Monday, April 27, 2009

Este país não é para velhos - No country for old men





A morte tem um rosto


Este filme abre com a narração do sheriff Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), sobre como o crime está a aumentar naquela região desolada do Texas, em 1980. O seu tom está repleto de desalento, a voz de um homem que sabe que os tempos mudaram e que se tornou obsoleto perante essa mudança. Este monólogo de abertura corre o risco de se tornar um daqueles discursos icónicos da sétima arte.

Somos depois apresentados a Llewelyn Moss (Josh Brolin) um soldador, que enquanto caçava perto do Rio Grande descobre uma cena de massacre: vários carros abandonados, cadáveres por toda a parte e grandes quantidades de heroína. Claramente um negócio de droga que teve um desfecho trágico. Llewelyn descobre o homem que fugira com o dinheiro e decide guardar a avultada soma para sim - a calma com que ele faz tudo isso é digna de uma análise da personagem por si só. Ao fazê-lo vai despoletar uma cadeia de acontecimentos trágicos.

Llewelyn torna-se o alvo de Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino contratado para recuperar o dinheiro. Chigurh é um sociopata existencialista com um hábito de fazer perguntas filosóficas às suas vitímas. A sua busca pelo dinheiro é implacável e a sua habilidade para aparecer sempre perto do Llewelyn, quase sobrenatural. O seu desempenho no assassínio de todos os que se lhe opõem e até daqueles que não lhe oferecem qualquer resistência é infalível. Se lhe tirassemos o corte de cabelo ridículo, colocassemos uns óculos escuros e o despissemos de personalidade, estaríamos na presença do Exterminador Implacável. Contudo a sua personalidade e diálogos fantásticos e hipnotizantes tornam-no algo infinitamente superior a uma caricatura ou algo cómico. Sempre que Anton está em cena a tensão é palpável ,para as suas vítimas e para nós. Sem dúvida um dos grandes vilões da história do cinema.

O filme é uma espécie de western moderno, onde três personagens estão envolvidas numa perseguição sem tréguas. O sheriff tentar trazer Llewelyn para a segurança, mas este mostra-se irredutível em manter o dinheiro; Chigurh é uma força imparável e amoral que parece estar sempre um passo atrás; e Llewelyn não compreende que a situação na qual se colocou o transcende. O filme tem momentos de acção e tensão, ma so seu ritmo é contemplativo. Os diálogos são as força motriz do filme, com a sua simplicidade e genialidade desarmante. As cenas passadas em pleno deserto tem uma componente etérea belíssima.

Este é um filme que captiva pelas interpetações, diálogos e momentos marcantes. O seu ritmo é calmo, quase diria que é um Western zen. No fim levanta questões que importam discutir sobre a vida, a morte, a era moderna e os "bons velhos tempos", pois este é também um filme sobre uma América que já não existe, uma América que perdia ali, no início dos anos 80 o que restava da sua "inocência".

Veredicto: 4/5 (armas de gado)

Realizador:
Joel e Ethan Coen
Elenco:
Josh Brolin
Javier Bardem
Tommy Lee Jones
Woody Harrelson
Kelly Macdonald

Notas: Dos mesmos realizadores aconselho "Blood Simple", "Fargo", ambos filmes sobre as consequências desastrosas de planos que correm mal. Num tom mais ligeiro - bem mais de facto - "Destruir depois de ler".

O Cavaleiro das Trevas - The Dark Knight




O que significa ser um herói?


Gotham City é uma super metrópole decadente. Um local cheio de edifícios imponentes, sumptuosos, que contrastam com as ruas decrepitas e inseguras. A criminalidade é rampante e a polícia corrupta e inepta para a combater. Batman (Christian Bale) continua a ser um vigilante temido por uns, amado por outros, que se mantêm à margem da lei no seu combate ao crime. Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) continua activamente a combater o crime na barra do tribunal, agora com o seu namorado, o procurador Harvey Dent (Aaron Eckhart) como aliado. A máfia que controla a maioria do crime organizado na cidade continua a tentar eliminar Batman. Não mudou muita coisa desde o fim do primeiro filme. Isto é até surgir um novo tipo de ameaça.

O início do filme é electrizante: o assalto a um banco onde a máfia guarda o seu dinheiro, durante o qual os seus perpretores vão se eliminando um a um, supostamente a mando do cabecilha, para que não haja pontas soltas. Este começo intrigante e recheado de acção serve para nos apresentar desde logo a personagem do Joker (Heath Ledger) e para que saibamos que estamos na presença de um vilão extraordináriamente ardiloso e impiedoso. A segunda aparição do Joker servirá para que compreendamos que, de cada vez que ele surge em cena, não sabemos o que esperar, mas somos sugados pelo seu magnetismo, pela sua presença esmagadora.

Os temas principais desta sequela, do já bastante bom "Batman: O início", é: quanto tempo será Batman capaz combater a injustiça, antes de ceder à tentação de fazer justiça pelas suas próprias mãos; onde acaba a justiça e começa a vingança? O herói, ou anti-herói, dependendo da visão de cada um, começa a sentir-se assoberbado pela quantidade de injustiças e ignonímias que são perpretadas e ficam impunes face à lei. Será ele capaz de manter o seu código moral face a vilões que não possuem tal coisa e até usam isso contra Batman? Além do mais este novo adversário, este Joker é capaz de criar os mais dificeis dilemas, as mais dificeis escolhas que colocam o herói numa situação em que qualquer escolha implica uma pesada derrota.

Este é sem dúvida o filme de super-heróis que atravessa a linha do simples entretenimento e passa para territórios de elevado drama. As personagens são complexas, assim como as suas relações. As situações e os dilemas morais e pessoais apresentados são complexos e desafiantes.
Retirem a máscara a Batman e a maquiagem ao joker e estamos na presença de um filme policial de contornos operáticos. Mas sendo este ainda um filme de acção, não faltam momentos de grande espectacularidade, mas sem dúvida que o entretenimento jaz na interação das personagens e nas suas relações.

Este filme ficará para sempre marcado pelo desempenho do falecido e postumamente oscarizado Heath Ledger. Muito já foi dito sobre o seu desempenho de um joker que surge como um elemento causador de instabilidade e destruição; o caos personificado que não tem origem, apenas a finalidade de criar a desordem. Num filme com um elenco tão prestigiado, que o vilão seja a personagem que mais interesse provoca, não é minorizar as restantes, pois são todas soberbas, mas sim apontar a qualidade deste Joker que já se tornou um ícone cinematográfico.

Este Cavaleiro das Trevas é um dos filmes mais importantes do seu género e que não tenho dúvidas que ficará na história do cinema. As implicações que são lançadas aqui sobre o caminho que Batman terá que seguir, face aos acontecimentos que enfrentou, prometem uma sequela ambiciosa, mas que terá uma tarefa árdua de superar este grande filme.
Veredicto: 5/5 (Lápis que desaparecem)

Realizador:
Cristopher Nolan
Elenco:
Christian Bale
Heath Ledger
Maggie Gyllenhaal
Aaron Eckhart
Gary Oldman
Morgan Freeman
Michael Caine

Notas: Do mesmo realizador aconselho o enigmático "Memento" e o filme que antecede este "Cavaleiro das Trevas", "Batman : O início".

Friday, April 17, 2009

Blade Runner Perigo Iminente - Blade Runner




Da humanidade

L.A. 2019 . Uma paisagem repleta de edifícios gigantescos e imponentes, sobrevoada por veículos híbridos que parecem ter partes de nave e de carro e iluminada por painéis publicitários enormes. No entanto isto é apenas o céu, apenas a guarida de todos aqueles que tem dinheiro para viver nestes luxuosos colossos de metal, vidro e betão. Aqui vivem os magnatas, a elite de um mundo em que mega empresas controlam tudo. Nas ruas no nível térreo a realidade é bem mais caótica. As ruas estão sobrepovoadas, toda a gente tenta subsistir em todo o tipo de actividades legais ou ilegais, muitos neons, muitos prédios degradados, pobreza, criminalidade, ruas cheias de fumo, ruído e movimento. É neste ruas que se movimenta Rick Deckard (Harrison Ford), um Blade Runner que é forçado a sair da reforma para caçar replicants.

Um replicant é um ser humanóide artificialmente criado. Exteriormente são exactamente iguais aos humanos, sendo apenas passíveis de serem identificados através de um teste de empatia. Após uma revolta iniciada pelos replicants, a sua existência na Terra foi banida. Contudo quatro replicants fugiram de uma colónia no espaço e estão de momento a monte em L.A. Estes replicants foram construídos com um mecanismo que lhes permite viver apenas quatro anos, para que não desenvolvam memórias e se tornem demasiado humanos.
A missão de um Blade Runner é eliminar replicants. O instinto de um replicant é sobreviver a todo o custo a um Blade Runner...a todo o custo.

Acompanhamos Rick na sua deambulação pelas ruas decadentes desta metrópole (retro)futurista, ruas fumarentas, nas quais o protagonista erra como um detective saído de um noir. Deckard tem de facto um instinto apurado, mas de facto parece algo despistado nos seus confrontos com os replicants. A questão de como um humano sozinho pode ser um oponente contra os replicants, que são fisicamente mais fortes, surge muitas vezes no filme; mas dado que a questão da identidade e do que significa de facto ser humano povoa todo o filme, considero que isso é apenas mais uma parte do puzzle.

No iníco do filme Deckard conhece Rachael (Sean Young), uma assistente de Tyrell, o dono de uma das mais poderosas empresas do mundo e criador dos replicants. Rachael é uma replicant experimental que julga ser humana. As memórias que possui pertencem à sobrinha do seu patrão. Deckard sabe que Rachael não é humana, mas cedo um romance se desenvolve entre ambos.

Na sua procura pelos replicants foragidos Deckard mostra-se insensível à possibilidade de estes seres poderem ser mais que meras "criações", contudo envolve-se com uma. A natureza desta relação é ambígua e cada um poderá retirar uma leitura diferente: será que é uma relação puramente física, ou existe um verdadeiro sentimento de ambas as partes? Mas poderá um ser artificial sentir o amor? E Deckard? Será realmente humano? Como é possível que ele sobreviva constantemente a encontros mortais com os replicants e sobreviva? Sorte ou algo mais? Como disse a questão da identidade e do que implica a humanidade é algo que está sempre presente neste filme.

Mas e que dizer dos replicants? Principalmente do seu líder, Roy Batty (Rutger Hauer) um modelo de combate, alto, forte, loiro, ariano? Roy parece alternar entre um psicopata destemido e uma criança grande. No seu combate final contra Deckard, Roy demonstrará que a compaixão não é um valor exclusivamente humano. E o seu monólogo final coloca em perspectiva a questão da memória, da brevidade de toda a vida e experiência humana. A companheira de Roy, Pris (Daryl Hannah) é um modelo de prazer que também age como uma criança, mas quando é provocada torna-se mortal. Enquanto se escondem daqueles que os caçam, este replicants vivem num mundo quase de sonho, com um humano que cria brinquedos.

Estes replicants temem a morte, eles estão cientes que são finitos, que a sua existência é ainda mais breve que a dos humanos. Eles choram a morte um dos outros. Eles querem saber porque foram criados e se existem algum propósito ulterior á sua criação. Querem saber porque não lhes é permitido exceder as suas limitações impostas. É dificil não nos questionarmos onde jaz a humanidade nesta história e como consequência no mundo real. Quando um ser artificial é capaz de demonstrar mais compaixão que um humano, coloca-se a questão: a humanidade é um estado etéreo que transcende a componente biológica, física? Afinal o que é que nos torna realmente humanos? A capacidade de sentirmos empatia e compaixão, ou é tudo uma questão de estatuto biológico?

Que um filme seja capaz de levantar estas questões e muitas outras é por si só um feito notável. E sendo verdade que as respostas ficam para que nós as encontremos e os significados ocultos para que nós os decifremos, considero que este filme é um excelente ponto de partida para outros debates.

E este é um filme que suscita muito debate, devido á existência de várias versões, com finais diferentes que podem alterar a forma como interpretamos sequências chave. A edição a que este texto se refere é o Director's cut.

Veredicto: 3.5/5 (unicórnios de origami)

Realizador:
Ridley Scott
Elenco:
Harrison Ford
Sean Young
Daryl Hannah
Rutger Hauer
Edward James Olmos

Notas: filmes que abordam as relações complexas entre humanos e seres artificiais e que tal como este foram baseados emk romances de Philip K. Dick e que recomendo : "I.A - Inteligência artificial" e "I Robot".

Tuesday, April 14, 2009

Persepolis




O sinal mais famoso do Médio Oriente

Num aeroporto, uma jovem mulher, Marjane Satrapi é impedida de entrar num avião para o Irão. Sentada e a fumar um cigarro ela começa a relembrar a sua infância em 1979, como uma criança de 10 anos com sonhos de ser uma profeta e imitadora de Bruce Lee. Nessa altura o Chá do Irão, apoiado pelos E.U.A é extremamente impopular e a família de Marjane tenta apoiar a sua demoção na esperança de criar uma sociedade mais justa.

Contudo as eleições que se seguem são ganhas por Fundamentalistas Islãmicos e apartir daí a vida de Marjane vai conhecer uma profunda reviravolta, à medida que o governo no poder vai criando um estado repressivo: as mulheres tem que tapar a cabeça, não podem sair sozinhas à rua pois são assediadas pelos militares e outros homens, dissidentes são capturados e executados e qualquer desacordo com o regime pode causar sérios problemas.

Contudo a jovem Marjane é rebelde e livre de espírito. Face a códigos tão rígidos ela assume uma postura de desafio: usa t-shirts de bandas de metal na rua, houve música rock e protesta contra as mentiras que lhe ensinam na escola. Os seus pais também organizam festas secretas para gozarem os pequenos prazeres que o governo proíbiu, como o alcool.

Só que esta conduta rebelde coloca Marjane e a sua familía em perigo, pelo que decidem envia-la para a Europa para estudar e viver de forma livre. Na Austria, vai sentir-se terrivelmente isolada, numa sociedade que não valoriza as liberdades que possui, mas que gosta de as exibir. Aí alojada numa casa de freiras, Marjane vai continuar a demonstrar aos que a rodeiam , que a intolerãncia existe em todos os cantos do globo. Também haverá tempo para descobrir o amor e o desgosto.

A viagem pelas memórias de Marjane ainda vai permitir um regresso à sua terra, mas no que diz respeito à sinopse desta história, quedo-me por aqui, pois este filme é muito rico do ponto de vista narrativo e ainda só aflorei a superfície.

A história é de facto um ponto forte, não só pela forma como é narrada, mas também pelo uso absolutamente perfeito do equílibrio entre momentos de alegria e de tristeza. Não é todos os dias que o público ocidental pode contactar com um filme que pinta um retrato tão descomprometido de uma sociedade que nos habituamos a ver no noticiário - quase sempre pelas piores razões -, mas que mal conhecemos.

É um filme nos fala da guerra e da sua inconsequência e sempre que alguém morre, sempre que uma injustiça é cometida em nome da guerra ou de um ideal político ou religioso o filme não toma partidos, apenas aquele partido que devia ser de todos: o do respeito por toda a humanidade. Vemos sempre tudo da perspectiva da protagonista, quando esta é criança e quando é uma adolescente e pelos olhos de uma criança a guerra e o ódio são objectos feios, incompreensíveis e aberrantes.

É um filme que também nos mostra que os países do Médio Oriente, não são antros repletos de fanáticos religiosos; lá como em qualquer lado, mesmo ao fundo da vossa rua, existem pessoas capazes de uma humanidade tremenda e pessoas capazes das mais indizíveis acções. E quando um filme nos apresenta a realidade desta forma é dificil não ficarmos rendidos à simplicidade com que o faz. Não é maçudo, não é dramalhão, é honesto e não possui agenda política: o seu objectivo não é odiarmos o Irão, o Médio Oriente em geral, a religião cristã ou Muçulmana, a Europa ou os E.U.A. A sua agenda é questionarmos as acções que cada um de nós toma que limita, discrimina os outros, mesmo aquelas que fazemos sem pensar. Portanto o alvo são todas as sociedades que permitem ou toleram a descriminação, todas as sociedades que ainda fomentam a guerra seja por que motivos.

O feito extraordinário deste filme é a forma como nunca torna nenhum tema pesado ou politicamente comprometido. Os momentos de humor estão presentes e o filme consegue ser equilibrado: ver Marjane com um blusão de ganga com as palavras "Punk is not dead" a desafiar duas mulheres fanáticas é um momento em que o humor e a tensão estão em perfeita sintonia.

E Marjane é uma protagonista maravilhosa: expressiva, inteligente, rebelde, culta, mordaz, apaixonada. O filme resulta porque acima de tudo nos preocupamos com ela e ao observarmos o seu crescimento, sentimos mesmo que a conhecemos.

Por fim convém salientar a animação simples e a preto e branco que é de uma expressividade fulgurante: as ruas, as pessoas, os efeitos de movimento, os rostos das personagens e todas as suas inúmeras expressões compõem uma obra que visualmente é arrebatadora. Nunca um filme a preto e branco teve tanta cor. Um filme imenso e eterno - e baseado numa história real.

Veredicto: 5/5 (Botões do Michael Jackson)


Realizador:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco:
Chiara Mastroianni
Catherine Deneuve
Danielle Darrieux
Simon Abkarian

Notas: Para mais filmes que nos apresentam perspectivas diferentes das sociedades Orientais, recomendo "Paradise Now".