Monday, April 16, 2012

Uma lista a abater - The Kill List


 Ninguém pára para pensar no significado literal da "última missão..."

Jay (Neil Maskell) é um ex-militar com dores crónicas na coluna - segundo o próprio - e um jaccuzzi avariado. A sua esposa Shel (MyAnna Buring), também uma ex-militar, queixa-se da inactividade do marido e da postura sorumbática do mesmo. O pequeno Sam, é o espectador privilegiado das estrondosas discussões que os seus pais vão tendo ao longo do filme. Estamos perante um thriller arrebatador que aparenta ser uma crónica da relação instável de uma família, presa na inércia da vida suburbana Britânica.
Shel organiza um jantar e convida Gal (Michael Smiley) o amigo de longa data de Jay. O jantar não corre bem, pois a relação de Jay e Shel não lhes permite sequer ter um jantar sem que haja tiradas cruéis e toda a composição da mesa espalhada no chão - imagino como seriam os seus jantares fora de portas.
Sabendo que Jay está a precisar de dinheiro, Gal traz-lhe uma proposta de "trabalho": uma pequena lista de alvos a abater, cujo pagamento é demasiado bom para ignorar. Jay está relutante no início, mas parece ser a sua inércia e letargia aprendida os grandes entraves, já que ele e Gal já fizeram trabalhos semelhantes no passado. Finalmente e após muitas cenas da vida doméstica - leia-se discussões, tréguas maritais, discussões seguidas de mais tréguas maritais e sinais de agoiro místico - Jay e Gal aceitam o trabalho, que não será tão simples como ambos previam - nem podia ser de outra forma, pois este tropo em consonância com o "one last job" são parte fundamental deste tipo de cinema. As cenas em que os amigos se preparam para o trabalho, vigiando os alvos, são típicas de filmes sobre assassinos a soldo e em conjunto com a interacção doméstica estabelecem perfeitamente os laços que unem estas personagens. Porém estas são das poucas cenas que o filme tem de convencional - e talvez nem estas o sejam na verdade visto que a banda sonora que as acompanha é, na ausência de melhor termo, lúgubre.

O que se segue é uma sequência cada vez mais inquietante de aparições sinistras, símbolos do oculto de significado ambíguo, uma atmosfera cada vez mais tensa e inquieta(nte), mortes violentas e algum humor extremamente negro. Quão negro? Imaginem que estão a jantar e que alguém vos diz que debaixo da vossa mesa está uma bomba. Contudo afiançaram-vos que essa bomba está desligada e não explodirá. Como corre o resto do jantar? Ainda tem apetite se vos oferecerem um manjar delicioso? Agora substituam o jantar por algumas piadas contra o catolicismo e grupos de auto-ajuda e a bomba por este filme...ou melhor ainda esqueçam esta metáfora pouco clara e lembrem-se disto: Kill List é estranho, opaco, violento, opressivo, assustador e hipnótico; começa com um ruído que só consigo explicar como o que ouviria se estivesse num túnel de comboio e viesse um na minha direcção - curiosamente essa toada inicial marca o desconforto que este filme mantêm até terminar.

Não revelei o que acontece após Jay e Gal aceitarem o trabalho, porque tudo merece ser vivido sem grandes spoilers e dessa forma cada um poderá fazer sentido do que acontece. "Kill List" não é um filme claro, certos eventos são de tal forma estranhos e a  razão para os mesmos não é clara, o que obriga o espectador a criar as suas perguntas, mas também as suas respostas. Este filme é uma espécie de kit "faça você mesmo" dos thrillers de horror, na medida e que fornece as peças todas, mas não o manual de instruções não está todo traduzido...no fim podem sobrar algumas peças e mesmo assim funcionar.

O realizador Ben Wheatley pegou em convenções do género de acção - a última missão, "buddy movie" - misturou com outras de filmes de horror - algum gore, claustrofobia, paranóia - e resultado é um filme estranho, uma montanha russa a alta velocidade, mas na completa escuridão; uma mescla de géneros que resulta pois faz juz ao género do thriller - o espectador tem o corpo preso à cadeira e os olhos colados no ecrã.

Certamente que não será um filme para todos, o final em particular é em igual medida sinistro, divisivo, perverso  tão enigmático que quase ameaça destruir toda a lógica do enredo...e no entanto, quando tudo termina as pontas soltas ameaçam ficar atadas.

Na minha opinião um dos grandes filmes do género.

Veredicto: 5/5 (coelhos)

Realizador:
Ben Wheatley

Elenco:
Neil Maskell
Michael Smiley
MyAnna Buring
Emma Fryer

Notas: "The Wicker Man", 1973, Robin Hardy, é um outro thriller de terror Britânico, que partilha algumas temáticas com "The Kill List" e é um clássico algo subvalorizado.

2 comments:

  1. Não tendo visto o filme sinto-me à vontade para perguntar o seguinte: Considerarias que este é um filme fragmentado no sentido de ser uma colagem de várias cenas que podem não fazer sentido nem ter ligação? Pergunto isto por causa destas tuas palavras

    "Este filme é uma espécie de kit "faça você mesmo" dos thrillers de horror, na medida e que fornece as peças todas, mas não o manual de instruções não está todo traduzido...no fim podem sobrar algumas peças e mesmo assim funcionar."

    Isto é apenas a minha interpretação livre das tuas palavras, poderá não ser uma interpretação correcta.

    Quanto ao resto, a tua escrita continua muito clara e os textos muito interessantes. É um prazer ler os teus textos.

    Rodri

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  2. Antes de mais, muito obrigado pela tua gentileza. fico muito contente que tenhas gostado do que leste.
    O filme tem um arco narrativo muito simples, não é difícil compreender o que está acontecer, excepção feita à interpretação de alguns diálogos e cenas, que compõem uma faceta diferente daquela que o filme é numa primeira impressão; ou seja este filme tem um género matriz - filme de golpe/assassinato - mas depois tem um outro, cujos elementos são algo crípticos e cuja interpretação é aberta. Estou a ser vago de propósito para não te influenciar e ao mesmo tempo não cometer nenhum deslize e fazer spoilers. É um kit "faça você mesmo" na medida em que a interpretação dos eventos do filme e em particular o final - a parte mais divisiva - é muito lata, de tal forma que até podes não considerar este filme um thriller de horror, mas simplesmente um thriller. E quando fizeres a tua própria avaliação, poderá haver -como aconteceu comigo - certas cenas que não encaixam na tua teoria final, mas ainda assim pode funcionar - daí a metáfora das peças que sobram. Faz sentido o que escrevi? De resto, não o considero fragmentado, mas parece que para completar o puzzle é preciso "forçar" algumas peças.

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