
Chegou a vez dos zombies espanhóis
Primeiro aconteceu em 1968: George A. Romero soltou no mundo insuspeito a primeira praga zombie com o importantíssimo "The night of the living dead". Estava criado um subgénero que viria a ser definitivamente cimentado na sétima arte e na cultura popular com a sequela "Dawn of the dead" na qual Romero se superou em quase toda a linha. O filme de zombies tornou-se rapidamente um visitador frequente nos cinemas mundiais. Não só Romero o revisitou inúmeras vezes - sua "Dead series" já vai em cinco filmes - como rapidamente despoletou uma onda de imitadores - o natural movimento de quem quer fazer dinheiro à custa de uma ideia que faz sucesso - e posteriormente de inovadores.
A praga dos mortos-vivos já foi retratada em várias cinematografias para além da Norte Americana: Nova-Zelândia (Brain dead), Japão (Versus), China (Bio-zombie), Inglaterra (28 days later), França (La horde) e Portugal (I'll see you in my dreams), entre muitos outros exemplos. Espanha não é obviamente excepção e apesar de Rec não ser o primeiro filme de zombies espanhol, é na minha opinião o melhor e surgiu numa fase em que o terror made in spain começou a ser um género prolífero e exportável - nomeadamente para Hollywood.
Rec é um filme de terror que bebe influência de vários filmes, nomeadamente de "Blair Witch Project" e de "28 days later". Do primeiro retira o estilo shakky camera, no qual o acção é veiculada através de uma câmera portátil manuseada por um dos protagonistas da acção - pelo menos de acordo com a coerência interna do filme, ou seja é também um dispositivo narrativo - do segundo aproveita e adapta o conceito de zombie que surgiu nesse filme: ao contrário dos zombies lentos que se tornam perigosos em grande número, uma "patente" eternizada nos filme de Romero, os zombies de Rec e "28 days later" são rápidos e agressivos - diria raivosos.
A premissa de Rec é rapidamente estabelecida desde início: uma reportagem sobre uma equipa de bombeiros de Barcelona torna-se num pesadelo quando uma chamada para retirar uma mulher presa num apartamento corre muito mal, muito depressa. O camera men Pablo (Javier Botet) e a apresentadora da reportagem Angela Vidal (Manuela Velasco) são os protagonistas, já que vemos a acção através da câmara de Pablo e observámos sempre em primeira mão as reacções - que vão do espanto ao absoluto terror - de Angela.
Rapidamente chegados ao apartamento os bombeiros verificam que a inquilina presa em casa está fora de si - raivosa diria eu - e ataca um dos bombeiros. A situação fica descontrolada, as autoridades vedam o edifício deixando Angela, Pablo e todos aqueles que ainda não se tornaram em ferozes canibais, à mercê de...ferozes canibais.
Em todos os filmes de zombies a génese da zombificação é alvo de uma de duas abordagens: ou o enredo a explica - atribuir a causa a radiação ou a um vírus são as explicações clássicas - ou a causa é um mistério. No primeiro caso a explicação do que causa ou espalha a condição que torna humanos em cadáveres ambulantes torna-se um dispositivo de avanço da acção, no segundo a falta de explicação foca a narrativa na sobrevivência a todo o custo. "Rec" propõem uma explicação que simultaneamente inova, mas que também remete para as origens históricas da zombificação - e mais não digo para não estragar o filme a quem ainda não viu. Tendo explicado esta parte é de salientar que este filme não vive do enredo. Este filme vive da exposição de duas das pulsões mais primárias do ser humano: a violência sem amarras e o medo da escuridão. A violência é explosiva e sufocante, ampliada por uma câmara que mostra tanto quanto esconde, o seu ângulo limitado criando ilusões que se tornam reais quando da escuridão irrompem seres que querem por fim à vida dos protagonistas.
Filmar a acção na perspectiva da primeira pessoa não é um truque barato. Somos convidados a ser Pablo o camera men, a partilhar os seus medos, a tentar recuperar o fôlego como ele o faz, a tentar ser corajosos e não desviar o olhar.
"Rec" é rápido, sangrento e eficaz a criar uma atmosfera tensa e que nos deixa a sentir que andamos numa montanha russa: podemos fechar os olhos, mas a escuridão também assusta, talvez mais do que aquilo que podemos ver.
George A . Romero é o pai dos filmes de zombies, conseguiu fundir nos seus filmes o gore e o comentário político e social em todos os seus filmes. Aqui não há tais preocupações a nível de temas, mas o cinema também desperta os sentimentos mais inatos em nós, experimentar o horrível no conforto do cinema. Aqui tudo isso é conseguido.
Veredicto: 4/5 (crianças assustadoras)
Realizador:
Jame Balagueró e Paco Plaza
Elenco:
Manuela Velasco
Javier Botet
Manuel Bronchud
Martha Carbonell
Claudia Font
Vicent Gil
Notas: toda a saga de George A. Romero merece menção, particularmente os dois primeiros filmes. Para uma homenagem cómica e sentida recomendo "Shaun of the dead". "28 days later" e "Dead Snow" são bons exemplos de filmes não americanos de zombies.

