Monday, January 26, 2009

Ultimo tango em Paris - Ultimo Tango a Parigi




A bela e o monstro...ou será ao contrário?


Brando e Schneider ou um conto de almas perdidas. Ele (Marlon Brando) um americano de 45 anos a viver em Paris, assombrado pela morte da mulher. Ela é Jane Eyre (Maria Shneider) uma bela parisiense de 20 anos, noiva de um jovem realizador. Ambos procuram um apartamento para alugar. Encontram-se num apartamento livre e a partir desse momentos os seus corpos ficarão entrelaçados numa união física, sexual, levada ao limite.

Ele não quer saber o nome dela e não lhe diz o seu. A sua relação nasce de uma necessidade de preencher, através de jogos sexuais, um vazio que até ali as suas vidas não souberam suprir de outra forma. Ele é uma alma atormentada, um espectro, fisicamente decadente e mentalmente quebrado. Ela é jovem, mas sente-se perdida, sem rumo decidindo entrar num jogo de máscaras no qual é subjugada sexualmente - ou será o inverso?

Estes desconhecidos, estes amantes irregulares fazem de um apartamento vazio o seu recreio; apartamento esse que é um reflexo do quão despidos estão não só os corpos, mas os espíritos. Quando o sol ilumina aquelas quatro paredes a melancolia é mais evidente, como se não houvesse forma de esta se esconder.

Paris aqui não é uma imagem risonha de um postal de férias. É real, anti-romântica e desencantada como as personagens que a habitam.

Sinto que pintei um quadro negro de um filme triste. De facto este é um filme soturno sobre as consequências de um amor fou, um tipo de amor tão avassalador como destrutivo. Quando a música de Gato Barbieri relembramos a perenidade da vida e a natureza fugaz do sentimento. Contudo este filme desafia o nihilismo do amor que vemos no ecrã e faz-nos questionar: será possível resgatar um coração moribundo?

Veredicto: 4/5 (Pacotes de manteiga)


Realizador: Bernardo Bertolucci
Elenco:
Marlon Brando
Maria Schneider
Jean-Piérre Léaud

Notas: Do mesmo realizador e com uma temática não muito afastada aconselho "Os sonhadores". Um filme menos melancólico, menos impactante do ponto de vista emocional, mas ainda assim um bom filme.

Melhor é impossível - As good as it gets


Talvez seja possível


Melvin Udall (Jack Nicholson) é uma das pessoas mais odiosas que poderão imaginar: mal-criado, misantropo e rude. Além disso é um obsessivo compulsivo que nunca usa os mesmos talheres duas vezes e que caminha sem tocar nos limites dos panéis dos passeios. Melvin ganha a vida como um bem sucedido escritor de romances. Como é possível um misantropo fazer isso? Bem. como ele tão bem explica a uma fã sua, o segredo para compreender as mulheres é "eu penso num homem e depois retiro-lhe a razão e a responsabilidade".

Não é facil simpatizar com Melvin, afinal de contas ele é indesejado até no restaurante onde regularmente come, pois é rude para todas as empregadas e só aceita ser servido por uma. Seu nome é Carol (Helen Hunt), uma mulher de caracter forte e espírito doce, que tolera a ingratidão e rudeza de Melvin. Um dia tudo muda, quando o azar bate á porta de um dos vizinhos do protagonista, Simon (Greg Kinnear). Simon é um pintor gay - imaginem os comentários que Melvin lhe dirige - que é assaltado e agredido. Durante a sua estadia no hospital, o seu pequeno cão vai para aos "cuidados" do seu horrível vizinho. A partir daqui, as vidas de Melvin, Carol e Simon irão sofrer uma reviravolta.

A história é apenas um pretexto para juntar as personagens em situações que geram mal-entendidos, romance, mais equívocos e auto-descobertas. Mas, a verdadeira força do filme são as personagens e os fantásticos actores que os personificam.

Carol é um poço de força e doçura. Uma mãe solteira que luta para equilibrar o seu trabalho e as despesas médicas para tratar do seu filho asmático. Uma mulher que teme estar a perder os melhores anos da sua vida, uma mulher vibrante que ainda sonha com o amor. Helen Hunt entrega-se à personagem e é um prazer ver os seus "duelos" com Nicholson.

Simon é um homem sensível, um artista dotado que tem demasiado azar na sua vida. Uma pessoa com a qual é facil simpatizar, o oposto de Melvin.

E claro Nicholson. Um tour de force, uma força da natureza. Onde acaba o actor e começa a personagem? Ele é a força do filme, apesar de estar muitíssimo bem acompanhado pelo restante elenco. Mais que descrever urge ver o seu desempenho.

"Melhor é impossível" é uma comédia que vai buscar humor onde não julgariamos encontrar; vai buscar esperança onde não esperavamos existir. Este filme relembra-nos que nunca é tarde para sermos o melhor que podemos ser, que nunca é tarde para acordarmos para o amor. è um filme sobre segundas oportunidades - e terceiras e quartas...
Nessa busca vamos tropeçando pelo caminho, mas viagens como esta valem a pena nem que seja pelo destino que é fantástico.

Veredicto: 4/5 (cãezinhos peludos)

Realizador: James L. Brooks
Elenco:
Jack Nicholson
Helen Hunt
Greg Kinnear
Cuba Gooding Jr.

Notas: Num registo semelhante da fórmula homem-mau-que-se-arrepende-e-fica-bonzinho, aconselho "Ghost town", que também é uma comédia romântica, com um tema sobrenatural.

Friday, January 23, 2009

A Noiva Cadáver - Corpse Bride



A morte fica-lhe tão bem

Tim Burton é um dos realizadores actuais cujo estilo é impossível de não reconhecer. A vasta maioria da sua obra apresenta-nos protagonistas que são maioritariamente párias da sociedade por serem diferentes quer física quer psicologicamente. Não só isto, marca o estilo de Burton conhecido por nos introduzir em mundos sobrenaturais, fantásticos, pontuados por um estilo gótico salpicado de humor um humor tão negro como caloroso. Soa contraditório? Talvez, mas em na obra de Burton importa ver para compreender, pois o seu estilo visual é único.

Em "A Noiva Cadáver" - só o título parece saído de um poema de Poe - ficamos a conhecer Victor Van Dort ( Johnny Depp), um jovem cujos pais, comerciantes de peixe recentemente endinheirados o querem casar com uma mulher que ele nunca viu. A noiva é Victoria Everglot (Emily Watson) uma jovem e bela mulher filha de aristocratas decadentes e corruptos. A Victor não agrada nada a ideia de casar com alguém que nunca viu e não conhece, mas apesar de algumas falsas partidas e expectativas negativas, ele e Victoria cedo se começam a conhecer e apaixonam-se quase imediatamente. Contudo Victor engana-se no ensaio do casamento e o padre proíbe-o de voltar á igreja sem este decorar os votos de casamento.

Vagueando pela floresta ele vai recitando sempre de forma falhada os votos, até que, enchendo-se de coragem coloca o anel num ramo seco que parece uma mão humana e recita-os com sucesso. Contudo o ramo era de facto uma mão humana, que o agarra. Do solo emerge a Noiva Cadáver Emily (Helena Bonham Carter). Com um vestido bolorento e ela própria em franca decomposição, Emily declara Victor seu marido e após alguma luta beija-o. Este desmaia e quando recupera a consciência acorda no mundo dos mortos.

Está dado o mote para uma história com alguns contornos macabros, como é apanágio de Burton, mas sempre contada com coração e muito música e cor. Que divertido é constatar que o mundo dos mortos é infinitamente mais colorido e divertido que o dos humanos. Números musicais interpretados por esqueletos e outros seres sem batimentos cardíacos, mas que são mais joviais e mais vivos que os cinzentos humanos que vivem à superfície. De facto os humanos são apresentados com um ar de enfado, um tom de pele cinza e olheiras de quem já não dorme semanas a fio; o tempo é sempre cinzento e chuvoso ao ponto de quando nos é apresentado o mundo dos mortos ficamos a pensar que todo o filme podia ser passado ali. Claro que isso descaracterizava esta obra que assenta exactamente no contraste entre a apatia do mundo dos vivos e o tom quase de cabaret do mundo sobrenatural.

Os mortos são seres visualmente interessantes e contêm indivíduos tão coloridos como General Bonesapart, Bonejangles ou o carismático cão Scraps. A breve reunião que ocorre entre os mortos e os vivos é dos momentos mais ternos do filme e não deve ser descurado.

Ao vermos este filme é impossível não nos relembrarmos de Halloween town em "O estranho mundo de Jack" ou da vida após a morte em "Beetlejuice: os fantasmas divertem-se". Em ambos os casos podemos ver semelhanças estilísticas nos reinos sobrenaturais ali representados, ou não fossem essas obras de Burton também.

O filme é eficaz em criar uma história de amor simples, mas recheada de personagens adoráveis no caso de Emily, Victor, Victoria, Scraps ou detestáveis no caso dos interesseiros pais dos noivos ou do vilão principal - que não revelarei para quem ainda não viu. Os momentos musicais são da estarei a que Burton já nos habituou nos seus filmes, com letras espirituosas, momentos de humor visual deliciosos e melodias que ficam no ouvido. O filme nunca perde o seu tom alegre apesar do que o tema possa indicar, mesmo nas cenas mais tensas. Burton consegue mais uma vez um filme que é capaz de atingir um publico transversal sem sacrificar o seu estilo.

A técnica de stop-animation aqui empregue é do mais sublime que já vi, com os modelos das personagens muito expressivos, detalhados e complexos. O processo moroso que implica a concretização desta técnica de animação, em que cada movimento tem que ser preparado e fotografado frame por frame, apenas dá mais valor ao producto final, que é não só um excelente filme de fantasia, como um dos melhores filmes de animação que já tive o prazer de ver.

Para ver e rever.

Veredicto: 5/5 (Ossos)

Realizador: Tim Burton
Elenco:
Johnny Depp
Helena Bonham Carter
Emily Watson
Cristopher Lee
Tracey Ullman
Paul Whitehouse
Joanna Lumley
Albert Finney

Notas: Tim Burton é um dos meus autores favoritos e recomendar os seus filmes é fácil. Para quem é um iniciado na sua obra e quer se manter por este terreno fantástico da dicotomia entre o reino dos vivos e dos mortos recomendo "O estranho mundo de Jack" e "Beetlejuice: os fantasmas divertem-se".

Oldboy: Velho amigo - Hangul



Viagem às profundezas do espírito humano

Oh Dae-su ( Choi Min- sik) é um homem de negócios com mulher e família. Um homem com absolutamente nada de extrarodinário, alguém capaz de dar à normalidade um ar de entusiasmo. Bêbado e preso numa esquadra de polícia aguarda que o seu amigo lhe paga a fiança, enquanto faz uma figura deplorável. Finalmente livre Dae-su e seu amigo dirigem-se a uma cabine telefónica para ligarem para a sua mulher, assegurando-lhe que regressará aquela noite a casa. Contudo Dae-su desaparece misteriosamente, mesmo debaixo das barbas do seu amigo.

Acorda dias mais tarde num deplorável quarto de hotel, sem explicação de como ou porquê ali foi parar. Não lhe são permitidas visitas, telefonemas e come todos os dias a mesma comida, servida por uma ranhura na porta. Começando a alucinar e a ficar paranóico, Dae-su tenta suicidar-se inúmeras vezes, mas nunca consegue porque o quarto enche-se de gás ficando inconsciente.
Resignado à sua condição captiva, este começa então a treinar-se fisicamente e usa a televisão como um calendário, para não perder a percepção da passagem do tempo. Um dia Oh Dae-su descobre, ao ver televisão, que a sua mulher foi assassinada, a sua filha enviada para pais adoptivos e que ele é o principal suspeito do homicídio. Decidido a escapar, começa a cavar um túnel numa parede. Perto da realização da sua fuga Dae-su é libertado com um novo par de roupas e os seus diários escritos enquanto esteve preso. Passaram-se quinze anos.

Com a sua libertação começa uma busca por respostas e por vingança contra os seus encarceradores. Depois de um início prometedor, o filme progride num turbilhão emocional de violência e descoberta. "Oldboy" apresenta-nos contrastes deliciosos a nível visual como o decadente hotel onde Dae -su é preso ou a nívea paisagem final banhada por neve. Os cenários parecem extensões verdadeiras das personalidades das personagens e nesse sentido a mise en scéne é excepcional. As cores são escuras, sujas quando vemos o hotel/prisão, algumas ruas por onde o protagonista vagueia, mas por outro lado existe uma aura cristalina de cores em ambientes urbanos mais tranquilos, na casa onde Dae-su se refugia e também na escola que ele revisita. Visualmente considero o filme visualmente estimulante. Depois somos presenteados com uma cena de luta, rodada num único take, que é emocionante, exagerada, mas nunca aborrecida e sempre fascinante. Quero também elogiar a de Choi Min-sik, num registo entre o homem e a máquina. Muito do impacto visceral do filme jaz na sua interpretação formidável.

Considero ser refrescante um filme que nos força a rever os estereótipos das personagens em histórias de vingança: quem é o vilão e quem é o herói? O que é mais importante: obter vingança ou obter respostas? É a vingança um fin em si mesmo? - se acham que acabei de estragar, inadvertidamente, algum ponto-chave do enredo, é mais uma prova da capacidade do filme em vos tirar o tapete debaixo dos pés. Se permitirmos fazer a nós mesmos estas perguntas então este filme já se terá colocado num patamar superior.

Muitos filmes sobre vingança são formulaicos e previsíveis, mas não este. Aqui somos levados e entrar numa teia muito enredada e no fim devemos questionar o que realmente significa obter retribuição e quais as suas consequências. "Oldboy" é um filme que desafia muitos tabus, mas dizer mais sobre isso seria estragar a experiência. Posso contudo dizer que um filme de acção - se quisermos rotular - que nos obriga a reflectir sobre as consequências da violência, só pode ser meritoso. Mas está longe de ser um filme fácil, pois contêm cenas chocantes de violência e um fim que se assemelha a um loop vertiginoso numa montanha russa. Quando chegamos ao fim da viagem, o filme ainda nos permite fazer uma leitura pessoal do seu desfecho e por consequência uma releitura de toda a obra.

"Oldboy" não é um blockbuster de acção, mas tem cenas virtiginosas; não é um drama, mas causa impacto emocional. Defino este filme como um mosaico do coração humano, capaz de albergar em si vários tons: do mais insondável negro ao verde mais esperançoso.

Veredicto: 5/5 (Martelos)

Realizador: Park Chan-wook
Elenco:
Choi Min-sik
Yu Ji-tae
Kang Hye-jeong

Notas: para quem quiser completar a trilogia sobre a vingança de Park Chan- wook aconselho "Simpathy for Mr. Vengeance", que precede este "Odboy" e "Simpathy for Lady Vengeance" o filme final. Este filmes só estão ligados tematicamente. Os enredos são estanques entre si.

Thursday, January 22, 2009

Disponível para amar - Huāyàng niánhuá


Os silêncios entre as palavras

Hong Kong, 1942. Chow Mo-Wan (Tony Leung), um jornalista, aluga um quarto num apartamento pertencente a uma família de Shangai. No mesmo dia So Lai-Zhen (Maggie Cheung), uma secretária de uma companhia de exportação faz o mesmo. Eles tornam-se vizinhos. Ambos tem esposos que estão ausentes em trabalho deixando-os sozinhos durante os seus longos turnos. Apesar da presença de uma senhoria simpática e de um número grande e constante de jogadores de mahjong, Chow e So passam a maior parte do seu tempo sozinhos nos seus quartos e eventualmente uma amizade entre os dois ganha forma. Não demora muito tempo até ambos chegarem a uma conclusão sobre a razão para os seus esposos estarem sempre ausentes: estão envolvidos numa relação adúltera...um com o outro. Chow convence So a re-imaginar o que ela acha que poderia estar a acontecer entre o marido dela e a esposa dele. A partir desse momento a linha entre um jogo de representação e um romance real começa a esbater-se.

A proximidade de ambos leva as pessoas que os rodeiam a suspeitar que estão apaixonados, mas Chow e So concordaram que envolverem-se um com o outro significaria tornarem-se no mesmo que os seus esposos adúlteros. Esta racionalização dita o ritmo de todo um filme sobre duas pessoas que se desejam, mas agem não de acordo com o que sentem, mas com o que acham que o outro sente. Chow pensa que So não quer mais que uma amizade e logo não tenta consumar o desejo que sente; So por seu lado segue uma linha de pensamento idêntica. Sim, ambos professam verbalmente o seu acordo em não se envolverem, mas sempre seguindo aquilo que acham que o outro pensa ser correcto. Este é portanto um filme sobre duas pessoas que estavam disponíveis para amar, mas provavelmente não estavam no sítio ou tempo ideal para que tal acontecesse.

Estes amantes secretos - até para eles mesmos - são nos apresentados num clima intimista: existe sempre paredes a rodea-los, quartos exíguos ou na falta disso uma enorme multidão que apenas realça a intimidade do par. As suas pequenas rotinas, como ir à mercearia, um pequeno diálogo debaixo das escadas, um cigarro sedutor ou um simples contemplar, estão carregadas de um amor platónico e de um desejo mal escondido que Chow e So sentem.
As suas conversas, todos os momentos juntos exalam um desejo de amar, não há duvida que são dois seres que querem muito estar um com o outro: a presença um do outro afasta tudo o resto, porque os amantes deixam de reparar onde estão; as suas palavras nunca são aborrecidas ou repetitivas, porque quando se fala num código de amor, fala-se do que queremos partilhar com o outro, mesmo que queiramos ocultá-lo com silêncios ou pausas, esses espaços são preenchidos com as nossas expectativas de felicidade.

Este filme foge a muitas das convenções de filmes de amantes impossíveis. Um dos mais importantes é a total relegação dos esposos ausentes e adulteros: eles de facto nunca estão presentes, a sua traição nunca é filmada, nem precisa de o ser, poisa a sua presença faz-se sentir de qualquer forma. Um dos momentos mais inspirados fo filme é a representação feita por So do que se poderia estar a passar entre o seu esposo e a amante. Podemos compreender isso, porque faz parte das nossas inseguranças imaginar aquilo que não podemos ou queremos ver, como uma forma de escape ou de tortura, ou até ambos. Mas o foco é Chow e So e creio que partilham dos momentos mais puros e sublimes que já vi no grande ecrã. Em contraste, o adultério que não vemos, mas sentimos ser vulgar e aborrecido, eleva o romance dos protagonistas a um patamar perto do sublime. A força maior deste filme reside no facto de não sentirmos a necessidade de nos identificar com os protagonistas, mas antes de simpatizarmos com eles. Neste sentido, as recompensas que o filme nos dá acabam por ser maiores e mais ricas.

Poderemos ficar a pensar qual dos dois terá mais desejo ou qual estará mais receoso de admitir que quer se entregar, mas esta é uma das várias interpretações que o filme abre e nesse aspecto é uma obra aberta no que diz respeito a emoções como o amor, o desejo e também a dilemas de consciência, porque às vezes o obstáculo que está entre nós e a felcididade, não são os outros mas nós mesmos.

Permitam-se descobrir este filme algo contemplativo, muito belo, povoado por um jogo de cores sombras, fumo de cigarro - aqui o fumo de cigarro é uma neblina que descortina as personagens, na melhor tradição do género Noir - e uma cidade tão viva como claustrofóbica. Apenas recomendo que esqueçam as convenções mais estabelecidas dos filmes românticos de Hollywood e se deixem levar pelo turbilhão de emoções que este filme terno apresenta. Quando vejo este filme apercebo-me que, no que diz respeito ao amor e ao desejo, os seus precalços aventuras e desfechos nunca são um fim, mas sim um princípio de algo esplendoroso.

Veredicto: 4/5 (Cigarros)

Realizador: Wong Kar-Wai
Elenco:
Maggie Cheung
Tony Leung
Rebecca Pan
Lai Chin Ah

Notas: De Wong Kar-Wai recomendo a pseudo sequela deste filme 2046 e num tom diferente, mas com o mesmo tema de caminho que se cruzam, apesar de as intenções não, Chungking Express.

Tuesday, January 20, 2009

A viagem de Chihiro - Sen to Chihiro no Kamikakushi


Alice no País das maravilhas? Uma nova Neverland? Ambos, nenhum e para além deles.

Nos dias de hoje os grandes filmes de animação que estreiam nas salas de cinema, são na sua maioria animações computorizadas. Já transcendeu o estatuto de moda ou novidade há alguns anos para ser agora uma instituição. Para alguém que cresceu com a chamada animação tradicional, ainda não me habituei completamente ao facto de esta ser agora tão minoritária. Claro que as razões para isto serão de foro económico acima de tudo: os filmes de animação computorizada atraem grande quantidade de expectadores, são uma garantia de rentabilidade. Isto deve-se a um monopólio que os estúdios Norte-Americanos detêm no que diz respeito a estabelecer tendências; contudo assiste-se ao emergir de um novo tipo de world-cinema que vem provar que para cada centro há uma margem bem viva.

A animação tradicional está viva, ainda que de uma forma quantitativamente menos expressiva. Para provar isso mesmo falo agora de uma dos meus filmes favoritos pelas mãos de um dos grandes mestres da animação: Hayao Miyazaki.

Estreado em 2001, A viagem de Chihiro começa com a protagonista Chihiro - óbvio eu sei já que o nome está no título - a fazer uma viagem - estou a navegar em território de La Palice - com os seus pais para uma nova casa, numa nova cidade. Pelo caminho a família perde-se e depara-se com um misterioso túnel. Ao atravessá-lo descobrem o que parece ser uma feira, ou parque de diversões abandonado, mas por estranho que pareça tem comida acabada de cozinhar exposta em várias explanadas. Chihiro parte à descoberta da feira e encontra um rapaz chamado Haku que age como se já a tivera conhecido. Este avisa-a do perigo de permanecer naquele local e urge-a abandoná-lo rapidamente. Chihiro regressa para perto dos seus pais apenas para os encontrar transformados em porcos. Para piorar a situação o túnel por onde veio é agora um intransponível rio. A situação fica ainda mais estranha quando espíritos invadem a feira e começam a celebrar.

Haku leva Chihiro para uma espécie de termas ou banhos públicos e convence-a a procurar emprego ali, até ele poder reverter a situação dos seus pais. A dona das termas é Yubaba, uma mulher com uma cabeça tão grande como o resto do seu corpo - uma das muitas fantásticas personagens criadas por Miyazaki - cuja perfídia só encontra paralelo no tamanho do seu crânio. Chihiro é empregada nas termas a troco de abdicar do seu nome, ficando assim ao serviço de Yubaba para sempre. Nas termas a protagonista terá que dar banho e servir alguns dos espíritos mais difíceis daquele local.

Este é o inicio de um filme repleto de elementos do reino da fantasia como dragões, deuses, espíritos, homens com seis braços, bebés gigantes e a lista continua. Graças ao traço detalhado de Miyazaki estes elementos ganham uma aura de realismo à medida que nos são apresentados e vamos procurando todos os pequenos detalhes. As cores são vibrantes no seu uso ponderado - uma contradição que só pode ser explicada visualizando-a - e os cenários tem um elemento onírico, que assenta perfeitamente no tom de um filme que é também uma viagem à toca do coelho - aqui teremos que substituir não só a Alice, como também os elementos do mito e folclore europeu, pelo temas e motifs orientais.
Não podemos esquecer a mensagem ambientalista, presente em outras obras deste autor, personificada aqui através de um certo espírito do rio, num dos mais belo momentos de metamorfose do filme.

De facto, um dos grandes temas do filme é exactamente a transformação, o crescimento e o que isso implica. Chihiro é no início do filme uma criança mimada, egoísta e pessimista, mas a sua estadia a trabalhar nas termas vai transformá-la numa pessoa optimista, trabalhadora que aprende a preocupar-se com os outros. Talvez no outro espectro jaz Boh o filho de Yubaba, que é um bebé gigante mimado e supostamente agorafóbico - agorafobia é o medo de espaços abertos ou amplos. Ele também irá experimentar um crescimento interior às mãos de Chihiro. Haku o misterioso rapaz que ajuda Chihiro logo no princípio também irá sofrer uma metamorfose e relembrar-se de quem é na verdade. As personagens despertam o seu crescimento e afirmam-se como seres em devir, começando assim a realizar o seu potencial.

Sou um grande apaixonado pela cultura oriental e este filme é para mim como um cristalizar de muitas ideias que tenho dessa cultura: toda a aura de nobreza de um povo, o respeito pelas tradições do fantástico e um elo entre o homem e a natureza, que mesmo para essa mesma cultura, hoje já não está tão intacto. Mas sobretudo gosto deste filme, porque fala sobre os receios de crescer, de ser adulto quando isso implica perder uma certa candura, um olhar apaixonado interessado pela vida. Chihiro prova que não tem que ser assim e que é possível mantermos viva a capacidade de sonhar e abraçar a transformação que é crescer. Todo o mundo descoberto pela protagonista é uma espécie de Terra do Nunca, e tal como a Wendy, também Chihiro voltará mais crescida graças às suas experiências. Esta articulação com a história de Barry não será porventura tão forte como com a obra de Charles Lutwidge Dodgson, Alice no país das Maravilhas. Mas também esta articulação é apenas um exercício que fiz em posteriores visionamentos, porque no primeiro deixei o encanto fluir e vivi as aventuras de Chihiro com a vontade de estar lá - algo que poucos filmes são capazes de me incutir.

Por isso para quem não viu, recomendo que entrem no túnel, em direcção à feira que parece abandonada. Irão encontrar um mundo vivo, repleto de fantásticas visões, mistérios e detalhes deliciosos. Para os que já lá estiveram nunca é demais voltar a visitar.

Veredicto: 5/5 ( Dragões)

Realizador: Hayao Miyazaki
Elenco:
Rumi Hiragi
Miyu Hirino
Mari Natsuki
Takashi Naito
Yasuko Sawaguchi
(Japão)

Daveigh Chase
Jason Marsden
Michael Chicklis
Lauren Holly
Suzanne Pleshette
David Ogden Stiers
(E.U.A)

Notas: Como recomendar apenas um filme de Miyazaki é dificil, gostaria de recomendar todos. Mas como sei que isso seria imprudente, deixo duas recomendações: O castelo andante ( Howl's moving castle) e Princesa Mononoke (Princess Mononoke) - este ultimo irá certamente receber um post neste blog num futuro próximo.

Monday, January 19, 2009

Contado ninguém acredita - Stranger than fiction



Tempus fugit versus Carpe diem

Harold Crick (Will Ferrell) é um auditor do IRS ( Internal Revenue Service) cuja vida é ditada por um conjunto de regras e rotinas destinadas a poupar tempo. Essas rotinas incluem: escovar os dentes 38 vezes para trás e para a frente, 38 vezes para cima e para baixo; usar um nó de gravata que lhe permite poupar 43 segundos ao fazê-lo; fazer uma média de 52 passos por quarteirão para apanhar o autocarro sempre à mesma hora. Harold é um homem de números e torna-se impossível não pensar, desde os primeiros minutos do filme, que a sua vida é vazia e que este homem mais se assemelha um autómato. De facto esta sinopse não pode despertar grande interesse, afinal de contas, um filme sobre um homem que trabalha para as finanças e que vive obcecado com a poupança do tempo não soa divertido ou empolgante.

Desde o início do filme ouvimos uma narração feminina a detalhar os passos de Harold no seu dia-a-dia, mas em pouco tempo Harold começa a ouvir essa voz também. A reação de Harold a essa voz omnisciente é um dos momentos de humor mais subtil que Will Ferrel nos apresenta, longe de um registo mais histriónico, que é sua imagem de marca. Um dia a narradora anuncia que Harold vai morrer, despoletando aí uma corrida contra o tempo: Harold terá que tentar descobrir a origem da voz e evitar o seu fim prematuro.

Harold vai descobrir com a ajuda de um professor de literatura, que ele é uma personagem num livro que está ainda a ser escrito. O professor, interpretado pelo sempre genial Dustin Hoffman, incumbe Harold de descobrir se a sua vida é uma comédia ou uma tragédia - num dos vários apontamentos literários que o filme inclui e que nos fazem relfectir sobre a literariedade da vida.
Há ainda tempo para o florescer de um romance entre Harold e Ana ( Maggie Gyllenhaal) uma padeira tão doce como aguerrida, a quem o primeiro vai fazer uma auditoria. E claro ficamos também a conhecer a narradora e escritora do livro no qual Harold é protagonista, Karen Eiffel (Emma Thompson).

Como comédia este filme é bastante low key, o seu tom é calmo, mas não chega a ser maçudo. Na verdade é facil ficar a gostar de Harold, um homem só, sem chama , mas que um dia desperta para a vida quando sente que poderá não ter muito mais para viver. Sem grande espalhafato vemos que nunca é tarde demais para perseguir pequenos sonhos, pequenas realizações mundanas, mas que fazem todo o sentido quando sentimos que o tempo está contra nós. Harold Crick deixa de querer poupar tempo e passa a querer vivê-lo. Não é um filme de gargalhadas amplas, mas antes de sorrisos ternos. A palete de cores é sóbria quando vemos a casa do protagonista, o seu escritório e as ruas da cidade, tudo parece estéril e impessoal; mas depois existe a pastelaria de Ana, um pequeno cantinho colorido e prazenteiro iluminado pelos olhos felinos e sorriso solarengo da padeira que coloca Harold no trilho do amor. A implementação de informação através de gráficos, para representar os comportamentos rotineiros e mecânicos de Harold, acrescentam mais ao tom estéril da sua vida no início do filme.

Para um fenómeno de articulação entre a narrativa escrita e a filmada, o filme dá-nos muito mais da segunda, mas é sem duvida eficaz em criar um certo mistério à volta da origem da voz e do desfecho que a história - e aqui esta palavra ganha um significado ainda maior - de Harold terá. As referências literárias tomam lugar maioritariamente nas interacções entre Harold e o professor Jules Hilbert nos momentos mais surrealistas do filme. Afinal de contas quantas conversas já tiveram baseadas neste pressuposto: a minha vida é um livro inacabado, mas quando este estiver terminado será literalmente o meu fim - reparem no uso da palavra literalmente.

Existem certos momentos do filme involvendo a escritora Karen Eiffel que destoam um pouco, pois são soturnos e crípticos. Tem a sua relevância para o enredo, mas acabam por estar de certa forma deslocados do tom contemplativo e até upbeat do resto do filme.
Claro que não podia deixar de fazer referência à premissa principal do filme em que o protagonista ouve a narração da sua própria vida. Todos nós podemos certamente narrar os nossos próprios passos, mas quão bizarro será ter alguém a fazê-lo por nós. Ainda para mais isso acontece a um homem cuja vida até esse ponto daria um livro menos interessante que a leitura das páginas amarelas. Esta articulação entre literatura e cinema acaba por ser esquecida em pontos do filme, à medida que a faceta humana de Harold vai despertando; esta é uma falha que não incomoda, porque na verdade este filme é sobre termos segundas oportunidades na vida e não sobre como nos comportarmos quando somos parte de uma obra de ficção.

Creio que é importante, mantermos a nossa suspensão da crença e entrarmos neste jogo sem procurar demasiadas respostas, para o porquê de existir uma pessoa que escreve e como consequência controla a vida de um estranho - isto afinal de contas uma comédia surreal onde as consequências são mais importantes que as causas. Importa sim descobrir ou relembrar que a vida tem muito para oferecer através de pequenos detalhes e pessoas extraordinárias. Este é também um filme sobre o crescimento e o enobrecer do espírito humano, mas contado de uma forma pautada. Ainda deixa espaço para reflectir sobre a influência da arte na vida e da influência do espírito humano na arte. Qual tem predominância? Nenhuma resposta é simples neste humilde filme que ainda tem espaço para dar protagonismo a um relógio.

Veredicto: 3.5/5 (autocarros)

Realizador: Marc Forster
Elenco:
Will Ferrel
Maggie Gyllenhaal
Dustin Hoffman
Emma Thompson
Queen Latifah
Tony Hale

Notas: para ver mais filmes deste realizador, que tem sido capaz de navegar por géneros díspares, aconselho: Á procura da Terra do Nunca ( Finding Neverland) e 007 Quantum of Solace.

Saturday, January 17, 2009

Uma sala escura cheia de luz



Entro na sala de cinema e sento-me. Normalmente nunca sou o primeiro a chegar, gosto da lotaria dos lugares não marcados. Gosto de ter que escolher um lugar, sabendo que a sala pode estar cheia e ter que ficar num canto, ou descobri-la vazia e sentar-me na fila central no lugar que mais me parece estar centrado com o ecrã.
Preparo o meu conforto da melhor maneira possível: tiro o casaco, desligo o som do telemóvel e começo a comer pipocas e nem os trailers começaram. Se estiver acompanhado a conversa não tem que ser sobre o filme que vai ser projectado, mas se for trocam-se expectativas, opiniões que já se conhecem ou informação trivial sobre o filme em questão.
Depois a sala começa a escurecer e assisto a alguma publicidade e trailers que servem para aguçar o apetite para outras vindas ao cinema. A apreciação dos trailers é um assunto que deixarei para outra altura, pois é mais longo que a duração dos mesmos.
Então o filme começa e a sala silencia. O som das pipocas a serem mastigadas não é um estorvo, mas uma adição sonora que nos suga ainda mais, para um momento em que deixamos a nossa realidade por algum tempo.
Sigo o desenrolar da acção na tela, vejo a luz do projector sob a minha cabeça, observo a expressão de quem está ao meu lado, deixo-me levar pelas imagens, palavras, sons que vem do ecrã luminoso que preenche toda a sala deixando apenas uma moldura de escuridão.
Não estou sozinho no cinema. Ver um filme é simultaneamente uma experiência pessoal e colectiva; por um lado o filme cria em mim um conjunto de emoções e sensações irrepetíveis e únicas, mas por outro existe uma comunhão de experiências: quando o vilão se aproxima do herói ferido para o matar, toda a audiência fica suspensa esperando que o vilão seja mal sucedido; quando Harry e a Sally ficam juntos no fim do filme, há uma aura colectiva de satisfação; quando uma insuspeita vítima está prestes a ser atacada pelo Freddy Krueger, a sala fica em antecipação num misto de horror e ansiedade. E que dizer da gargalhada comum, partilhada por uma vasta audiência face aos disastres de um Jim Carrey, Ben Stiller ou Borat? Ou do terno encanto de um Jack Skellington a cantar pelas ruas de Halloween town? Partilho estes sentimentos com pessoas que não conheço, mas durante a duração do filme estamos a viver uma experiência conjunta.
No fim rolam os créditos finais e as luzes acendem-se. Quando estou só gosto de ficar até ao fim dos créditos e reflectir um pouco sobre o filme. Umas vezes gosto, outras gosto menos, mas quando saio da sala de cinema estou um pouco mais enriquecido. O pacote de pipocas já está vazio tal como a sala. Para a semana há mais com a garantia que será diferente, mas sempre com a possibilidade de ser sublime.