Tuesday, September 1, 2009

Sacanas sem Lei - Inglourious Basterds



A guerra com um twist à la Tarantino

Quantin Tarantino é um autor de cinema. Os seus filmes são simultaneamente reverência e reinvenção. A sua forma de fazer cinema assenta em dois pilares essenciais: diálogos criados com mestria de artesão, como que tece uma intrincada tapeçaria para no fim a estender sob os nossos pés e a puxar logo de seguida, deixando-nos estonteados; o segundo pilar é uma mescla de diversos géneros de cinema, amiúde provenientes do cinema de série B, moldada de forma a que seja possível reconhecer todas as referências.

Este é um tipo de cinema meta-linguístico, em que uma forma de arte tem em si referências a si mesma e a outras formas de arte. Todos os filmes deTarantino contêm, de forma mais explicítia ou implícita, esta meta-linguagem, mas este é na minha opinião, o que mais faz para trazer o cinema para a linha da frente -e para a linha de fogo também - bastando para isto lembrar o clímax desta obra.

"Sacanas sem lei" apresenta uma premissa simples: uma unidade de soldados judaico-americanos semeia o terror entre as tropas nazis sediadas em França durante a ocupação alemã. O seu modus operandi é brutal: os alemães são executados com fogo de metralhadora, tacos de baseball e de outras formas "imaginativas". No fim os que tem o privilégio de voltar com vida, trazem uma lembrança na forma de uma suástica, gravada com faca, na testa.
Sabendo que os testas de ferro do terceiro reich, incluindo o próprio Hitler, vão estar todos num cinema em Paris, é formado um plano para os eliminar - este filme passasse num período histórico alternativo, por isso esperem surpresas.

Estes "sacanas" são um grupo ideossincrático de soldados - na boa tradição de um "Wild bunch" ou "Dirty dozen", filmes que de resto são inspiração e fonte de reverência para esta obra - liderados pelo tenente Aldo Rain, encarnado por um Brad Pitt em modo caricatural e que é fonte de muito do humor deste filme. O tenente Rain exige a cada um dos seus soldados cem escalpes nazis... o que não só é fonte de algumas cenas de gore explícito, como confere um tom western, a um filme que de resto está cheio de referências a esse género cinematográfico.

Esta obra é Tarantino em tour de force, pois é em partes iguais western, filme de guerra - o que apesar de não parecer, está longe de ser a fonte mais forte de inspiração temática, apesar da reconstituição competente da segunda guerra mundial - filme de acção, comédia negra, filme de vingança e claro aula de trivia cinematográfica ao bom estilo do realizador.

Depois de um "À prova de morte" centrado maioritariamente num só personagem carismático, o stuntman Mike de Krut Russell, Quentin Tarantino volta ao "ensemble filme" com um elenco vasto, repleto de personagens carismáticas e inesquecíveis: o tenente sulista, aficionado de escalpes, Aldo Rain, o "Urso Judeu" (Eli Roth) conhecido por matar nazis à bastonada, a judia fugitiva Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) e aquela que é a personagem do filme, o Tenente das S.S. Hans Landa (Christoph Waltz) -um educado oficial nazi encarregue de caçar judeus, capaz de gelar o sangue de qualquer um só com um sorriso. A cena de abertura é das melhores já vistas num filme de Tarantino ou em qualquer outro filme, que tente criar uma situação de suspense baseado em interpretações indeléveis, hipnotizantes, sustentadas em diálogos suberbos e num delicioso jogo de câmara - Hitchcock ficaria orgulhoso.

Falando em cenas marcantes, esta é uma obra em que o cineasta emprega de forma magistral
momentos de suspense construídos lenta, mas progressivamente desembocando em momentos de clímax inesquecíveis e muito recompensadores para o espectador. Nunca tantas cenas passadas à volta de mesas foram tão iconográficas - e mais não digo para não estragar a surpresa de quem ainda não viu.

Este é um regresso em força de um autor que muitos ainda dizem ser de culto, mas baseado na forma como os seus filmes geram antecipação e nunca caiem na indiferença, parece habitar a ténue encruzilhada entre o cinema de culto, o cinema de autor e o mainstream.

Veredicto: 5/5 (Copos de leite)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
Brad Pitt
Christopher Waltz
Mélanie Laurent
Michael Fassbender
Eli Roth
Diane Krueger
Daniel Bruhl
Til Schweiger

Notas: a ver alguns dos filmes que são revisitados nesta obra, "Wild Bunch", "The dirty dozen" "One upon a time in the west"

Tuesday, June 23, 2009

Zatoichi



"Even with eyes wide open, my world is one of darkness."

Zatoichi é uma personagem Japonesa imensamente popular, protagonista de inúmeros filmes e séries televisas. Aqui é nos apresentada a sua mais recente encarnação, pela visão do reconhecido realizador/actor Takeshi Kitano - que mais uma vez faz juz à sua reputação de prolífico artista realizando e protagonizando o papel principal.

Zatoichi é um massagista cego, que vagueia de aldeia em aldeia oferecendo os seus serviços. Um homem humilde, um sábio de voz suave e aparência inofensiva. Além disso é um dotado espadachim, extraordinário no combate com katanas. As suas habilidades em combate são acentuadas pelos seus sentidos apurados, que se assemelham a uma espécie de sexto-sentido.

O enredo é tradicional, não fugindo das características principais que tornaram Zatoichi uma personagem tão popular: o protagonista vagueia até uma aldeia aterrorizada por uma guerra entre gangues Yakuza e no ínicio não se faz notar, fazendo uso da sua natureza discreta. Além do medo face à violência que os gangues infligem, os locais são forçados a pagar valores muito altos para que os gangues não lhes façam mal.

Zatoichi cedo se verá envolvido na proteção dos habitantes da aldeia, particularmente o dono de uma quinta de quem se torna amigo e duas gueixas a quem oferece a sua ajuda, na procura por vingança contra o gangue Yakuza que lhes matou a família.

A acção neste filme é estilizada, com os samurais a executarem bailados minimais com os seus movimentos marciais. O sangue jorra de forma abundante, mas estilizada, o que em união com a desposição teatral dos corpos cria efeitos espantosos e dramáticos. Contudo as cenas de duelo são rápidas e vão alternando com momentos de exposição das personagens, das suas motivações e natureza. Os momentos em que as personagens se misturam com a natureza, que as rodeia de forma a criar uma tela realista, são variados e conferem ao filme uma contenção e contemplação próprios de uma representação de época de uma época longínqua em que homem começou a descurar a sua harmonia com a natureza.

A reconstituição do Japão Feudal está suberba e permite-nos mergulhar completamente no enredo e nas acções dos protagonistas. Falando ainda de protagonistas, é curioso como Takeshi Kitano nos apresenta uma personagem de voz suave, que parece desaparecer sob os diálogos e acções dos que os rodeiam, contudo não é apenas quando desembainha a espada que se torna o centro das atenções, pois até o seu estilo de combate é contido e minimalista; na verdade a sua natureza observadora e sensível ao que o rodeia torna-se o seu maior trunfo para conquistar a amizade e lealdade alheias.

Este é um excelente filme de samurais: contemplativo, sereno e com combates estilizados e vibrantes. Uma obra equilibrada, um filme que balança bem os seus vários elementos.

Veredicto: 4/5 ( Bengalas)

Realizador:
Takeshi Kitano
Elenco:
Takeshi Kitano
Tadanobu Asano
Michiyo Okuso
Yui Natskukawa
Guadalcanal Taka
Daigiro Taichibana
Yuko Daike
Ittoku Kishibe
Saburo Ishikura
Akira Emoto

Notas: num estilo diferente, mas do mesmo realizador recomendo "Fireworks" e "Kids Return"

Sunday, June 7, 2009

Monty Python e o cálice sagrado - Monty Python and the Holy Grail



Um épico cómico

Falar dos Monty Python é falar de um estilo de comédia que, quando surgiu, varreu completamente a face do humor televisivo. Aplicar esse humor tão sui generis ao grande ecrã resulta uma experiência única e delirante. Este filme aborda a demanda de Rei Artur pelo cálice sagrado. Para atingir esse feito, o Rei mitológico vai durante o curso da sua viagem recrutar os seus cavaleiros da mesa redonda, para formar um grupo valoroso de guerreiros. E assim chegamos ao fim de qualquer semelhança que este filme tem com a lenda de Rei Artur e do cálice sagrado.

O que vemos durante aproximadamente noventa minutos é uma sequência de cenas onde o humor típico dos Python está tão impresso em cada linha de diálogo, como uma impressão digital impossível de remover. E é um humor plural: absurdo, non-sequitur, negro, surrealista, político, satírico, auto-referencial, físico, libidinoso e non-sense.

Cenas como a do Cavaleiro Negro, A besta de Caerbannog, os Cavaleiros que dizem Ni, ou até mesmo os créditos iniciais, mostram que desde o primeiro segundo este filme não está interessado em ser normal. De facto as piadas muitas vezes quebram a quarta dimensão e estamos cientes que as personagens sabem que estão num filme. E é preciso ter isto em consideração quando presenciamos o clímax - ou o anti-clímax - deste filme. Claro que chegamos ao fim sabendo que uma obra tão desregrada, anárquica e inovadora como esta, não podia acabar de outra forma que não a que nos é apresentada.

Existe um gozo indisfarçável no rosto destes comediantes, enquanto subvertem um dos mitos mais conhecidos da literatura europeia e fonte de inúmeras adaptações televisivas e cinematográficas. Este piscar de olho a nós espectadores, torna-nos cúmplices e obriga-nos a estar atentos a todos os detalhes, desde as expressões faciais até aos adereços usados.

Falando em adereços, este filme foi filmado com poucos recursos e nem os realizadores nem os actores quiseram esconder isso. Logo de parcos recursos surgem amplas oportunidades de humor, desde os efeitos de pirotecnia baratos, aos cenários falsos, maquilhagem sofrível e substitutos para equídeos - naquele que é uma das piadas visuais mais conseguidas do filme.
Não obstante tudo isto, nunca por um segundo colocamos a credibilidade do filme em questão. Este é um épico sem dúvida, mas por razões diferentes, que não valores orçamentais.

O grande defeito deste filme é uma certa tradição de humor televisivo que acaba por ser transportado para o grande ecrã. As cenas assemelham-se a sketches, que nem sempre se articulam totalmente entre si, levando-nos a esquecer a razão da sua relevância para o enredo - mas tendo em conta a forma como o enredo é (mal)tratado, talvez isso seja propositado. Este estatuto estanque das cenas retira coesão ao filme, mas dado que são na sua maioria inovadoras e genuinamente engraçadas, é uma falha qe facilmente se esquece.

Este é um filme repleto de um humor que ataca em várias direcções, religião e política incluídos - se bem que não tanto como em filmes posteriores dos Pyhon - e que também brinca com conceitos filosóficos e existencialistas, relembrando-nos que a razão para os Monthy Python serem baluartes da comédia, é o facto de o seu humor ser de facto inteligente.

Para nos fazer rir e para nos provocar, sem reservas.

Veredicto: 5/5 (Coelhos brancos)

Realizador:
Terry Gilliam, Terry Jones
Elenco:
Graham Chapman
John Cleese
Eric Idle
Terry Jones
Michael Palin

Notas: Dos Python aconselho o seminal "A vida de Brian"
e "O sentido da vida".

Wednesday, June 3, 2009

Alta fidelidade - High fidelity



Música, amor e outras atribulações


O enredo de "Alta fidelidade" gira em torno de Rob Gordon (John Cusack) um melómano com pouco jeito para lidar com relações amorosas. Quando a sua namorada Laura (Iben Hjejle) termina a relação, John decide revisitar velhas paixões para tentar compreender o que falha nas suas relações.

Rob passa os dias na sua loja de discos, Championship Vynil, fazendo observações sobre os seus clientes - ou a falta deles. Juntamente com os seus amigos Dick (Todd Louiso) e Barry - um Jack Black em estado de graça que rouba todas as cenas em que participa e tem a mais engraçada tirada do filme - forma um trio de elitistas musicais que troça da ignorância dos seus clientes, elabora os mais variados "top 5" acerca de tudo o que possam imaginar e ás vezes vendem discos.

Entretanto Rob descobre que a sua ex-namorada está com outro homem e enquanto revisita as restantes 4 mulheres mais importantes da sua vida, vai tentando descobrir o que faz dele um bom ou mau namorado - ao mesmo tempo que faz cenas de ciúmes em frente a Laura.
Cada encontro que Rob tem com uma das mulheres com quem namorou, acentua simultaneamente a personalidade e transição que ele fez ao amadurecer e a ideossincrática personalidade de mulheres que ele parece já não conhecer. Estes encontros são simultaneamente fonte de humor e reflexão - mais para Rob do que para o espectador.

Um dos aspectos mais singulares desta obra é o facto de Rob se dirigir ao ecrã para falar, ou seja estabelece um diálogo com o espectador, quebrando a quarta dimensão. Esta característica cria proximidade, à medida que Rob confidencia em nós os seus desejos, ansiedades, medos e confusões. Tornamo-nos seus confidentes, ainda que não necessariamente seus amigos o que nos permite julgá-lo, mas nunca, na minha opinião deixar de simpatizar com ele - Cusack criou uma personagem, que não obstante os seus defeitos é fácil de gostar.

"Alta fidelidade" é um filme rodeado de música, quer nos diálogos que gravitam á volta do tema, quer nas melodias que servem de banda sonora para os diferentes momentos emocionais do filme. Contudo a música presente é normalmente diegética, o que confere um tom realista a um filme que, dado o tema, podia cair nos braços de um pseudo-musical, estragando a ambiência e capacidade emotiva de certas cenas-chave.

Este é um filme sobre e com música, mas também é um filme sobre pessoas: pessoas que amam, que erram, que estao frágeis e que procuram alguém para partilhar um futuro. Rob é particularmente pungente como um snob melómano, que age como adulto em part-time, reservando o resto do seu tempo para agir como um adolescente hormonal. A sua forma de agir com as mulheres de quem gostou permite-nos conhecer um homem com medo de compromissos, que se acha rebelde; alguém que sente o apelo de uma vida adulta, mas teme perder algo nessa transição. Uma espécie de Peter Pan dos tempos modernos.

Aqui não vão encontrar uma típica comédias de equívocos ou humor situacional. O tom é ligeiro, o humor subtil, mas inteligente e permite momentos de maior impacto dramático...um pouco como a vida real. Aqui o humor também surge muita das personagens que são carismáticas e dos actores que realmente as encarnam - sentimos que estas personagens podem de facto existir.
Um filme com sensibilidade, sentido de humor e muita música: aquela que ouvimos, aquela de que falam e aquela que imaginamos.

Veredicto: 4/5 (músicas sobre pessoas que estão em coma)

Realizador:
Stephen Frears
Elenco:
John Cusack
Iben Hjejle
Jack Black
Tim Robbins
Todd Louiso
Catherine Zeta-Jones
Lisa Bonet

Notas: De John Cusack aconselho os filmes "Gross point blanck", "Identidade Misteriosa" - desconstrução simpática do género trhiller - e "A barreira invisível".

Monday, June 1, 2009

Deixa-me entrar - Lat den ratte komma in




Flocos de neve, pingos de sangue

Os calmos subúrbios de Estocolmo são o pano de fundo para uma história de amor pueril, mas diferente do que é habitual. Entre prédios cinzentos, ruas vazias de pessoas e repletas de árvores nuas e muita neve, assistimos ao desenrolar da vida de Oskar (Kare Hedebrant), um solitário rapaz de 12 anos, vítima do abuso físico e psicológico por parte de um grupo de colegas de escola.
Oskar vive com a sua mãe, mas é claro que a sua existência é solitária, isolando-se do mundo e imaginando a vingança contra aqueles que o mal-tratam.

Contudo um dia conhece Eli (Lina Leandersson), uma pálida e misteriosa rapariga que se muda para o mesmo prédio e desde logo o avisa que não se podem tornar amigos. Contudo com o passar dos dias ambos desenvolvem um laço, à medida que partilham as suas existências solitárias, brincando juntos e trocando mensagens em código morse através das paredes dos seus apartamentos.

Eli não é, no entanto, uma rapariga normal. Além da sua tez pálida e do seu caracter reservado ela só sai à noite - algo que Oskar repara e refere causualmente. E apesar de como espectadores descobrirmos a natureza de Eli bem cedo no filme, Oskar vai-se apercebendo, mas não é algo que ele trate com muita importância ou que seja razão para se afastar: Eli é uma vampira. O homem com quem vive e que as pessoas assumem ser seu pai é na verdade aquele que lhe providencia o sangue que Eli necessita, matando estranhos para lhe drenar o sangue.

O rumo dos acontecimentos vai levar a que Eli fique sozinha e apartir daí o mundo que Oskar e ela criaram para si vai ser posto em causa. Sobre o enredo, isto é tudo o que sinto que devo dizer, ficando o resto para (re)descobrir por quem achar que este filme merece uma oportunidade - principalmente antes do já anunciado remake Norte-Americano.

Este é um filme com vampiros, mas não, na minha opinião, sobre vampiros. É um filme contemplativo, sincero e tocante. Não é um filme de terror ou de sustos gratuitos. Os vampiros são tratados com seriedade e é empregue alguma da mitologia relacionada com eles, - como a aversão à luz solar, por exemplo - mas isto não é feito com intuito sensacionalista ou como potenciador de cenas estafadas do subgénero dos filmes de vampiros.

Face ao epicentro emocional do filme, a relação entre Eli e Oskar, o tema do vampirismo é secundário, mas como já disse tratado com credebilidade. Sentimos ternura no desenrolar da relação inocente entre dois seres que estavam sozinhos no mundo até se terem um ao outro. É fácil esquecer o que Eli em momentos de ternura pueril entre ambos, momentos de inocência pincelados por brancos flocos de neve que pontuam a paisagem ao abrigo de calmas noites. Neste aspecto o filme é introspectivo, sereno e contemplativo.

Para contrabalançar esta faceta, a história desenvolve cenas mais violentas, próximas do que é normal ver em filmes de vampiros, mas isso assume-se como algo de natural no decorrer da história e serve para estabelecer os acontecimentos do terceiro acto: Oskar e Eli tomarão um percurso que os irá forçar a escolher entre o mundo que criaram ou o que tinham antes - alguns dirão que essa escolha nem sequer é apresentada, o que também é uma forma válida de interpretar os acontecimentos.

Raros são os filmes que apresentam tanta sensibilidade ao abordar temas tão reais como o bullying, o isolamento, o desagregar familiar com outros tão sobrenaturais como os vampiros e a sua dificuldade em amar e perdurar a sua presença numa sociedade que é simultaneamente o seu sustento emocional e físico. E Eli é um dos vampiros mais carismáticos da história do cinema com a sua postura tão intrigante e desconcertante, longe do comum estereótipo de imortal sedento de sangue.

Existe neste filme uma melancolia impregnada nas imagens, nos rostos e na fabulosa - a espaços lúgubre, a espaços radiante - banda sonora. Está presente também uma inocência desconcertante e pura como a neve que é entrecortada por cenas em que o sangue corre e pessoas perdem a vida. Contudo este não é um filme de dois tons - branco e vermelho - pois não sentimos um corte abrupto entre momentos de contemplação e outros de gore. Tudo flui sem esforço em direção a um final que é bem mais inesperado e ideal do que poderíamos julgar.

Veredicto: 4/5 (Cubos de rubix)

Realizador:
Tomas Alfredson
Elenco:
Kare Hedebrant
Lina Leandersson
Per Ragnar

Notas: outro filme de vampiros atípico e anti-clichés desse sub-género que recomendo é "Cronos" de Guillermo del Toro

Thursday, May 28, 2009

Vingança Planeada - Chinjeolhan geumjassi



Pura como neve


Uma procissão musical cristã toma lugar à porta de uma prisão, em honra de Lee Geum-Ja (Lee Young Ae) uma recém libertada e reformada prisioneira, sentenciada pelo homícidio de uma cirança chamada Won Mo. O caso, atraiu a atenção da nação devido à sua aparência jovem e inocente e condenou-a a uma longa sentença, senteça essa que foi encurtada devido à sua aparente transformação pessoal na prisão. No então mal abandona o cárcere, Geum-Ja ignora a procissão em sua honra e parte imediatamente com o intuito de se vingar.

Lee Geum-Ja, não cometeu o homícidio de que foi acusada. O verdadeiro assassíno, Mr. Baek (Choi Min-Sik) forçou-a a confessar pelo crime ou a filha recém nascida de Geum-Ja seria morta.
Na prisão vemos Geum-Ja a fazer um grande número de amizades: doa um rim a uma companheira de cela, toma conta de outras e assassina uma prisioneira que agradia e violava outras mulheres. O seu comportamento maternal granjeia-lhe a alcunha de "Sra. com um coração de ouro".

Fora do cárcere Geum-Ja começa rapidamente a largar essa fachada de simpatia e adopta simbolos que reforçam essa transformação como usar sombra para os olhos vermelho-vivo e sapatos de tacão provocadores. A sua sede de vingança manifesta-se através de sonhos recorrentes nos quais ela mata Mr. Baek.

Fora da prisão somos testemunhas do minucioso plano que Geum-Ja coloca em acção. A sua eficácia, meticulosidade, calma e descernimento fazem dela um ser frio e distante cujo o único objectivo é a vingança. A transformação de jovem inocente, para mulher amarga, mudada por circunstancias que não pode evitar, fazem de Geum-Ja o protótipo da anti-heroína: aqui está uma mulher que não conhece limites para atingir os fins. Como espectadores escolhemos antecipar o climax da sua vingança e crer que é justificada, ou aguardamos que uma cadeia irrevogável de acontecimentos a impeça de extrair a sua vingança? Que moralidade estará ausente aqui?

A transformação da protagonista conhecerá outro nível quando a sua filha reentrar na sua vida. Será que é tarde para esta mulher perdida voltar a encontrar o seu papel como mãe? A sua filha estava a viver com pais adoptivos Australianos e não fala Coreano. A intimidade entre mãe e filha atinge-se para lá das palavras.

Este é um filme sobre vingança, o terceiro na chamada "Trilogia da Vingança" do realizador Park Chan-wook e mais uma vez este realizador aborda esta temática de forma inesperada. Falei de moralidade e falei de antecipar o climax do filme. Revelar o terceiro acto seria estragar a experiência, mas dizer que a reflexão que cria sobre conceitos como a perda, a validade de quem quer vingança, é apenas despertar a curiosidade.

De facto este filme não se limita a apresentar-nos o vilão destorcido e a justiça que deve ou não ser-lhe aplicada; não apresenta na realidade o vilão como o único potencial monstro, pois coloca as coisas noutra perspectiva: um ser humano toldado pela injustiça da perda, é capaz das mais atrozes acções, capaz de suspender a sua humanidade para pagar na mesma moeda a quem lhe causou dor.

Este filme levanta estes temas e não nos apresenta um final fácil, mas consgue terminar com uma sensação de resolução. Dado os temas e acontecimentos que aqui vemos, parece-me algo difícil de fazer, mas que é bem sucedido. Para pensar sobre as implicações e sobre o que significa a vingança.

Veredicto: 4/5 (Cubos de tofu)

Realizador:
Park Chan-wook
Elenco:
Lee Young-Ae
Choi Min-Sik

Notas: Aconselho os dois restantes filmes desta "trilogia da vingança": "Simpathy for Mr. Vengeance" e "Oldboy-velho amigo"do qual já falei neste blogue.

Sunday, May 24, 2009

Irreversível - Irreversible



O tempo destrói tudo


Estamos na presença de um filme violento, um filme sem restrições, um filme que algumas pessoas irão considerar impossível de ver. "Irreversível" contêm uma cena na qual uma mulher é violada e agredida selvaticamente durante alguns, intermináveis, penosos minutos. A câmara permanece estática, nunca se desviando da hedionda cena. Outro momento já infame deste filme, consiste no brutal assassinato de um homem, com um extintor que é repetidamente, ad nauseam, arremessado à sua cara. Mais uma vez a câmara permanece focada nesse acto animalesco, obrigando-nos a desviar o olhar se não aguentarmos o que vemos.

Que haja muita gente que não viu o filme, mas conhece a sua fama, é normal e de facto a intensidade das cenas que referi não são para os de fraca disposição. Esta obra figurou em vários noticiários devido ao elevado número de pessoas que abandonavam a sua exibição nas salas de cinema. Contudo não considero que este filme seja sensacionalista ou pornográfico.

Tal como "Memento" de Christopher Nolan, este é um filme cuja estrutura cronológica está invertida. Contudo se assim não fosse em vez de abrir com a tenebrosa cena de agressão com o extintor, seriamos convidados a observar a intimidade de um casal muito apaixonado. Eles são Alex (Monica Bellucci) e Marcus (Vincent Cassel). Seguiríamos a sua vivência num dia em que decidiram ir a uma festa em casa de uns amigos. Pelo caminho reúnem-se com Pierre (Albert Dupontel), melhor amigo de Marcus e outrora amante de Alex.

Na festa Alex, vestida de forma sensual é claramente uma fonte de luxúria para os homens que a rodeiam. Seguidamente Alex ausenta-se da festa e caminha por um túnel para fazer um pequeno recado. Aí encontra um chulo chamado Le Tenia (Joe Prestia) que a viola e agride sem misericórdia.

Após esta tragédia seguimos Marcus e Pierre que vagueiam à procura do violador. Acabam por entrar num clube S.M. onde encontram um homem que julgam ser Le Tenia e um deles mata-o com uma fúria descontrolada.

Consideremos agora como o filme começa - com este brutal homicídio - e como termina - com cenas de ternura entre o casal. Com esta abordagem, o inverter dos acontecimentos altera a nossa percepção das cenas e metamorfoseia o impacto que tem em nós. Num plano cronológico normal, presenciaríamos uma descida gradual aos infernos, em que o sexo e a violência agem como uma "recompensa" chocante e sensacionalista - isso é algo que a pornografia faz. Aqui o pior é desde logo apresentado e depois voltamos atrás para observarmos vidas que serão para sempre alteradas.

Desta forma reconsideramos o que vimos nas cenas em que o casal está junto e em harmonia; reconsideramos os subtis sinais de perigo que levam à tragédia; consideramos que saber o futuro não é uma bênção, mas sim uma maldição - nós vemos o futuro e depois observamos o que ocorre antes. Sabendo como tudo acaba, qual o impacto das cenas de felicidade e paz que nos são apresentadas antes da violação? O filme relembra-nos que a nossa vida seria impossível de viver sem a inocência da nossa ignorância.

Ao colocar estas questões este filme apresenta profundidade, leva-nos a reflectir na fragilidade da nossa felicidade. Que as cenas de homicídio e violação nos sejam apresentadas no início obriga-nos a lhes "sobreviver" para que permaneçamos a ver o filme a pensar sobre todas as repercussões. Desta forma o filme não só é contra a violação como é, a nível estrutural, moral.

A ironia reside no facto de todo o conflicto emocional que este filme trasnmite, nos atingir antes e depois das famigeradas cenas que tanta polémica causaram -porque o impacto das mesmas é mais visceral que emocional.

Além disso este filme apresenta-nos uma caracterização feminina muito progressiva. Alex é uma mulher sensual, mas não é um mero troféu ou objecto de desejo. Ela é inteligente, independente, forte e lutadora. Quando é capturada por Le Tenia, observamo-la a utilizar todas as suas forças para lhe resistir, fugir e não se deixar subjugar.

Concluo enfatizando que este é um filme que nem toda a gente quererá ver, pois apresenta muita crueldade. Contudo este filme é contra o crime de violação e a pornografia advoga a favor aquilo que mostra. "Irreversible" não é um filme pornográfico. E no meio de tanta negrura ainda há frinchas que permitem perscrutar os locais de harmonia e beleza do espírito humano. Que isso sirva para nos fazer questionar o que vimos e lamentar a tragédia que se desenrola é uma prova da força e integridade deste filme.

Veredicto: 4.5/5 (Sinfonias nº7)

Realizador:
Gaspar Nóel
Elenco:
Monica Bellucci
Vincent Cassel
Albert Dupontel
Joe Prestia

Notas: Outros filmes que empregam a técnica da inversão cronológica e que recomendo: o supracitado "Memento" de Christopher Nolan e "Betrayal"de David Jones com Jeremy Irons e Ben Kingsley.