Thursday, September 6, 2012

Homem de Ferro - Iron Man




Robert Downey Jr. = Tony Stark = Homem de Ferro

Quando falamos de super heróis vindos directamente de Banda-Desenhada, não parece haver disputa que os mais populares serão o Super-Homem, Batman e Homem-Aranha. Popularidade aqui prende-se com o conhecimento das características estéticas de tais personagens e também de algumas das suas características particulares: afinal de contas mesmo sem ler as BDs respectivas, muitos de nós sabemos que o Super Homem é um extraterrestre com super força, visão raio-X,  super velocidade, imune a quase tudo,excepção feita à kriptonite; também sabemos que o Batman é um vigilante que possui um grande arsenal de engenhocas que usa no combate ao crime; o Homem-Aranha tem poderes aracnídeos como trepar paredes, disparar teias e um "sentido de aranha" que o alerta para o perigo imediato que o ameaça.

Além deste conhecimento, também identificamos facilmente os seus uniformes, sabemos quais as suas identidades secretas, ou alter-egos e reconhecemos um ou outro vilão mais icónico - normalmente o arqui-inimigo, o mais incansável, o mais diabólico e amiúde a simbólica antítese do herói.

Para estas personagens, a sua chegada ao grande ecrã foi  a evolução lógica da sua popularidade e estatuto icónico na cultura popular do século XX; as adaptações cinematográficas de filmes como Super-homem (1978, de Richard Donner com Christopher Reeve), O Homem-Aranha (2002, de Sam Raimi com Tobey Maguire) ou Batman (1989, Tim Burton, com Michael Keaton) apresentaram a personagem a um público mais amplo, foram um passo importante - provavelmente o que faltava - da sua consagração no imaginário popular.

Contudo o Homem de Ferro, não se encontrava nesta categoria, como personagem de BD; nunca gozara do mesmo tipo de popularidade das personagens que referi antes. Criado por Stan Lee e aparecendo pela primeira vez numa BD em 1963. Criado para ser a epítome do Capitalismo, Tony Stark é um bilionário playboy, construtor de armas. Publicado no auge da guerra fria, Stan Lee decidiu desafiar os seus jovens leitores, com uma personagem que era essencialmente um senhor da guerra narcisista, um génio da tecnologia e do armamento sofisticado que lutava contra os comunistas. Estavam aqui reunidos os ingredientes para uma personagem sem futuro: uma personagem pró-guerra numa América pós-Segunda Guerra Mundial é o equivalente a um elefante numa loja de porcelana, de armadura.

Mas Tony Stark - um pouco como o Batman - é uma personagem atormentada, que esconde os seus problemas sob uma capa de auto-confiança e arrogância. Tony Stark é um alcóolico com uma necessidade enorme de provar que podia viver longe da sombra do seu pai, o criador das indústrias Stark, um dos maiores produtores de armamento do mundo. Conferindo-lhe fraquezas os escritores da BD do Homem de Ferro tornaram a personagem popular e memorável.

Chega, no entanto de enquadramento, até porque estou aqui para falar do filme da perspectiva de um cinéfili e não de um conhecedor de BD - que não sou de forma alguma. como tinha dito, o Homem de Ferro era uma personagem popular nos comics, mas o público em geral estava marginalmente ciente da sua existência. Ora a Marvel, cavalgando o sucesso dos filmes do Homem Aranha e X-Men (2000, Brian Singer) decidiu apostar numa adaptação do Homem de Ferro.

O escolhido para desempenhar o papel de Tony Stark, foi Robert Downey Jr. um actor conhecido tanto pelos seus grandes desempenhos em Assassinos Natos (1994, Oliver Stone) e Chaplin (1992, Richard Attenborough), como pela sua atribuladíssima vida pessoal que o colocava frequentemente nos tablóides - prisões sucessivas por posse de narcóticos ou por conduzir sob a influência de alcool e drogas, assim como as suas imensas visitas a centros de reabilitação.

Antes de ser escolhido para o filme Homem de Ferro, Downey vinha de um período de longa normalidade que lhe permitiu participar numa série de filmes cuja aclamação crítica, das obras em geral e dos seus desempenhos em particular, convenceram a Marvel a apostar nele - cito por exemplo o filme Zodiac (2007, David Fincher).

E que aposta. Robert Downey Jr. criou um Tony Stark playboy, juvenil, calculista, arrogante, narcisista, piadético e a espaços empático. Aliás, o arco narrativo da personagem está intimamente ligado à tentativa da personagem se tornar mais conscientes do efeito que o negócio bélico tem na humanidade e em formas de o combater.

Veja-se a cena que abre o filme: Tony Stark atravessa um deserto, tendo vendido o seu mais recente e
letal míssil; está sentado num veículo militar, escoltado por soldados, de copo na mão, fato imaculado, piada na língua e um rádio a tocar AC/DC. Os soldados estão fascinados com ele e o espectador também - neste momento passaram 5 minutos desde o início e já nos esquecemos que pagámos bilhete para ver um homem numa armadura caríssima, a causar explosões. Eventualmente Tony Stark é sequestrado e ferido - com armas produzidas pela sua empresa - e forçado a construir armas para os seus captores.

Os primeiros 30 minutos são um equílibrio ténue - mas bem sucedido - entre a luta de Stark com os efeitos nefastos da sua política bélica/comercial. O filme nunca retomará este tópico com a mesma força e empenho, pois a sua missão é entreter, mas é de louvar a sua coerência para com um tema que é real e muito sério. Que o faça sem caricaturar - pelo menos no início -e sem perder o espectador é em si um feito notável.

O resto do filme posso dividir em duas partes: o enredo, com as peripécias típicas de um filme de origem e todos os momentos em que Robert Downey Jr. esté em cena. Não pensem com isto que o enredo é mau, ainda que não seja o ponto forte do filme.

Temos a obrigatória história de origem, em que assistimos à forma como Tony Stark decide abandonar o fabrico de armas, a sua decisão de criar a armadura - um processo lento, mas muito interessante e humorístico em que o espectador é colocado no lugar de um assistente de Stark, vendo a armadura sendo criada - tudo sem grandes explicações verbais, mas com a dinâmica de cena e as ajudas visuais necessárias para que o espectador nunca se sinta alienado da acção. Depois há as cenas de acção rápidas, entusiasmantes, que emitem uma vibração enorme de urgência e humor - sempre o humor neste filme -com doses generosas de efeitos especiais, mas nunca descurando o elemento humano - mostrar a cara do protagonista dentro do fato é sempre uma boa forma de imersão do espectador na acção.

Por fim um elenco de grandes actores compõem as cenas e os procedimentos: Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow e Terrence Howard. É um elenco pequeno para um blockbuster de grande estúdio, mas o filme é pequeno na escala da acção, o que contribui para o tornar mais intenso e para nos deixar ainda mais cativado pela personagem de Tony Stark.

No fundo é disto que se trata: Robert Downey Jr. criou um protagonista tão carismático, que tudo o resto não interessa: estamos dispostos a ignorar o argumento previsível, a identidade e motivação do vilão, a obrigatória tensão romântica entre Tony Stark e Pepper Pots (Gwyneth Paltrow) e o obrigatório desenlace feliz com seta a indicar a sequela. Tudo isto porque é um prazer ver um actor como Downey a mostrar ao público que se está a divertir - só faltava quebrar a quarta-dimensão e piscar o olho ao espectador - a ouvir as suas piadas e ficar com a sensação que todas as suas falas foram improvisadas no momento- algo que o documentário behind the scenes do dvd deste filme confirma em parte.

Downey criou um alter-ego em Tony Stark de tal forma que parece assumir em público a mesma postura muito confiante, ligeiramente trocista e de galã que criou para o filme.
Recentemente e para promover o terceiro filme da saga Homem de Ferro - sim eu demorei quatro anos e dois filmes a escrever sobre  o Homem de Ferro - Downey surgiu numa convenção ao som de Luther Vandross e com um adereço do filme Homem de Ferro 3. A questão que surge imediatamente é: está RDJ aqui como RDJ ou a interpretar Tony Stark? Apesar de falar do filme e dos seus objectivos - o que levaria logo a assumir que não estava in character - RDJ usou alguns maneirismos típicos da personagem.

Desta forma RDJ assume aquela postura de showman que estamos mais habituados a reconhecer de certos músicos - nomeadamente aqueles rockers das décadas de 70/80 cujas on stage personas eram indistinguíveis das suas façanhas ou tragédias operadas na vida privada e pública. Com o seu Tony Stark RDJ tornou-se um actor "rock star", uma presença mediática, que entretêm,  um cómico, quase maior do que a vida, mas não tanto. O seu percurso errático parece ter desaparecido, substituído por um fantástico comeback - e como o mundo, os Norte-Americanos em particular, adoram isso - que veio para ficar.

Espero que se mantenha, pois com esta postura desafiadora, este impulso para o puro entretenimento de massas, para lá da tela, deu ao mundo um novo RDJ e um novo ícone. Robert Downy Jr. é o Homem de Ferro e o Homem de Ferro é entretenimento pipoqueiro de qualidade e um bom filme de super-heróis - a sequela, por outro lado...to be continued...

Veredicto: 5/5 (Whoopers)

Realizador:
John Favreau
Elenco:
Robert Downey Jr.
Jeff Bridges
Gwyneth Paltrow
Terrence Howard
John Favreau

Monday, April 16, 2012

Uma lista a abater - The Kill List


 Ninguém pára para pensar no significado literal da "última missão..."

Jay (Neil Maskell) é um ex-militar com dores crónicas na coluna - segundo o próprio - e um jaccuzzi avariado. A sua esposa Shel (MyAnna Buring), também uma ex-militar, queixa-se da inactividade do marido e da postura sorumbática do mesmo. O pequeno Sam, é o espectador privilegiado das estrondosas discussões que os seus pais vão tendo ao longo do filme. Estamos perante um thriller arrebatador que aparenta ser uma crónica da relação instável de uma família, presa na inércia da vida suburbana Britânica.
Shel organiza um jantar e convida Gal (Michael Smiley) o amigo de longa data de Jay. O jantar não corre bem, pois a relação de Jay e Shel não lhes permite sequer ter um jantar sem que haja tiradas cruéis e toda a composição da mesa espalhada no chão - imagino como seriam os seus jantares fora de portas.
Sabendo que Jay está a precisar de dinheiro, Gal traz-lhe uma proposta de "trabalho": uma pequena lista de alvos a abater, cujo pagamento é demasiado bom para ignorar. Jay está relutante no início, mas parece ser a sua inércia e letargia aprendida os grandes entraves, já que ele e Gal já fizeram trabalhos semelhantes no passado. Finalmente e após muitas cenas da vida doméstica - leia-se discussões, tréguas maritais, discussões seguidas de mais tréguas maritais e sinais de agoiro místico - Jay e Gal aceitam o trabalho, que não será tão simples como ambos previam - nem podia ser de outra forma, pois este tropo em consonância com o "one last job" são parte fundamental deste tipo de cinema. As cenas em que os amigos se preparam para o trabalho, vigiando os alvos, são típicas de filmes sobre assassinos a soldo e em conjunto com a interacção doméstica estabelecem perfeitamente os laços que unem estas personagens. Porém estas são das poucas cenas que o filme tem de convencional - e talvez nem estas o sejam na verdade visto que a banda sonora que as acompanha é, na ausência de melhor termo, lúgubre.

O que se segue é uma sequência cada vez mais inquietante de aparições sinistras, símbolos do oculto de significado ambíguo, uma atmosfera cada vez mais tensa e inquieta(nte), mortes violentas e algum humor extremamente negro. Quão negro? Imaginem que estão a jantar e que alguém vos diz que debaixo da vossa mesa está uma bomba. Contudo afiançaram-vos que essa bomba está desligada e não explodirá. Como corre o resto do jantar? Ainda tem apetite se vos oferecerem um manjar delicioso? Agora substituam o jantar por algumas piadas contra o catolicismo e grupos de auto-ajuda e a bomba por este filme...ou melhor ainda esqueçam esta metáfora pouco clara e lembrem-se disto: Kill List é estranho, opaco, violento, opressivo, assustador e hipnótico; começa com um ruído que só consigo explicar como o que ouviria se estivesse num túnel de comboio e viesse um na minha direcção - curiosamente essa toada inicial marca o desconforto que este filme mantêm até terminar.

Não revelei o que acontece após Jay e Gal aceitarem o trabalho, porque tudo merece ser vivido sem grandes spoilers e dessa forma cada um poderá fazer sentido do que acontece. "Kill List" não é um filme claro, certos eventos são de tal forma estranhos e a  razão para os mesmos não é clara, o que obriga o espectador a criar as suas perguntas, mas também as suas respostas. Este filme é uma espécie de kit "faça você mesmo" dos thrillers de horror, na medida e que fornece as peças todas, mas não o manual de instruções não está todo traduzido...no fim podem sobrar algumas peças e mesmo assim funcionar.

O realizador Ben Wheatley pegou em convenções do género de acção - a última missão, "buddy movie" - misturou com outras de filmes de horror - algum gore, claustrofobia, paranóia - e resultado é um filme estranho, uma montanha russa a alta velocidade, mas na completa escuridão; uma mescla de géneros que resulta pois faz juz ao género do thriller - o espectador tem o corpo preso à cadeira e os olhos colados no ecrã.

Certamente que não será um filme para todos, o final em particular é em igual medida sinistro, divisivo, perverso  tão enigmático que quase ameaça destruir toda a lógica do enredo...e no entanto, quando tudo termina as pontas soltas ameaçam ficar atadas.

Na minha opinião um dos grandes filmes do género.

Veredicto: 5/5 (coelhos)

Realizador:
Ben Wheatley

Elenco:
Neil Maskell
Michael Smiley
MyAnna Buring
Emma Fryer

Notas: "The Wicker Man", 1973, Robin Hardy, é um outro thriller de terror Britânico, que partilha algumas temáticas com "The Kill List" e é um clássico algo subvalorizado.

Monday, March 19, 2012

Os créditos finais

Regresso, após uma longa ausência - longa demais - durante a qual nunca deixei de procurar os filmes, simplesmente não encontrava as palavras - e as palavras, de simples nada têm. Tenho novas ideias, novos textos e espero que em breve todas possam florescer neste espaço. Mas antes, uma pequena lembrança.
Uma lembrança que o cinema, é arte, escapismo, produto e kitch; é uma visão, ou visões, são falas inesquecíveis, superação, eternidade, esquecimento e batimentos cardíacos com ritmo musical. Um filme começa com os créditos iniciais e termina com a luz branca após os créditos finais. E são últimos que venho evocar. Cada pessoa sente e vive um filme de forma diferente, longe de mim querer evocar a norma perfeita, a forma única e incondicional de ver um filme. É a minha forma, é a minha visão, nada mais: para mim um filme começa com os créditos iniciais e termina com a luz branca que sucede os créditos finais. A música, ou a sua ausência, é a moldura para todos os nomes que compõem um grupo enorme de pessoas que se uniram para criar um filme e ignorar essa parte é de certa forma ignorar a sua importância. Além disso os créditos finais tem muitas vezes certas surpresas: os bloopers impressionantes dos filmes de Jackie Chan, algumas vezes superiores - em entretenimento - ao filme que os precederam; ou outtkakes cómicos de algumas comédias - às vezes engraçados outras vezes supérfluos; sequel hooks nos grandes blockbusters de acção ou nos filmes de terror - o assasino afinal está vivo!
Ou talvez mais importante do que tudo isto, os créditos são a via media que nos permite assimilar a experiência que vimos no grande ecrã; é o primeiro período de reflexão, em que voltamos a nós, voltamos à realidade e escolhemos - ainda que de forma inconsciente - as imagens, mensagens e temas que sempre associaremos ao filme, pelo menos até à próxima vez que o voltarmos a ver - um bom filme, é como um bom livro, suscita diferentes leituras.
A minha experiência dita que mais de metade das pessoas sai imediatamente após o fim da narrativa, o chamado "fade to black", pelo que cedo me habituei a abafar o ruído dos passos e pacotes de pipocas amarrotados - ainda que acabe sempre por reter um ou outro comentário. Alguns minutos depois saio também, a sala já vazia, sem música, sem créditos, apenas o som dos meus e pensamentos da memória recente de uma experiência que no fundo se perpetua para lá da sala de cinema e que inevitavelmente me fará regressar.

P.S: Os créditos finais deste texto são os comentários dos seus leitores.

Thursday, January 13, 2011

The 25th hour - A última hora




"This is a beautiful country, Monty, it's beautiful out there, like a different world."


A última hora é um filme dirigido por Spike Lee baseado na obra The 25th Hour escrita por David Benioff. Durante 135 minutos somos convidados a viver o último dia de liberdade de Montgomery "Monty" Brogan (Edward Norton) antes deste servir uma pena de sete anos por tráfico de droga.

Edward Norton é um actor de tremenda qualidade cujo papel de maior destaque é provavelmente Derek Vyniard, o neo-nazi de American History X. Contudo na minha opinião, o seu desempenho como Monty na sua última hora de liberdade é o mais completo até à data. Monty é um traficante de droga que em momento algum se desculpabiliza pelo seu ganha pão.

Monty está rodeado das pessoas mais próximas até à hora de partir para a prisão e é na sua interacção com elas que o filme ganha novas direcções e novos centros narrativos. Este é um filme com um elenco sumptuoso que nos presenteia com interpretações extraordinárias.

No papel de Naturelle, a namorada de Monty está Rosario Dawson, capaz de demonstrar enorme sensualidade e doçura. Naturelle é uma mulher inteligente e dedicada que se sente perdida num turbilhão emocional por ver o homem que ama ir preso, por saber que a pena é justa e por se sentir impotente face a tudo isso - e talvez culpada por ter aproveitado nas palavras de Monty, o estilo de vida confortável proporcionado por um traficante de droga.

Philip Seymour Hoffman é Jacob Elinsky, um professor tímido que nutre sentimentos amorosos por uma aluna - ou será a luxúria inatingível que a relação professor/aluno desperta num homem inseguro e tímido? Jacob é um amigo de infância de Monty. Estes dois e Frank Slaughtery formam o trio de amigos de infância cuja dinâmica sofre - de várias formas - com a partida de Monty.

Frank (Barry Pepper) é o amigo confiante e bem-parecido de Monty. Se Jacob é tímido, Frank é confiante e até vaidoso. A sua relação com Monty tem nuances de rivalidade, como dois machos alfa a tentar competir pelo domínio do grupo...ou será pela atenção de uma certa "fêmea"? Talvez a competição esteja só na mente de um deles - o filme convida a interpretara relação de várias formas. Frank e Jacob partilham com Naturelle o sentido de impotência face ao destino de Monty, mas nenhum é condescendente ou falso. Monty vai preso e merece-o pelo que fez...mas é um amigo que tinha um estilo de vida com o qual eles compactuaram, fechando os olhos e fingindo que tudo estava bem..estas personagens carregam em si o peso das suas acções e omissões.

Por fim temos o pai de Monty, James desempenhado pelo sempre respeitável Brian Cox. Um homem desgastado pelo tempo, que viu a sua esposa falecer e nunca mais conseguiu recuperar a alegria de viver. James parece carregar o peso do mundo nas costas, algo que não é evidenciado pela postura, mas pela falta de brilho nos seus olhos. A ida do filho para a prisão é a estocada final num homem que alguns dizem não ter tido muita sorte na vida - o que é um eufemismo.

Este é um filme repleto de grandes diálogos que povoam esta caminhada de um homem que tentar se despedir da vida que conheceu, para enfrentar um mundo árido e inclemente. Monty vive as suas últimas horas de liberdade com uma aceitação dormente, de quem já viveu na sua mente todas as alternativas possíveis, mas chega sempre à mesma inevitável conclusão: ele tem que ir para a prisão pelo que fez.

Todas as personagens estão ligadas a Monty e acabam por espiar as suas culpas ao despedirem-se dele. Esta é uma viagem emocional inclemente e inexorável.

Existem ao longo do filme vários momentos marcantes, entre eles destaco o discurso do antigo "patrão" de Monty, Nikolai, um homem duro que conselha Monty sobre como sobreviver na prisão - num monólogo que hipnotiza do início ao fim; há também um momento fortíssimo envolvendo um favor que Monty pede a Frank antes de ir para a prisão - um momento que exterioriza todos os demónios daquela amizade.
De salientar ainda o longo monólogo de Monty - evocativo de Travis Bickle em Taxi Driver - no qual ele insulta os nova-iorquinos, numa demonstração de raiva e inconformidade interior. No fundo este discurso é uma anti-carta de amor a Nova Iorque, que esconde nas entrelinhas a admiração de alguém que conhece a cidade e o país com detalhe e reverência.

Contudo a melhor cena do filme envolve James e Montgomery. Ao levar o filho para a prisão, James dá-lhe uma escolha: levá-lo para um local onde não o possam encontrar e aí reconstruir a sua vida. O que se segue é uma sucessão de imagens - será que é James ou Monty que as visualizam? Será uma visão partilhada? - de grande beleza, guiadas pela narração de James. Vemos qual é a alternativa ao encarceramento. É na minha opinião um triunfo de cadência e iconografia Norte-Americana: vemos pequenas localizações do Sul dos E.U.A, bandeiras americanas esvoaçando, coros de gospel, o deserto, a oportunidade de começar de novo, a oportunidade de ser feliz, um sonho americano para os anos 00. Alguns espectadores podem sentir-se enganados pelo desenlace desta cena, mas ela está em sintonia com o tom do filme.

Este é um filme que diz "I love America", ainda ferida pelos atentados de 11/09/2001. Um dos primeiros filmes a mostrar o ground zero no grande ecrã. Como está isto relacionado com os eventos do filme? Monty procura a sua redenção, talvez ele sinta que a atingirá, pagando pelos seus crimes e dessa forma ficando livre para começar de novo.
Digamos que o país das oportunidades, a terra dos sonhos que deu a Monty prosperidade, tirou-lhe tudo num piscar de olhos...mas a América é ainda a terra prometida e Monty sente que ela lhe deve mais uma oportunidade... ele deve a si mesmo voltar a tentar.

Neste sentido o filme é um louvor aos E.U.A, um louvor sentido a uma nação de luto, a uma nação de orgulho ferido que queria recuperar rapidamente da tragédia que se lhe abateu.

Spike Lee filme uma Nova Yorque de ruas alinhadas e movimentadas, bares duvidosos, Nova-Iorquinos aguerridos e orgulhosos de o ser, bandeiras nas janelas, um ground-zero fantasmagórico, o Sul quase místico, o amor na cidade que nunca dorme...a imperfeição de um país que o realizador ama, que reconhece as suas imperfeições...mas ele aceita-as como parte integrante da alma e do mito da Land of opportunities.

Em suma A última hora é um filme de uma poesia melancólica, embebida em tímida esperança.

Veredicto: 5/5 (colchões)

Realizador:
Spike Lee
Elenco:
Edward Norton
Brian Cox
Rosario Dawson
Philip Seymour Hoffman
Barry Pepper
Anna Paquin

Notas: Bamboozled e Malcom X são duas sugestões de filmes de Spike Lee de grande interesse

Friday, July 23, 2010

A origem - Inception



Um heist movie onírico


Como espectador, gosto de me informar o suficiente sobre um filme antes de o ver, mas nunca gosto de ir mais longe do que uma breve sinopse - brevíssima até, já que hoje em dia a arte do spoiler é praticada mesmo de forma inconsciente - e um ou outro trailer. Com Inception levei esse conceito ao extremo, pois bastou-me um trailer e uma tagline "Your mind is the scene of the crime" para decidir que este filme seria uma visualisação obrigatória.

Imagens de cidades a dobrarem sobre si mesmas, corredores que giram, desafiando a gravidade e a lógica, tiroteios estilizados reminiscentes da "Matrix" e uma premissa única, prenderam-me a este filme. Quando finalmente me sentei no cinema para o ver, as minhas expectativas não foram defraudadas.

O enredo estabelece-se à volta da seguinte sinopse: Dominic "Dom" Cobb (Leonardo Dicaprio) é um extractor de ideias, um especialista em infiltrar-se na mente do seu alvo enquanto este dorme extrai-lhe os seus segredos mais valiosos. Perseguido pela lei devido ao seu trágico e sombrio passado, Dom depara-se com uma oferta única: aceitar um trabalho que lhe permitirá deixar de ser um fugitivo. No entanto, em vez de roubar, a sua missão será plantar uma ideia, iludindo o seu alvo a julgar que a sua própria mente a gerou.

Estamos perante uma premissa já testada em vários filmes de golpada - heist movies - na qual o protagonista é um especialista na sua "arte", mas incapaz de viver uma vida fora do mundo que escolheu para si; entretanto surge a oportunidade de adquirir uma tranquilidade e normalidade através de um "último trabalho", que o espectador sabe à partida esconder mais do que inicialmente é proposto. Pois bem, neste filme já sabemos à partida que o acto de introduzir uma ideia na mente de alguém está perto do impossível, mas Dom diz ser capaz de o concretizar.

O filme contém a obrigatória sequência de apresentação dos elementos da equipa, que como manda a tradição revela um grupo carismático de indivíduos: Arthur (Joseph Gordon-Levitt) encarregue de pesquisar os alvos, Ariadne (Ellen Page) a arquitecta dos sonhos que constrói os locais oníricos onde o grupo irá tentar a implantação da ideia e Eames (Tom Hardy) o falsificador hábil em assumir diferentes identidades.

Neste filme existem dois mundos: o real, onde vemos o grupo de Dom a preparar o golpe e o onírico, onde eles treinam os seus passos e onde tomará lugar o golpe. A forma como os dois mundos se articulam é bastante intrigante, mantendo uma superficial semelhança que se dissolve à medida que prestamos atenção aos detalhes. De facto atenção ao detalhe é algo que qualquer espectador deve ter para identificar elementos cruciais para interpretarmos o que se passa e para compreendermos as implicações do mundo que se desenrola perante nós.

O conceito de entrar no sonho de outras pessoas é apresentado através de diálogo de uma simplicidade desarmante, sem precisarmos de longas sequência de diálogo enfadonhas, sem nunca se abdicar de certa complexidade que eleva este filme para o patamar de um high-concept blockbuster: eis um filme que nos apresente fantásticos efeitos especiais, cenas de perseguição empolgantes, tiroteios frenéticos, mas também e mais do que qualquer outra coisa, personagens com espessura dramática e diálogos inteligentes.

A ideia de um mundo manipulável, que existe na nossa mente e cujas acções tem efeito no mundo real, ecoam o filme "Matrix", até a forma como os personagens acedem aos sonhos é evocativa do filme dos Wachowski. Contudo o conceito de roubo de ideias, manipulação e navegação nos sonhos é muito mais coeso e familiar do que o mind jacking da trilogia "Matrix".

Christopher Nolan consegui criar um filme que é parte ficção-científica, parte heist movie, parte trhiller de acção com uns pozinhos de surrealismo e vénia à teoria Freudiana da interpretação dos sonhos. Esta é uma obra complexa sem ser impenetrável, frenética sem ser caótica, um filme que suscita amplas interpretações sobre a sua apresentação da realidade versus sonho - até onde somos capazes de estabelecer uma fronteira entre um e outro?

Nolan apresenta-nos uma viagem às complexidades da mente humana, sem nunca ceder às facilidades que um filme desta envergadura ofereceria a mãos menos capazes: os momentos de acção não são o centro do filme, os efeitos especiais servem nos fazer acreditar no mundo que se desdobra perante os nossos olhos, sem nunca serem intrusivos ou caírem no simples "fogo de artíficio".

Gostaria de destacar o virtuosismo do clímax, uma montanha russa de tensão, criada sem a mínima falha, prendendo o espectador até ao desenlace e capaz de tornar qualquer um num roedor de unhas inveterado. Menção também para todo o elenco, cheio de nomes sonante, entre promessas para a nova década Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, - já não é promessa, é uma certeza - Marion Cotillard e nomes credenciados como Leonardo Dicaprio - um grande actor, cujas escolhas de projectos revelam um artista multifacetado e carismático - Sir Michael Caine e Ken Watanabe. Os actores trazem um sentido de "gravitas" que nos permite simpatizar com as suas personagens e sentir genuíno interesse no seu sucesso.

Existe uma razão para manter a minha descrição vaga: este filme discute-se após ser visto, antes desse momento só existem conceitos e cenas desarticuladas. Após a experiência de o ver, surgem as questões, as opiniões, os debates, as emoções. Cada vez mais surge a necessidade de um cinema de espectáculo que não desprestigie a capacidade do espectador de participar, de questionar e de "intervir" na obra. Que um blockbuster de Verão o consiga é óptimo, que esse blockbuster seja um dos filmes mais inovadores e bem executados da última década, é um marco.

Veredicto: 5/5 (Labirintos)

Realizador:
Christopher Nolan
Elenco:
Leonardo Dicaprio
Ellen Page
Joseph Gordon-Levitt
Ken Watanabe
Tom Hardy
Marion Cotillard
Michael Caine
Cillian Murphy

Notas: para quem quiser mais thrillers sobre os limites da realidade, vale a pena descobrir "Shutter Island" de Martin Scorcese, também com Leonardo Dicaprio

Saturday, July 10, 2010

O terceiro passo - The Prestige


"Are you watching closely?"


No panorama cinematográfico actual, poucos realizadores tem sido tão prolíficos e inovadores como Christopher Nolan. Autor do brilhante quebra-cabeças que foi "Memento", do inquietante e níveo "Insomnia" ou do renascer apoteótico do cavaleiro das trevas com o díptíco "Batman Begins" e "The Dark Knight". Depois de super heróis, detectives com insónias e vingadores amnésicos, Nolan apresenta-nos um duelos de ilusionistas.

Sendo este um filme sobre magia e ilusões, nada é bem o que parece...ou talvez as respostas estejam mesmo à nossa frente, tudo depende da nossa capacidade de acreditar, ou simplesmente de não querermos saber a verdade, até que ela é revelada no grande clímax. O realizador criou um filme de grande suspense, cerebral, envolvente, em que nós somos expectadores, de um espectáculo de magia e ilusões, mas também somos a audiência do truque, somos os ajudantes que sabem os segredos escondidos atrás da cortina e no fim somos cúmplices de tudo o que se passou. Este filme não é só entretenimento...pode ser um desafio se quisermos fazer mais do que ver, se quisermos descobrir o segredo que se esconde no terceiro passo - e no fim gostar ou não gostar da grande revelação é uma questão de gosto pessoal, mas não há como escapar ao facto deste filme ser um triunfo de narrativa, realização e interpretação.

Nos papéis principais temos Hugh Jackman no papel de "Robert Angier" e Christian Bale como "Alfred Borden". N' "O terceiro oasso" interpretam dois aprendizes de ilusionista que se tornam obcecados em destruir a carreira um do outro após um trágico acidente: a mulher de Angier morre na tentativa de encenar a fuga de um tanque de água. Alfred Borden foi quem atou os pulsos da esposa de Angier, com um nó mais difícil de soltar - ainda que sob a sugestão da própria performer. A partir daqui ambos começam carreiras independentes como ilusionistas: Borden torna-se "O Professor" e Angier "O grande Danton". Ambos tentam sabotar a carreira um do outro com efeitos desastrosos para os dois.

Borden concebe um truque chamado "O homem transportado" no qual ele faz pinchar uma bola de borracha pelo palco, entra num armário e sai pelo outro a tempo de apanhar a bola. Este truque torna-o bem sucedido o que deixa Angier obcecado por descobrir o seu segredo, suplantando-o.

O que se segue é um sucessão de ilusões, ou melhor dito, enganos, através dos quais os dois mágicos vão tentar levar a melhor um sobre o outro. É um duelo de grandes mentes que nos deixa a adivinhar: imaginem um ilusionista a usar o truque da moeda que aparece atrás da orelha, mas outro aparece para fazer o truque da moeda que desaparece da testa, a seguir o primeiro já não faz a moeda desaparecer, mas faz a pessoa desaparecer... e ficamos tão fascinados com o desaparecer e aparecer da moeda e depois da pessoa que não pensamos muito no mecanismo, porque sabemos que há um truque. Só que neste filme o importante não é saber qual é o truque, mas quais as consequências. Este é um filme sobre mágicos, mas acima de tudo é sobre dois homens obcecados um com o outro, capazes de cruzar qualquer limite não só para ser o melhor, mas para derrubar o seu rival.

Hugh Jackman e Christian Bale estão soberbos nos seus desempenhos: Angier é o verdadeiro entertainer, cheio de glamour e pose, enquanto que Alfred é o ardiloso e engenhoso. Neste filme não se pode dizer que há um vilão e um herói, seria muito redutor e quando se dá o desenlace será difícil conceber que algum dos dois passe definitivamente para qualquer um dos lados do espectro moral - são dois seres ambíguos perdidos nas suas obsessões. Este filme requer um segundo visionamento para apurar as subtis nuances das interpretações de Jackman e Bale.

O restante elenco é estelar e contribui para os grandes desempenhos dos actores principais: temos Sir Michal Caine, Scarlett Johansson (num papel mais pequeno do que os posters publicitários levam a crer), Andy Serkis e David Bowie.

Este é um filme surpreendente, inteligente, que convida o espectador a entrar numa câmara de espelhos e fumo até revelar no final o seu grande segredo: um segredo tão grandioso como a sua execução, mas que no fim é diminuto comparado com o que custou para o conquistar.

Veredicto: 4/5 (gatos pretos)

Realizador:
Christopher Nolan
Elenco:
Christian Bale
Hugh Jackman
Michael Caine
Scarlett Johansson
Andy Serkis
David Bowie

Notas: Qualquer filme de Christopher Nolan é recomendado pela sua abordagem pessoal, as suas personagens bem construídas, excelente direcção narrativa e domínio de suspense. Um dos grandes realizadores actuais.

Tuesday, March 30, 2010

Rec


Chegou a vez dos zombies espanhóis


Primeiro aconteceu em 1968: George A. Romero soltou no mundo insuspeito a primeira praga zombie com o importantíssimo "The night of the living dead". Estava criado um subgénero que viria a ser definitivamente cimentado na sétima arte e na cultura popular com a sequela "Dawn of the dead" na qual Romero se superou em quase toda a linha. O filme de zombies tornou-se rapidamente um visitador frequente nos cinemas mundiais. Não só Romero o revisitou inúmeras vezes - sua "Dead series" já vai em cinco filmes - como rapidamente despoletou uma onda de imitadores - o natural movimento de quem quer fazer dinheiro à custa de uma ideia que faz sucesso - e posteriormente de inovadores.

A praga dos mortos-vivos já foi retratada em várias cinematografias para além da Norte Americana: Nova-Zelândia (Brain dead), Japão (Versus), China (Bio-zombie), Inglaterra (28 days later), França (La horde) e Portugal (I'll see you in my dreams), entre muitos outros exemplos. Espanha não é obviamente excepção e apesar de Rec não ser o primeiro filme de zombies espanhol, é na minha opinião o melhor e surgiu numa fase em que o terror made in spain começou a ser um género prolífero e exportável - nomeadamente para Hollywood.

Rec é um filme de terror que bebe influência de vários filmes, nomeadamente de "Blair Witch Project" e de "28 days later". Do primeiro retira o estilo shakky camera, no qual o acção é veiculada através de uma câmera portátil manuseada por um dos protagonistas da acção - pelo menos de acordo com a coerência interna do filme, ou seja é também um dispositivo narrativo - do segundo aproveita e adapta o conceito de zombie que surgiu nesse filme: ao contrário dos zombies lentos que se tornam perigosos em grande número, uma "patente" eternizada nos filme de Romero, os zombies de Rec e "28 days later" são rápidos e agressivos - diria raivosos.

A premissa de Rec é rapidamente estabelecida desde início: uma reportagem sobre uma equipa de bombeiros de Barcelona torna-se num pesadelo quando uma chamada para retirar uma mulher presa num apartamento corre muito mal, muito depressa. O camera men Pablo (Javier Botet) e a apresentadora da reportagem Angela Vidal (Manuela Velasco) são os protagonistas, já que vemos a acção através da câmara de Pablo e observámos sempre em primeira mão as reacções - que vão do espanto ao absoluto terror - de Angela.

Rapidamente chegados ao apartamento os bombeiros verificam que a inquilina presa em casa está fora de si - raivosa diria eu - e ataca um dos bombeiros. A situação fica descontrolada, as autoridades vedam o edifício deixando Angela, Pablo e todos aqueles que ainda não se tornaram em ferozes canibais, à mercê de...ferozes canibais.

Em todos os filmes de zombies a génese da zombificação é alvo de uma de duas abordagens: ou o enredo a explica - atribuir a causa a radiação ou a um vírus são as explicações clássicas - ou a causa é um mistério. No primeiro caso a explicação do que causa ou espalha a condição que torna humanos em cadáveres ambulantes torna-se um dispositivo de avanço da acção, no segundo a falta de explicação foca a narrativa na sobrevivência a todo o custo. "Rec" propõem uma explicação que simultaneamente inova, mas que também remete para as origens históricas da zombificação - e mais não digo para não estragar o filme a quem ainda não viu. Tendo explicado esta parte é de salientar que este filme não vive do enredo. Este filme vive da exposição de duas das pulsões mais primárias do ser humano: a violência sem amarras e o medo da escuridão. A violência é explosiva e sufocante, ampliada por uma câmara que mostra tanto quanto esconde, o seu ângulo limitado criando ilusões que se tornam reais quando da escuridão irrompem seres que querem por fim à vida dos protagonistas.

Filmar a acção na perspectiva da primeira pessoa não é um truque barato. Somos convidados a ser Pablo o camera men, a partilhar os seus medos, a tentar recuperar o fôlego como ele o faz, a tentar ser corajosos e não desviar o olhar.

"Rec" é rápido, sangrento e eficaz a criar uma atmosfera tensa e que nos deixa a sentir que andamos numa montanha russa: podemos fechar os olhos, mas a escuridão também assusta, talvez mais do que aquilo que podemos ver.

George A . Romero é o pai dos filmes de zombies, conseguiu fundir nos seus filmes o gore e o comentário político e social em todos os seus filmes. Aqui não há tais preocupações a nível de temas, mas o cinema também desperta os sentimentos mais inatos em nós, experimentar o horrível no conforto do cinema. Aqui tudo isso é conseguido.

Veredicto: 4/5 (crianças assustadoras)

Realizador:
Jame Balagueró e Paco Plaza
Elenco:
Manuela Velasco
Javier Botet
Manuel Bronchud
Martha Carbonell
Claudia Font
Vicent Gil

Notas: toda a saga de George A. Romero merece menção, particularmente os dois primeiros filmes. Para uma homenagem cómica e sentida recomendo "Shaun of the dead". "28 days later" e "Dead Snow" são bons exemplos de filmes não americanos de zombies.