
O sinal mais famoso do Médio Oriente
Num aeroporto, uma jovem mulher, Marjane Satrapi é impedida de entrar num avião para o Irão. Sentada e a fumar um cigarro ela começa a relembrar a sua infância em 1979, como uma criança de 10 anos com sonhos de ser uma profeta e imitadora de Bruce Lee. Nessa altura o Chá do Irão, apoiado pelos E.U.A é extremamente impopular e a família de Marjane tenta apoiar a sua demoção na esperança de criar uma sociedade mais justa.
Contudo as eleições que se seguem são ganhas por Fundamentalistas Islãmicos e apartir daí a vida de Marjane vai conhecer uma profunda reviravolta, à medida que o governo no poder vai criando um estado repressivo: as mulheres tem que tapar a cabeça, não podem sair sozinhas à rua pois são assediadas pelos militares e outros homens, dissidentes são capturados e executados e qualquer desacordo com o regime pode causar sérios problemas.
Contudo a jovem Marjane é rebelde e livre de espírito. Face a códigos tão rígidos ela assume uma postura de desafio: usa t-shirts de bandas de metal na rua, houve música rock e protesta contra as mentiras que lhe ensinam na escola. Os seus pais também organizam festas secretas para gozarem os pequenos prazeres que o governo proíbiu, como o alcool.
Só que esta conduta rebelde coloca Marjane e a sua familía em perigo, pelo que decidem envia-la para a Europa para estudar e viver de forma livre. Na Austria, vai sentir-se terrivelmente isolada, numa sociedade que não valoriza as liberdades que possui, mas que gosta de as exibir. Aí alojada numa casa de freiras, Marjane vai continuar a demonstrar aos que a rodeiam , que a intolerãncia existe em todos os cantos do globo. Também haverá tempo para descobrir o amor e o desgosto.
A viagem pelas memórias de Marjane ainda vai permitir um regresso à sua terra, mas no que diz respeito à sinopse desta história, quedo-me por aqui, pois este filme é muito rico do ponto de vista narrativo e ainda só aflorei a superfície.
A história é de facto um ponto forte, não só pela forma como é narrada, mas também pelo uso absolutamente perfeito do equílibrio entre momentos de alegria e de tristeza. Não é todos os dias que o público ocidental pode contactar com um filme que pinta um retrato tão descomprometido de uma sociedade que nos habituamos a ver no noticiário - quase sempre pelas piores razões -, mas que mal conhecemos.
É um filme nos fala da guerra e da sua inconsequência e sempre que alguém morre, sempre que uma injustiça é cometida em nome da guerra ou de um ideal político ou religioso o filme não toma partidos, apenas aquele partido que devia ser de todos: o do respeito por toda a humanidade. Vemos sempre tudo da perspectiva da protagonista, quando esta é criança e quando é uma adolescente e pelos olhos de uma criança a guerra e o ódio são objectos feios, incompreensíveis e aberrantes.
É um filme que também nos mostra que os países do Médio Oriente, não são antros repletos de fanáticos religiosos; lá como em qualquer lado, mesmo ao fundo da vossa rua, existem pessoas capazes de uma humanidade tremenda e pessoas capazes das mais indizíveis acções. E quando um filme nos apresenta a realidade desta forma é dificil não ficarmos rendidos à simplicidade com que o faz. Não é maçudo, não é dramalhão, é honesto e não possui agenda política: o seu objectivo não é odiarmos o Irão, o Médio Oriente em geral, a religião cristã ou Muçulmana, a Europa ou os E.U.A. A sua agenda é questionarmos as acções que cada um de nós toma que limita, discrimina os outros, mesmo aquelas que fazemos sem pensar. Portanto o alvo são todas as sociedades que permitem ou toleram a descriminação, todas as sociedades que ainda fomentam a guerra seja por que motivos.
O feito extraordinário deste filme é a forma como nunca torna nenhum tema pesado ou politicamente comprometido. Os momentos de humor estão presentes e o filme consegue ser equilibrado: ver Marjane com um blusão de ganga com as palavras "Punk is not dead" a desafiar duas mulheres fanáticas é um momento em que o humor e a tensão estão em perfeita sintonia.
E Marjane é uma protagonista maravilhosa: expressiva, inteligente, rebelde, culta, mordaz, apaixonada. O filme resulta porque acima de tudo nos preocupamos com ela e ao observarmos o seu crescimento, sentimos mesmo que a conhecemos.
Por fim convém salientar a animação simples e a preto e branco que é de uma expressividade fulgurante: as ruas, as pessoas, os efeitos de movimento, os rostos das personagens e todas as suas inúmeras expressões compõem uma obra que visualmente é arrebatadora. Nunca um filme a preto e branco teve tanta cor. Um filme imenso e eterno - e baseado numa história real.
Veredicto: 5/5 (Botões do Michael Jackson)
Realizador:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco:
Chiara Mastroianni
Catherine Deneuve
Danielle Darrieux
Simon Abkarian
Notas: Para mais filmes que nos apresentam perspectivas diferentes das sociedades Orientais, recomendo "Paradise Now".

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