
"This is a beautiful country, Monty, it's beautiful out there, like a different world."
A última hora é um filme dirigido por Spike Lee baseado na obra The 25th Hour escrita por David Benioff. Durante 135 minutos somos convidados a viver o último dia de liberdade de Montgomery "Monty" Brogan (Edward Norton) antes deste servir uma pena de sete anos por tráfico de droga.
Edward Norton é um actor de tremenda qualidade cujo papel de maior destaque é provavelmente Derek Vyniard, o neo-nazi de American History X. Contudo na minha opinião, o seu desempenho como Monty na sua última hora de liberdade é o mais completo até à data. Monty é um traficante de droga que em momento algum se desculpabiliza pelo seu ganha pão.
Monty está rodeado das pessoas mais próximas até à hora de partir para a prisão e é na sua interacção com elas que o filme ganha novas direcções e novos centros narrativos. Este é um filme com um elenco sumptuoso que nos presenteia com interpretações extraordinárias.
A última hora é um filme dirigido por Spike Lee baseado na obra The 25th Hour escrita por David Benioff. Durante 135 minutos somos convidados a viver o último dia de liberdade de Montgomery "Monty" Brogan (Edward Norton) antes deste servir uma pena de sete anos por tráfico de droga.
Edward Norton é um actor de tremenda qualidade cujo papel de maior destaque é provavelmente Derek Vyniard, o neo-nazi de American History X. Contudo na minha opinião, o seu desempenho como Monty na sua última hora de liberdade é o mais completo até à data. Monty é um traficante de droga que em momento algum se desculpabiliza pelo seu ganha pão.
Monty está rodeado das pessoas mais próximas até à hora de partir para a prisão e é na sua interacção com elas que o filme ganha novas direcções e novos centros narrativos. Este é um filme com um elenco sumptuoso que nos presenteia com interpretações extraordinárias.
No papel de Naturelle, a namorada de Monty está Rosario Dawson, capaz de demonstrar enorme sensualidade e doçura. Naturelle é uma mulher inteligente e dedicada que se sente perdida num turbilhão emocional por ver o homem que ama ir preso, por saber que a pena é justa e por se sentir impotente face a tudo isso - e talvez culpada por ter aproveitado nas palavras de Monty, o estilo de vida confortável proporcionado por um traficante de droga.
Philip Seymour Hoffman é Jacob Elinsky, um professor tímido que nutre sentimentos amorosos por uma aluna - ou será a luxúria inatingível que a relação professor/aluno desperta num homem inseguro e tímido? Jacob é um amigo de infância de Monty. Estes dois e Frank Slaughtery formam o trio de amigos de infância cuja dinâmica sofre - de várias formas - com a partida de Monty.
Frank (Barry Pepper) é o amigo confiante e bem-parecido de Monty. Se Jacob é tímido, Frank é confiante e até vaidoso. A sua relação com Monty tem nuances de rivalidade, como dois machos alfa a tentar competir pelo domínio do grupo...ou será pela atenção de uma certa "fêmea"? Talvez a competição esteja só na mente de um deles - o filme convida a interpretara relação de várias formas. Frank e Jacob partilham com Naturelle o sentido de impotência face ao destino de Monty, mas nenhum é condescendente ou falso. Monty vai preso e merece-o pelo que fez...mas é um amigo que tinha um estilo de vida com o qual eles compactuaram, fechando os olhos e fingindo que tudo estava bem..estas personagens carregam em si o peso das suas acções e omissões.
Por fim temos o pai de Monty, James desempenhado pelo sempre respeitável Brian Cox. Um homem desgastado pelo tempo, que viu a sua esposa falecer e nunca mais conseguiu recuperar a alegria de viver. James parece carregar o peso do mundo nas costas, algo que não é evidenciado pela postura, mas pela falta de brilho nos seus olhos. A ida do filho para a prisão é a estocada final num homem que alguns dizem não ter tido muita sorte na vida - o que é um eufemismo.
Este é um filme repleto de grandes diálogos que povoam esta caminhada de um homem que tentar se despedir da vida que conheceu, para enfrentar um mundo árido e inclemente. Monty vive as suas últimas horas de liberdade com uma aceitação dormente, de quem já viveu na sua mente todas as alternativas possíveis, mas chega sempre à mesma inevitável conclusão: ele tem que ir para a prisão pelo que fez.
Todas as personagens estão ligadas a Monty e acabam por espiar as suas culpas ao despedirem-se dele. Esta é uma viagem emocional inclemente e inexorável.
Existem ao longo do filme vários momentos marcantes, entre eles destaco o discurso do antigo "patrão" de Monty, Nikolai, um homem duro que conselha Monty sobre como sobreviver na prisão - num monólogo que hipnotiza do início ao fim; há também um momento fortíssimo envolvendo um favor que Monty pede a Frank antes de ir para a prisão - um momento que exterioriza todos os demónios daquela amizade.
De salientar ainda o longo monólogo de Monty - evocativo de Travis Bickle em Taxi Driver - no qual ele insulta os nova-iorquinos, numa demonstração de raiva e inconformidade interior. No fundo este discurso é uma anti-carta de amor a Nova Iorque, que esconde nas entrelinhas a admiração de alguém que conhece a cidade e o país com detalhe e reverência.
Contudo a melhor cena do filme envolve James e Montgomery. Ao levar o filho para a prisão, James dá-lhe uma escolha: levá-lo para um local onde não o possam encontrar e aí reconstruir a sua vida. O que se segue é uma sucessão de imagens - será que é James ou Monty que as visualizam? Será uma visão partilhada? - de grande beleza, guiadas pela narração de James. Vemos qual é a alternativa ao encarceramento. É na minha opinião um triunfo de cadência e iconografia Norte-Americana: vemos pequenas localizações do Sul dos E.U.A, bandeiras americanas esvoaçando, coros de gospel, o deserto, a oportunidade de começar de novo, a oportunidade de ser feliz, um sonho americano para os anos 00. Alguns espectadores podem sentir-se enganados pelo desenlace desta cena, mas ela está em sintonia com o tom do filme.
Este é um filme que diz "I love America", ainda ferida pelos atentados de 11/09/2001. Um dos primeiros filmes a mostrar o ground zero no grande ecrã. Como está isto relacionado com os eventos do filme? Monty procura a sua redenção, talvez ele sinta que a atingirá, pagando pelos seus crimes e dessa forma ficando livre para começar de novo.
Digamos que o país das oportunidades, a terra dos sonhos que deu a Monty prosperidade, tirou-lhe tudo num piscar de olhos...mas a América é ainda a terra prometida e Monty sente que ela lhe deve mais uma oportunidade... ele deve a si mesmo voltar a tentar.
Neste sentido o filme é um louvor aos E.U.A, um louvor sentido a uma nação de luto, a uma nação de orgulho ferido que queria recuperar rapidamente da tragédia que se lhe abateu.
Spike Lee filme uma Nova Yorque de ruas alinhadas e movimentadas, bares duvidosos, Nova-Iorquinos aguerridos e orgulhosos de o ser, bandeiras nas janelas, um ground-zero fantasmagórico, o Sul quase místico, o amor na cidade que nunca dorme...a imperfeição de um país que o realizador ama, que reconhece as suas imperfeições...mas ele aceita-as como parte integrante da alma e do mito da Land of opportunities.
Em suma A última hora é um filme de uma poesia melancólica, embebida em tímida esperança.
Veredicto: 5/5 (colchões)
Realizador:
Spike Lee
Elenco:
Edward Norton
Brian Cox
Rosario Dawson
Philip Seymour Hoffman
Barry Pepper
Anna Paquin
Notas: Bamboozled e Malcom X são duas sugestões de filmes de Spike Lee de grande interesse

Ed Norton é um actor intenso e se afirmas que este papel é o desempenho mais completo dele até À data então terei mesmo de ver o filme. Gosto da forma como escreves. devias fazê-lo mais vezes.
ReplyDeleteJá vi o filme há uns tempos. Estou completamente de acordo contigo, o monólogo de Monty e as imagens do final narradas por James são os dois melhores momentos de um filme de grande qualidade. A cena a evocar do sonho americano para o século XIX e o possível recomeçar para Monty está muito bem construída e faz o espectador viajar e acreditar na beleza do sonho americano.
ReplyDeletePosso revelar-te que essa cena é a razão principal para a presença do filme neste blog. É muito forte, icónica e melancólica. Além disso quis prestar a minha homenagem ao Edward Norton, que até à data, teve aqui o seu melhor desempenho. Chamavam-lhe o novo De Niro - um título desnecessário que vale o que vale - mas parece ter caído um pouco no esquecimento.
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