma obra complexa sem ser impenetrável, frenética sem ser caótica, um filme que suscita amplas interpretações sobre a sua apresentação da realidade versus sonho - até onde somos capazes de estabelecer uma fronteira entre um e outro?

Nolan apresenta-nos uma viagem às complexidades da mente humana, sem nunca ceder às facilidades que um filme desta envergadura ofereceria a mãos menos capazes: os momentos de acção não são o centro do filme, os efeitos especiais servem nos fazer acreditar no mundo que se desdobra perante os nossos olhos, sem nunca serem intrusivos ou caírem no simples "fogo de artíficio".

Gostaria de destacar o virtuosismo do clímax, uma montanha russa de tensão, criada sem a mínima falha, prendendo o espectador até ao desenlace e capaz de tornar qualquer um num roedor de unhas inveterado. Menção também para todo o elenco, cheio de nomes sonante, entre promessas para a nova década Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, - já não é promessa, é uma certeza - Marion Cotillard e nomes credenciados como Leonardo Dicaprio - um grande actor, cujas escolhas de projectos revelam um artista multifacetado e carismático - Sir Michael Caine e Ken Watanabe. Os actores trazem um sentido de "gravitas" que nos permite simpatizar com as suas personagens e sentir genuíno interesse no seu sucesso.

Existe uma razão para manter a minha descrição vaga: este filme discute-se após ser visto, antes desse momento só existem conceitos e cenas desarticuladas. Após a experiência de o ver, surgem as questões, as opiniões, os debates, as emoções. Cada vez mais surge a necessidade de um cinema de espectáculo que não desprestigie a capacidade do espectador de participar, de questionar e de "intervir" na obra. Que um blockbuster de Verão o consiga é óptimo, que esse blockbuster seja um dos filmes mais inovadores e bem executados da última década, é um marco.

Veredicto: 5/5 (Labirintos)

Realizador:
Christopher Nolan
Elenco:
Leonardo Dicaprio
Ellen Page
Joseph Gordon-Levitt
Ken Watanabe
Tom Hardy
Marion Cotillard
Michael Caine
Cillian Murphy

Notas: para quem quiser mais thrillers sobre os limites da realidade, vale a pena descobrir "Shutter Island" de Martin Scorcese, também com Leonardo Dicaprio

Saturday, July 10, 2010

O terceiro passo - The Prestige


"Are you watching closely?"


No panorama cinematográfico actual, poucos realizadores tem sido tão prolíficos e inovadores como Christopher Nolan. Autor do brilhante quebra-cabeças que foi "Memento", do inquietante e níveo "Insomnia" ou do renascer apoteótico do cavaleiro das trevas com o díptíco "Batman Begins" e "The Dark Knight". Depois de super heróis, detectives com insónias e vingadores amnésicos, Nolan apresenta-nos um duelos de ilusionistas.

Sendo este um filme sobre magia e ilusões, nada é bem o que parece...ou talvez as respostas estejam mesmo à nossa frente, tudo depende da nossa capacidade de acreditar, ou simplesmente de não querermos saber a verdade, até que ela é revelada no grande clímax. O realizador criou um filme de grande suspense, cerebral, envolvente, em que nós somos expectadores, de um espectáculo de magia e ilusões, mas também somos a audiência do truque, somos os ajudantes que sabem os segredos escondidos atrás da cortina e no fim somos cúmplices de tudo o que se passou. Este filme não é só entretenimento...pode ser um desafio se quisermos fazer mais do que ver, se quisermos descobrir o segredo que se esconde no terceiro passo - e no fim gostar ou não gostar da grande revelação é uma questão de gosto pessoal, mas não há como escapar ao facto deste filme ser um triunfo de narrativa, realização e interpretação.

Nos papéis principais temos Hugh Jackman no papel de "Robert Angier" e Christian Bale como "Alfred Borden". N' "O terceiro oasso" interpretam dois aprendizes de ilusionista que se tornam obcecados em destruir a carreira um do outro após um trágico acidente: a mulher de Angier morre na tentativa de encenar a fuga de um tanque de água. Alfred Borden foi quem atou os pulsos da esposa de Angier, com um nó mais difícil de soltar - ainda que sob a sugestão da própria performer. A partir daqui ambos começam carreiras independentes como ilusionistas: Borden torna-se "O Professor" e Angier "O grande Danton". Ambos tentam sabotar a carreira um do outro com efeitos desastrosos para os dois.

Borden concebe um truque chamado "O homem transportado" no qual ele faz pinchar uma bola de borracha pelo palco, entra num armário e sai pelo outro a tempo de apanhar a bola. Este truque torna-o bem sucedido o que deixa Angier obcecado por descobrir o seu segredo, suplantando-o.

O que se segue é um sucessão de ilusões, ou melhor dito, enganos, através dos quais os dois mágicos vão tentar levar a melhor um sobre o outro. É um duelo de grandes mentes que nos deixa a adivinhar: imaginem um ilusionista a usar o truque da moeda que aparece atrás da orelha, mas outro aparece para fazer o truque da moeda que desaparece da testa, a seguir o primeiro já não faz a moeda desaparecer, mas faz a pessoa desaparecer... e ficamos tão fascinados com o desaparecer e aparecer da moeda e depois da pessoa que não pensamos muito no mecanismo, porque sabemos que há um truque. Só que neste filme o importante não é saber qual é o truque, mas quais as consequências. Este é um filme sobre mágicos, mas acima de tudo é sobre dois homens obcecados um com o outro, capazes de cruzar qualquer limite não só para ser o melhor, mas para derrubar o seu rival.

Hugh Jackman e Christian Bale estão soberbos nos seus desempenhos: Angier é o verdadeiro entertainer, cheio de glamour e pose, enquanto que Alfred é o ardiloso e engenhoso. Neste filme não se pode dizer que há um vilão e um herói, seria muito redutor e quando se dá o desenlace será difícil conceber que algum dos dois passe definitivamente para qualquer um dos lados do espectro moral - são dois seres ambíguos perdidos nas suas obsessões. Este filme requer um segundo visionamento para apurar as subtis nuances das interpretações de Jackman e Bale.

O restante elenco é estelar e contribui para os grandes desempenhos dos actores principais: temos Sir Michal Caine, Scarlett Johansson (num papel mais pequeno do que os posters publicitários levam a crer), Andy Serkis e David Bowie.

Este é um filme surpreendente, inteligente, que convida o espectador a entrar numa câmara de espelhos e fumo até revelar no final o seu grande segredo: um segredo tão grandioso como a sua execução, mas que no fim é diminuto comparado com o que custou para o conquistar.

Veredicto: 4/5 (gatos pretos)

Realizador:
Christopher Nolan
Elenco:
Christian Bale
Hugh Jackman
Michael Caine
Scarlett Johansson
Andy Serkis
David Bowie

Notas: Qualquer filme de Christopher Nolan é recomendado pela sua abordagem pessoal, as suas personagens bem construídas, excelente direcção narrativa e domínio de suspense. Um dos grandes realizadores actuais.

Tuesday, March 30, 2010

Rec


Chegou a vez dos zombies espanhóis


Primeiro aconteceu em 1968: George A. Romero soltou no mundo insuspeito a primeira praga zombie com o importantíssimo "The night of the living dead". Estava criado um subgénero que viria a ser definitivamente cimentado na sétima arte e na cultura popular com a sequela "Dawn of the dead" na qual Romero se superou em quase toda a linha. O filme de zombies tornou-se rapidamente um visitador frequente nos cinemas mundiais. Não só Romero o revisitou inúmeras vezes - sua "Dead series" já vai em cinco filmes - como rapidamente despoletou uma onda de imitadores - o natural movimento de quem quer fazer dinheiro à custa de uma ideia que faz sucesso - e posteriormente de inovadores.

A praga dos mortos-vivos já foi retratada em várias cinematografias para além da Norte Americana: Nova-Zelândia (Brain dead), Japão (Versus), China (Bio-zombie), Inglaterra (28 days later), França (La horde) e Portugal (I'll see you in my dreams), entre muitos outros exemplos. Espanha não é obviamente excepção e apesar de Rec não ser o primeiro filme de zombies espanhol, é na minha opinião o melhor e surgiu numa fase em que o terror made in spain começou a ser um género prolífero e exportável - nomeadamente para Hollywood.

Rec é um filme de terror que bebe influência de vários filmes, nomeadamente de "Blair Witch Project" e de "28 days later". Do primeiro retira o estilo shakky camera, no qual o acção é veiculada através de uma câmera portátil manuseada por um dos protagonistas da acção - pelo menos de acordo com a coerência interna do filme, ou seja é também um dispositivo narrativo - do segundo aproveita e adapta o conceito de zombie que surgiu nesse filme: ao contrário dos zombies lentos que se tornam perigosos em grande número, uma "patente" eternizada nos filme de Romero, os zombies de Rec e "28 days later" são rápidos e agressivos - diria raivosos.

A premissa de Rec é rapidamente estabelecida desde início: uma reportagem sobre uma equipa de bombeiros de Barcelona torna-se num pesadelo quando uma chamada para retirar uma mulher presa num apartamento corre muito mal, muito depressa. O camera men Pablo (Javier Botet) e a apresentadora da reportagem Angela Vidal (Manuela Velasco) são os protagonistas, já que vemos a acção através da câmara de Pablo e observámos sempre em primeira mão as reacções - que vão do espanto ao absoluto terror - de Angela.

Rapidamente chegados ao apartamento os bombeiros verificam que a inquilina presa em casa está fora de si - raivosa diria eu - e ataca um dos bombeiros. A situação fica descontrolada, as autoridades vedam o edifício deixando Angela, Pablo e todos aqueles que ainda não se tornaram em ferozes canibais, à mercê de...ferozes canibais.

Em todos os filmes de zombies a génese da zombificação é alvo de uma de duas abordagens: ou o enredo a explica - atribuir a causa a radiação ou a um vírus são as explicações clássicas - ou a causa é um mistério. No primeiro caso a explicação do que causa ou espalha a condição que torna humanos em cadáveres ambulantes torna-se um dispositivo de avanço da acção, no segundo a falta de explicação foca a narrativa na sobrevivência a todo o custo. "Rec" propõem uma explicação que simultaneamente inova, mas que também remete para as origens históricas da zombificação - e mais não digo para não estragar o filme a quem ainda não viu. Tendo explicado esta parte é de salientar que este filme não vive do enredo. Este filme vive da exposição de duas das pulsões mais primárias do ser humano: a violência sem amarras e o medo da escuridão. A violência é explosiva e sufocante, ampliada por uma câmara que mostra tanto quanto esconde, o seu ângulo limitado criando ilusões que se tornam reais quando da escuridão irrompem seres que querem por fim à vida dos protagonistas.

Filmar a acção na perspectiva da primeira pessoa não é um truque barato. Somos convidados a ser Pablo o camera men, a partilhar os seus medos, a tentar recuperar o fôlego como ele o faz, a tentar ser corajosos e não desviar o olhar.

"Rec" é rápido, sangrento e eficaz a criar uma atmosfera tensa e que nos deixa a sentir que andamos numa montanha russa: podemos fechar os olhos, mas a escuridão também assusta, talvez mais do que aquilo que podemos ver.

George A . Romero é o pai dos filmes de zombies, conseguiu fundir nos seus filmes o gore e o comentário político e social em todos os seus filmes. Aqui não há tais preocupações a nível de temas, mas o cinema também desperta os sentimentos mais inatos em nós, experimentar o horrível no conforto do cinema. Aqui tudo isso é conseguido.

Veredicto: 4/5 (crianças assustadoras)

Realizador:
Jame Balagueró e Paco Plaza
Elenco:
Manuela Velasco
Javier Botet
Manuel Bronchud
Martha Carbonell
Claudia Font
Vicent Gil

Notas: toda a saga de George A. Romero merece menção, particularmente os dois primeiros filmes. Para uma homenagem cómica e sentida recomendo "Shaun of the dead". "28 days later" e "Dead Snow" são bons exemplos de filmes não americanos de zombies.

Estado de Guerra - The Hurt Locker



A máxima de Hitchcock seguida quase à letra


A questão que urge perguntar é a seguinte: Qual a razão para "Estado de guerra" surgir como o grande vencedor da cerimónia dos Oscars deste ano? Num ano que parecia indicar que a indústria iria premiar o filme mais lucrativo de sempre ("Avatar") os galardões principais, Melhor Filme e Melhor Realizador(a) agraciaram um filme que foi recebido de forma unânime - um conceito irrealista mas, que cai sempre bem nas publicações que geram a publicidade de qualquer filme - pela crítica, mas que esteve longe de ser um sucesso de bilheteira. Não fugindo à questão que coloquei afirmo desde já que a mesma continha várias rasteiras: não há apenas uma razão para o sucesso crítico do filme, são várias e não proponho sequer uma resposta definitiva, pois a minha visão é a de um cinéfilo humilde que está ainda a construir a sua visão cinematográfica, desta arte que todos apelidam de sétima, mas que para mim ocupa a posição primeira.

A primeira característica que julgo ser importante é a forma como esta obra desconstrói vários arquétipos, não só dos filmes de guerra, mas também dos filmes de acção. Vemos narrados os dias de uma equipa Norte-americana de desarmamento de minas no período de pós-invasão do Iraque. Os primeiros minutos do filme são essenciais para estabelecer o tom do filme: existe uma bomba encoberta por entulho numa rua principal; o ambiente é tenso, a população local vê a equipa de desmantelamento a tentar lidar com a bomba; qualquer um daqueles observadores pode ser o bombista, avaliando a capacidade dos americanos em lidar com a sua arma. Esta cena estabelece desde logo a relação tensa entre as tropas invasoras -que se designavam como sendo libertadoras - e o povo local que ou os olha com uma mistura de reprovação, curiosidade ou até mesmo indiferença.

Mas não nos esqueçamos da bomba. Como disse anteriormente esta cena é importantíssima não só na lógica interna do filme, mas também em relação a todos os filmes anteriores que fizeram questão de usar explosões como clímax de cenas de acção, rotineiras e irrealistas, em nome do fogo fátuo ( Michael Bay estou a olhar para ti): a explosão de uma bomba é um fenómeno visualmente apelativo, mas também devastador e mortífero. Será improvável que voltemos aceitar uma explosão num filme de acção boçal, depois de vermos os efeitos de uma neste filme. Aqui as explosões não se evitam com sprints heróicos e danos mínimos, aqui as explosões não são fogo de artifício gratuito, porque este é um filme em que o peso de uma vida humana é apresentado tal como ele é: no confronto entre homem e explosão as hipóteses não estão de todo no nosso lado.

Para quem ainda não viu o filme advirto já: este filme contem doses de tensão industrial; mas todos os momentos são construídos com uma coerência, uma mestria que nos deixa num estado de ansiedade tremendo, que nem sempre culmina com o sucesso de uma bomba desarmada, até porque ficamos na expectativa de ver outra cena em que o equilíbrio entre a vida e a morte está no fio de um detonador - o espectador torna-se num viciado em adrenalina.

No papel principal temos Jeremy Renner como Sargento William James um perito em desarmar bombas, mas cujo comportamento é pouco prudente - confesso que este é um enorme eufemismo. A forma como lida com as diversas missões que enfrenta mostram que este é um homem que vive para experimentar o perigo da forma mais pura que é possível: olhando-o nos olhos. William avança para os engenhos explosivos com uma naturalidade desconcertante deixando incrédulos os seus colegas de equipa, incumbidos de o proteger. A tensão entre William e os seus colegas de equipa é feita de forma muito subtil e exceptuando dois diálogos importantes, é maioritariamente mostrada através dos silêncios e acções. William é um ser que vive para experimentar emoções intensas, coloca a sua vida em risco por uma emoção que tem tanto de intenso e fugaz, como de letal - para ele a guerra é uma droga.

A guerra é aqui representada como crua, fria, com rajadas de acção rápida e confusa, expondo a realidade dos americanos no Iraque: fora do seu elemento, num país estranho e inóspito. A realizadora expõe as cenas de acção como jogos de xadrez, alternando jogadas rápidas com outras ponderadas onde vemos que só estão em jogo os peões. Cada bala é mortal, cada deslize potencialmente catastrófico e pese embora algumas tentativas de incutir um factor "cool" em cenas dispersas, a guerra que vemos aqui não tem nada de apelativo ou divertido.

Este é um filme cheio de virtudes, com uma narrativa escorreita e coesa, cujo único soluço é um enredo secundário sobre um rapaz bomba que o protagonista quer vingar. Não incomoda o resto do enredo, mas sabe a supérfluo e ficamos sem saber o seu propósito mesmo para estabelecer o perfil psicológico do protagonista.

O grande mérito da realizadora Kathryn Bigelow é balancear os momentos de tensão/acção com o desenvolvimento das personagens, que tirando uma grande excepção, não se mantêm uniformes à medida que a narrativa se desenvolve. Kathryn não se esquece que para criar um momento de tensão algo tem que estar em jogo, mas esse algo tem que ser importante. Neste caso está em jogo a vida das personagens principais. Claro que esta equação só está completa se elas forem personagens com as quais nos identificamos, com as quais nos fascinamos e cujas relações inter-pessoais soam verosímeis e relevantes: a direcção segura da realizadora e as interpretações brilhantes dos seus actores fecham a equação de forma brilhante.

Como já referi em outros textos Hitchcock dizia "Existe uma bomba debaixo de uma mesa na qual algumas pessoas jogam ás cartas: se a bomba explode temos acção, enquanto a bomba não explode temos suspense". Da expectativa e da dúvida nascem os grandes momentos de tensão, do novelo fiado nessa insuportável, mas cativante situação nasce o grande vencedor dos Óscars deste ano.

Veredicto: 5/5 (dvds pirata)

Realizadora:
Kathryn Bygelow
Elenco:
Jeremy Renner
Anthony Mackie
Brian Geraghty
Christian Camargo
Evangeline Lilly
Ralph Fiennes
Guy Pierce
David Morse

Notas: para mais olhares únicos sobre a guerra e os E.U.A, aconselho "The Thin Red Line" de Terrance Malick, "Three Kings" de David O. Russel e "Full metal Jacket" de Stanley Kubrik...a lista é imensa.