Tuesday, March 30, 2010

Rec


Chegou a vez dos zombies espanhóis


Primeiro aconteceu em 1968: George A. Romero soltou no mundo insuspeito a primeira praga zombie com o importantíssimo "The night of the living dead". Estava criado um subgénero que viria a ser definitivamente cimentado na sétima arte e na cultura popular com a sequela "Dawn of the dead" na qual Romero se superou em quase toda a linha. O filme de zombies tornou-se rapidamente um visitador frequente nos cinemas mundiais. Não só Romero o revisitou inúmeras vezes - sua "Dead series" já vai em cinco filmes - como rapidamente despoletou uma onda de imitadores - o natural movimento de quem quer fazer dinheiro à custa de uma ideia que faz sucesso - e posteriormente de inovadores.

A praga dos mortos-vivos já foi retratada em várias cinematografias para além da Norte Americana: Nova-Zelândia (Brain dead), Japão (Versus), China (Bio-zombie), Inglaterra (28 days later), França (La horde) e Portugal (I'll see you in my dreams), entre muitos outros exemplos. Espanha não é obviamente excepção e apesar de Rec não ser o primeiro filme de zombies espanhol, é na minha opinião o melhor e surgiu numa fase em que o terror made in spain começou a ser um género prolífero e exportável - nomeadamente para Hollywood.

Rec é um filme de terror que bebe influência de vários filmes, nomeadamente de "Blair Witch Project" e de "28 days later". Do primeiro retira o estilo shakky camera, no qual o acção é veiculada através de uma câmera portátil manuseada por um dos protagonistas da acção - pelo menos de acordo com a coerência interna do filme, ou seja é também um dispositivo narrativo - do segundo aproveita e adapta o conceito de zombie que surgiu nesse filme: ao contrário dos zombies lentos que se tornam perigosos em grande número, uma "patente" eternizada nos filme de Romero, os zombies de Rec e "28 days later" são rápidos e agressivos - diria raivosos.

A premissa de Rec é rapidamente estabelecida desde início: uma reportagem sobre uma equipa de bombeiros de Barcelona torna-se num pesadelo quando uma chamada para retirar uma mulher presa num apartamento corre muito mal, muito depressa. O camera men Pablo (Javier Botet) e a apresentadora da reportagem Angela Vidal (Manuela Velasco) são os protagonistas, já que vemos a acção através da câmara de Pablo e observámos sempre em primeira mão as reacções - que vão do espanto ao absoluto terror - de Angela.

Rapidamente chegados ao apartamento os bombeiros verificam que a inquilina presa em casa está fora de si - raivosa diria eu - e ataca um dos bombeiros. A situação fica descontrolada, as autoridades vedam o edifício deixando Angela, Pablo e todos aqueles que ainda não se tornaram em ferozes canibais, à mercê de...ferozes canibais.

Em todos os filmes de zombies a génese da zombificação é alvo de uma de duas abordagens: ou o enredo a explica - atribuir a causa a radiação ou a um vírus são as explicações clássicas - ou a causa é um mistério. No primeiro caso a explicação do que causa ou espalha a condição que torna humanos em cadáveres ambulantes torna-se um dispositivo de avanço da acção, no segundo a falta de explicação foca a narrativa na sobrevivência a todo o custo. "Rec" propõem uma explicação que simultaneamente inova, mas que também remete para as origens históricas da zombificação - e mais não digo para não estragar o filme a quem ainda não viu. Tendo explicado esta parte é de salientar que este filme não vive do enredo. Este filme vive da exposição de duas das pulsões mais primárias do ser humano: a violência sem amarras e o medo da escuridão. A violência é explosiva e sufocante, ampliada por uma câmara que mostra tanto quanto esconde, o seu ângulo limitado criando ilusões que se tornam reais quando da escuridão irrompem seres que querem por fim à vida dos protagonistas.

Filmar a acção na perspectiva da primeira pessoa não é um truque barato. Somos convidados a ser Pablo o camera men, a partilhar os seus medos, a tentar recuperar o fôlego como ele o faz, a tentar ser corajosos e não desviar o olhar.

"Rec" é rápido, sangrento e eficaz a criar uma atmosfera tensa e que nos deixa a sentir que andamos numa montanha russa: podemos fechar os olhos, mas a escuridão também assusta, talvez mais do que aquilo que podemos ver.

George A . Romero é o pai dos filmes de zombies, conseguiu fundir nos seus filmes o gore e o comentário político e social em todos os seus filmes. Aqui não há tais preocupações a nível de temas, mas o cinema também desperta os sentimentos mais inatos em nós, experimentar o horrível no conforto do cinema. Aqui tudo isso é conseguido.

Veredicto: 4/5 (crianças assustadoras)

Realizador:
Jame Balagueró e Paco Plaza
Elenco:
Manuela Velasco
Javier Botet
Manuel Bronchud
Martha Carbonell
Claudia Font
Vicent Gil

Notas: toda a saga de George A. Romero merece menção, particularmente os dois primeiros filmes. Para uma homenagem cómica e sentida recomendo "Shaun of the dead". "28 days later" e "Dead Snow" são bons exemplos de filmes não americanos de zombies.

2 comments:

  1. Dear André Icarus:)

    Estou esclarecidíssima acerca da natureza deste filme, que desconhecia. Melhor do que ver qualquer trailer.
    Have a question: Achas que este tipo de filme tem a ganhar (no sentido de ser mais eficaz), no campo do terror, relativamente aos mais convencionais? Pergunto por causa desta ideia:

    "Este filme vive da exposição de duas das pulsões mais primárias do ser humano: a violência sem amarras e o medo da escuridão. A violência é explosiva e sufocante, ampliada por uma câmara que mostra tanto quanto esconde, o seu ângulo limitado criando ilusões que se tornam reais quando da escuridão irrompem seres que querem por fim à vida dos protagonistas."
    E também por fazeres referência ao facto de ser filmado na 1ª pessoa.

    Very well :)

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  2. Dear Sónia

    Creio que a força maior deste filme é a forma como foi editado: cenas rápidas, movidas pelo movimento frenético da câmara que nunca deixa de nos mostrar a acção, nem cansa - talvez a maior armadilha dos filmes em que se usa a shaky cam. Neste aspecto foge ao cliché dos filmes mais convencionais que usam o modelo gasto dos vinte minutos iniciais de exposição - com personagens planas e desinteressantes - seguido de um crescendo de tensão sempre com sustos fáceis, mas num ritmo pausado. "Rec" tem um ritmo alto de acção que aliado ao facto de ser filmado na primeira pessoa aumenta a nossa imersão. Esta combinação supera o tradicional filme de terror zombie a que estamos habituados. Tal foi o impacto deste filme, que o mestre do género George A. Romero lançou um filme, "Diary of the Dead" que recorre ao uso da shaky cam.
    Obrigado pela visita que muito enriquece este espaço.

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