Thursday, May 28, 2009

Vingança Planeada - Chinjeolhan geumjassi



Pura como neve


Uma procissão musical cristã toma lugar à porta de uma prisão, em honra de Lee Geum-Ja (Lee Young Ae) uma recém libertada e reformada prisioneira, sentenciada pelo homícidio de uma cirança chamada Won Mo. O caso, atraiu a atenção da nação devido à sua aparência jovem e inocente e condenou-a a uma longa sentença, senteça essa que foi encurtada devido à sua aparente transformação pessoal na prisão. No então mal abandona o cárcere, Geum-Ja ignora a procissão em sua honra e parte imediatamente com o intuito de se vingar.

Lee Geum-Ja, não cometeu o homícidio de que foi acusada. O verdadeiro assassíno, Mr. Baek (Choi Min-Sik) forçou-a a confessar pelo crime ou a filha recém nascida de Geum-Ja seria morta.
Na prisão vemos Geum-Ja a fazer um grande número de amizades: doa um rim a uma companheira de cela, toma conta de outras e assassina uma prisioneira que agradia e violava outras mulheres. O seu comportamento maternal granjeia-lhe a alcunha de "Sra. com um coração de ouro".

Fora do cárcere Geum-Ja começa rapidamente a largar essa fachada de simpatia e adopta simbolos que reforçam essa transformação como usar sombra para os olhos vermelho-vivo e sapatos de tacão provocadores. A sua sede de vingança manifesta-se através de sonhos recorrentes nos quais ela mata Mr. Baek.

Fora da prisão somos testemunhas do minucioso plano que Geum-Ja coloca em acção. A sua eficácia, meticulosidade, calma e descernimento fazem dela um ser frio e distante cujo o único objectivo é a vingança. A transformação de jovem inocente, para mulher amarga, mudada por circunstancias que não pode evitar, fazem de Geum-Ja o protótipo da anti-heroína: aqui está uma mulher que não conhece limites para atingir os fins. Como espectadores escolhemos antecipar o climax da sua vingança e crer que é justificada, ou aguardamos que uma cadeia irrevogável de acontecimentos a impeça de extrair a sua vingança? Que moralidade estará ausente aqui?

A transformação da protagonista conhecerá outro nível quando a sua filha reentrar na sua vida. Será que é tarde para esta mulher perdida voltar a encontrar o seu papel como mãe? A sua filha estava a viver com pais adoptivos Australianos e não fala Coreano. A intimidade entre mãe e filha atinge-se para lá das palavras.

Este é um filme sobre vingança, o terceiro na chamada "Trilogia da Vingança" do realizador Park Chan-wook e mais uma vez este realizador aborda esta temática de forma inesperada. Falei de moralidade e falei de antecipar o climax do filme. Revelar o terceiro acto seria estragar a experiência, mas dizer que a reflexão que cria sobre conceitos como a perda, a validade de quem quer vingança, é apenas despertar a curiosidade.

De facto este filme não se limita a apresentar-nos o vilão destorcido e a justiça que deve ou não ser-lhe aplicada; não apresenta na realidade o vilão como o único potencial monstro, pois coloca as coisas noutra perspectiva: um ser humano toldado pela injustiça da perda, é capaz das mais atrozes acções, capaz de suspender a sua humanidade para pagar na mesma moeda a quem lhe causou dor.

Este filme levanta estes temas e não nos apresenta um final fácil, mas consgue terminar com uma sensação de resolução. Dado os temas e acontecimentos que aqui vemos, parece-me algo difícil de fazer, mas que é bem sucedido. Para pensar sobre as implicações e sobre o que significa a vingança.

Veredicto: 4/5 (Cubos de tofu)

Realizador:
Park Chan-wook
Elenco:
Lee Young-Ae
Choi Min-Sik

Notas: Aconselho os dois restantes filmes desta "trilogia da vingança": "Simpathy for Mr. Vengeance" e "Oldboy-velho amigo"do qual já falei neste blogue.

Sunday, May 24, 2009

Irreversível - Irreversible



O tempo destrói tudo


Estamos na presença de um filme violento, um filme sem restrições, um filme que algumas pessoas irão considerar impossível de ver. "Irreversível" contêm uma cena na qual uma mulher é violada e agredida selvaticamente durante alguns, intermináveis, penosos minutos. A câmara permanece estática, nunca se desviando da hedionda cena. Outro momento já infame deste filme, consiste no brutal assassinato de um homem, com um extintor que é repetidamente, ad nauseam, arremessado à sua cara. Mais uma vez a câmara permanece focada nesse acto animalesco, obrigando-nos a desviar o olhar se não aguentarmos o que vemos.

Que haja muita gente que não viu o filme, mas conhece a sua fama, é normal e de facto a intensidade das cenas que referi não são para os de fraca disposição. Esta obra figurou em vários noticiários devido ao elevado número de pessoas que abandonavam a sua exibição nas salas de cinema. Contudo não considero que este filme seja sensacionalista ou pornográfico.

Tal como "Memento" de Christopher Nolan, este é um filme cuja estrutura cronológica está invertida. Contudo se assim não fosse em vez de abrir com a tenebrosa cena de agressão com o extintor, seriamos convidados a observar a intimidade de um casal muito apaixonado. Eles são Alex (Monica Bellucci) e Marcus (Vincent Cassel). Seguiríamos a sua vivência num dia em que decidiram ir a uma festa em casa de uns amigos. Pelo caminho reúnem-se com Pierre (Albert Dupontel), melhor amigo de Marcus e outrora amante de Alex.

Na festa Alex, vestida de forma sensual é claramente uma fonte de luxúria para os homens que a rodeiam. Seguidamente Alex ausenta-se da festa e caminha por um túnel para fazer um pequeno recado. Aí encontra um chulo chamado Le Tenia (Joe Prestia) que a viola e agride sem misericórdia.

Após esta tragédia seguimos Marcus e Pierre que vagueiam à procura do violador. Acabam por entrar num clube S.M. onde encontram um homem que julgam ser Le Tenia e um deles mata-o com uma fúria descontrolada.

Consideremos agora como o filme começa - com este brutal homicídio - e como termina - com cenas de ternura entre o casal. Com esta abordagem, o inverter dos acontecimentos altera a nossa percepção das cenas e metamorfoseia o impacto que tem em nós. Num plano cronológico normal, presenciaríamos uma descida gradual aos infernos, em que o sexo e a violência agem como uma "recompensa" chocante e sensacionalista - isso é algo que a pornografia faz. Aqui o pior é desde logo apresentado e depois voltamos atrás para observarmos vidas que serão para sempre alteradas.

Desta forma reconsideramos o que vimos nas cenas em que o casal está junto e em harmonia; reconsideramos os subtis sinais de perigo que levam à tragédia; consideramos que saber o futuro não é uma bênção, mas sim uma maldição - nós vemos o futuro e depois observamos o que ocorre antes. Sabendo como tudo acaba, qual o impacto das cenas de felicidade e paz que nos são apresentadas antes da violação? O filme relembra-nos que a nossa vida seria impossível de viver sem a inocência da nossa ignorância.

Ao colocar estas questões este filme apresenta profundidade, leva-nos a reflectir na fragilidade da nossa felicidade. Que as cenas de homicídio e violação nos sejam apresentadas no início obriga-nos a lhes "sobreviver" para que permaneçamos a ver o filme a pensar sobre todas as repercussões. Desta forma o filme não só é contra a violação como é, a nível estrutural, moral.

A ironia reside no facto de todo o conflicto emocional que este filme trasnmite, nos atingir antes e depois das famigeradas cenas que tanta polémica causaram -porque o impacto das mesmas é mais visceral que emocional.

Além disso este filme apresenta-nos uma caracterização feminina muito progressiva. Alex é uma mulher sensual, mas não é um mero troféu ou objecto de desejo. Ela é inteligente, independente, forte e lutadora. Quando é capturada por Le Tenia, observamo-la a utilizar todas as suas forças para lhe resistir, fugir e não se deixar subjugar.

Concluo enfatizando que este é um filme que nem toda a gente quererá ver, pois apresenta muita crueldade. Contudo este filme é contra o crime de violação e a pornografia advoga a favor aquilo que mostra. "Irreversible" não é um filme pornográfico. E no meio de tanta negrura ainda há frinchas que permitem perscrutar os locais de harmonia e beleza do espírito humano. Que isso sirva para nos fazer questionar o que vimos e lamentar a tragédia que se desenrola é uma prova da força e integridade deste filme.

Veredicto: 4.5/5 (Sinfonias nº7)

Realizador:
Gaspar Nóel
Elenco:
Monica Bellucci
Vincent Cassel
Albert Dupontel
Joe Prestia

Notas: Outros filmes que empregam a técnica da inversão cronológica e que recomendo: o supracitado "Memento" de Christopher Nolan e "Betrayal"de David Jones com Jeremy Irons e Ben Kingsley.

Monday, May 18, 2009

Os piratas dos mares da China - Project A




Um hino ao humor físico


Hong Kong 1900. Piratas ardilosos tem saqueados navios meses a fio, iludindo a polícia marítima e a força policial de Hong Kong. Claro que o facto de estes dois departamentos manterem uma acesa rivalidade - que culmina num visualmente deliciosa e caótica briga de bar - não ajuda na captura dos infames piratas. Dragon Ma (Jackie Chan) é um oficial da polícia marítima, que se vê obrigado a treinar sob a tutela da polícia de Hong Kong, numa tentativa de reunir esforços e capturar o líder dos piratas San-Po (Dick Wei).

Dragon Ma terá não só que tentar pôr cobro aos raids piratas, como também unir as forças policiais num esforço comum e combater a corrupção que existe no seio de ambas. Este é o resumo do enredo, mas honestamente nunca vi um filme do Jackie Chan pelo enredo e este não é excepção.

Os filmes de Chan não possuem enredos elaborados, nem são lembrados pela carga dramática que as cenas ou os actores transmitem. No entanto também não são essas as razões pelas quais eu vejo um filme deste talentoso actor. Sim talentoso, não na senda de um Nicholson, um De Niro ou Pacino, mas sim de um Buster Keaton ou Charlie Chaplin. Ou seja a capacidade de nos entreter com um humor físico extremamente expressivo, coreografado com um sentido de timing cómico sem mácula. Jackie Chan não é o sucessor de Bruce Lee nem pretende se-lo. Ele emprega as suas proezas físicas em situações de combate que tem um efeito visual cómico, mas também algo sério: não nos esquecemos que tudo é coregrafado, mas também não é possível não admirar a técnica e o timing com que tudo é executado. Além do mais é do conhecimento geral - através dos out takes que povoam os créditos finais de quase todos os seus filmes - que Jackie não usa duplos e arrisca imenso em algumas cenas de perigo real.

Neste filme existem cenas de grande escala, desde uma caótica briga num bar, passando, por uma perseguição nos telhados, até uma genial e extremamente cómica perseguição de bicicletas que só podia sair da mente de Jackie Chan. A presença de grandes estrelas do cinema de artes marciais como Sammo Hung e Yuen Biao asseguram que não é só Jackie que é capaz de nos impressionar com os seus feitos.

Em suma este filme é um entretenimento garantido, porque não é só um filme de acção e artes marciais; tem também momentos cómicos bem construídos, em que o humor situacional e físico imperam. É inegável a qualidade das coreografias de combate, assim como toda a reconstituição histórica que presenciamos - a nível de cenários e guarda roupa.

Num altura bem anterior á americanização de Chan, este é um dos seus melhores filmes dentro do género da comédia de acção.

Veredicto: 3.5/5 (Espingardas)

Realizador:
Jackie Chan
Elenco:
Jackie Chan
Sammo Hung
Yuen Biao
Dick Wei
Lee Hoi San

Notas: Aconselho também da filmografia de Chan a sequela deste filme, entitulada "Jackie Chan é o herói - Project A part II".

Thursday, May 14, 2009

Cães Danados - Reservoir Dogs



Vilões coloridos

Quentin Tarantino é conhecido pelo seu amor pelo cinema, pela forma apaixonada, quase pueril com que se refere aos seus filmes favoritos, quer os tenha realizado ou não. Particular aficionado dos filmes séries B e de exploitation, sempre fez questão, contudo, de reverenciar - e referenciar - vários géneros cinematográficos. Nesta sua primeira obra Tarantino evoca principalmente a estética do filme noir e do heist movie - este ultimo com uma certa variação.

"Cães Danados" conta uma história simples: cinco desconhecidos são contratados para assalatar uma joalharia. Nenhum se conhecia antes de serem contratados e para manterem o seu anonimato, cada um tem o seu nome substituído por uma cor: Mr. Blonde (Michael Madsen), Mr. Blue (Eddie Bunker), Mr. Brown (Quentin Tarantino), Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Pink (Steve Buscemi) e Mr. White (Harvey Keitel). Esta galeria de personagens coloridas tomará o centro da acção, quer física, quer falada. Afinal de contas este é um filme de Quentin Tarantino, pelo que além da violência gráfica, acção minuciosamente coreografada, numerosas referências à cultura popular, não podiam faltar os diálogos rápidos, incisivos, mordazes e auto-referenciais - a marca por excelência deste realizador.

Tal como no seminal "Pulp Fiction", a progressão narrativa é não-linear, transmitindo uma sensação de caos e adrenalina, tal como os eventos que ocorrem no filme. Referi que Tarantino evoca os heist movies - filmes de golpe/assalto -, mas numa interessante reviravolta apenas nos são mostrados os acontecimentos que antecendem e que precedem o assalto à joalharia. Com esta opção ficamos a saber o que aconteceu pela boca dos assaltantes e tendo em conta que surgem versões diferentes dos acontecimentos a situação fica extremamente tensa e misteriosa. A omissão do assalto coloca toda a atenção nas atitudes dos protagonistas, obrigando-nos a estudar as suas reações a procurar respostas. Contudo este mistério não é a parte central do filme. Esta obra gira à volta de homens duros e da forma como se relacionam em alturas conflicto - um conflicto que explode entre eles, quando o assalto corre de forma não planeada.

Estamos perante um cocktail de diálogos espirituosos, acção, música dos anos setenta, violência e homens que tentam ser grandiosos na sua maldade e frieza; falo da pose dos vilões dos filmes noir, traiçoeiros rudes - e aqui bastantes malcriados, porque a profanidade também é uma das marcas de Tarantino.
Sem dúvida que as personagens caminham as linhas do estereótipo dos vilões cool, mas isso é algo que não foi inventado por Tarantino, ele apenas se limita a reavivar essa imagem.

Para uma primeira obra sem dúvida que considero este filme de grande qualidade, ainda que perca em comparação com os filmes seguintes do realizador. Contudo a maior parte dos temas que lhe apraz abordar surgem já aqui na sua grande maioria. Um filme para fãs e para todos os outros que gostam quando a arte é auto-referêncial.

Veredicto: 3.5/5 (Orelhas)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
Harvey Keitel
Tim Roth
Steve Buscemi
Chris Penn
Michael Madsen
Lawrence Tierney

Notas: Deste realizador aconselho outro filme sobre uma golpada "Jackie Brown". Ou num registo diferente "Inglourious Basterds" cuja estreia no grande ecrã está próxima.