Thursday, March 26, 2009

Kill Bill






Here comes the bride...

Uma das controvérsias em torno do quarto filme de Tarantino gerou-se com a decisão de dividir a obra em duas parte, algo que muitos viram como uma jogada sem escrúpulos para receber mais dinheiro por um só filme. A minha opinião sobre os motivos que levaram à divisão do filme em dois não interessam, mas a minha leitura sobre o díptico é a seguinte: Kill Bill deve ser visto como um só filme; a parte dois não é uma sequela, mas sim a segunda metade que o completa. A parte um não faz sentido sem a parte dois, seria como ler um livro do meio até ao fim ou do início até ao meio. Contudo a divisão em duas partes, apesar de tornar os filmes algo desiquilibrados, permite analisar a diferença de tom e muitas das referências com as quais Tarantino, como cinéfilo, povoou o filme.

A narrativa é contada através de uma ordem cronológica não-linear, ao estilo do seminal "Pulp Fiction" e dividida em capítulos. Conhecemos a história da Noiva (Uma Thurman), uma assassina reformada, que é atacada no dia do seu casamento, estando grávida ainda para mais, pelo seu antigo chefe e amante, Bill (David Carradine). Desde o ínicio sabemos que esta será uma história de vingança, pois a Noiva, cujo verdadeiro nome apenas conhecemos no volume 2, sobrevive ao violentíssimo ataque do Esquadrão de Víboras, os assassinos de elite de Bill. Após o seu longo coma e tendo perdido a sua filha, a Noiva prepara uma lista de alvos a abater, sendo o último obviamente o titular Bill.

Esta é a simples premissa, como normalmente esperamos de um filme com a vingança como pano de fundo e de facto todo o percurso bebe inspiração de filmes mais antigos com temáticas de vingança. Tarantino essencialmente pegou em dois géneros que são clássicos do cinema mundial e que abordaram inúmeras vezes o tema da vingança: são eles o western e o filme de samurais. Culturalmente enraizados nos países de origem e na mente de cinéfilos de todo o mundo este tipo de filmes sempre mostraram homens e mulheres, que em situações adversas fazem justiça pelas próprias mãos. Claro que os temas não se esgotam aí, mas a vingança sempre assentou bem nas áridas planícies do deserto americano ou sob as amendoeiras em flõr de um Japão feudal.

Esta é claramente a primeira e mais óbvia diferença entre a primeira e a segunda parte. Se no volume um, a homenagem é totalmente direccionada aos épicos de artes marciais, na segunda é o western que assume destaque. Claro que se virmos os filmes como deviam ser vistos, ou seja de uma só vez, a transição é fluída, mas vistos separadamente a ideia que fica, é que o primeiro concentra a maior parte da violência e o segundo a maior parte dos diálogos e do desenvolvimento das personagens. Por mais que isto seja verdade, ambos os filmes são bem sucedidos naquele que é o seu objectivo principal: serem homenagens sentidas a um tipo de cinema de série B que teve o seu apogeu na década de 70 em ambos continentes Asiático e Norte-Americano.

A viagem da Noiva faz-se pelos subúrbios americanos, pelos bairros futurísticos e coloridos a neon do Japão, as vastas planíces desertas dos E.U.A e as praias do Novo México. Até chegar a Bill ela terá que enfrentar o seu esquadrão de assassinos, todos com nomes de código que remetem para uma espécie mortal de víbora - na melhor tradição de filmes de artes marciais em que os grupos de guerreiros tinham nomes de animais. Esse grupo é uma galeria de personagens diversas e muito especiais, que vão de Vernica Green, uma dona de casa verdadeiramente perigosa (Vivica A. Fox), uma loira e ciclópica assasina Elle Driver (Daryl Hannah), um aparentemente estafado e inútil segurança de um stripclub e irmão de Bill, Bud (Michael Madsen) - um actor que renasce sempre que é chamado por Tarantino - e O' Ren Ishi, uma chefe da máfia japonesa com ar angelical e um coração de gelo ( Lucy Liu).

Até embate final somos brindados com sequências de acção muito sangrentas, mas muito estilizadas - ao bom estilo dos filmes japoneses de acção - que o sangue jorra em quantidades absurdas; mas a intenção não é fazer rir, são simplesmente códigos estéticos que estão para os filmes de artes marciais, como os duelos ao amanhacer para os westerns. Os embates entre A Noiva e os "Víboras" são sempre épicos, cada um de forma diferente e sempre jogando com a noção que cada um de nós tem de como uma batalha entre titãs deve ser. Claro que tenho que destacar no segundo volume, o flashback do treino que a Noiva se submete às mãos do exigente e severo Pai Mai ( Gordon Liu). Este segmento coloca na nossa retina toda a mística representada pelo estereótipo do mestre eremita que é um deus do combate e da meditação. É um capítulo que quebra o tom de Western que domina a segunda parte, para nos enviar de novo para ambientes orientais. Na primeira parte a música de Nancy Sinatra "Bang Bang (My baby shot me down)" lembrava-nos o velho oeste enquanto a acção se desenrola no oriente. Tarantino prova que sabe jogar com os símbolos e ícones, numa sinestesia cinematográfica que só está ao alcance dos realizadores mais dotados.

Tarantino não inventa nada de novo, serve-se de todos os clichés que existem nos filmes que homenageia e aplica-lhes uma roupagem moderna, simultaneamente prestando-lhes reverência. Não só isso mas a forma como cria as personagens e as cenas indicam o carinho de alguém que cresceu a ver filmes de série B e que agora quer partilhar essa experiência com o público - e para os conhecedores o filmes está repleto de referências a outros filmes, tornando esta obra num meta-filme.
Claro que depois há os inigualáveis diálogos à la Tarantino: mordazes, incisivos, irónicos, rápidos e auto-referenciais - sendo que que a fala de Bill "Isto sou eu no meu mais masoquista" é já um clássico. Esta mescla cria um filme que é sem dúvida um épico e acção. Aqui o que está em causa é entreter e piscar o olho aqueles que sabem que o material que aqui está presente não é novo, mas é bem tratado, logo todo o tipo de cinéfilos que adoram filmes de acção, em que as personagens não são de cartão, vão encontrar aqui algo que lhes agradará.

Em suma Kill Bill entretém se for visto em separado, mas a sua escala e grandeza épica é melhor compreendida e saboreada se visto na sua completude de uma só vez - aceita-se um intervalo mais longo, até porque a duração total atinge as quatro horas. No fim desta viagem com a vingança como mote, como sede que tem que ser satisfeita, compreendemos que o cinema é como a literatura, feito de hiperligações em que um filme remete para outro e como a leitura de objectos diferentes pode servir para os aproximar. Este filme pode ser visto de várias maneiras, mas a primeira de todas deve ser em nome da diversão e do prazer pelo cinema. Tudo o resto que possamos receber são guloseimas que nos deleitam. Como cinéfilo quase fanático, antes de realizador, Tarantino sabe como adoçar a nossa boca.

Veredicto: 5/5 (Sequências de anime inesperadas)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
UmaThurman
Daryl Hannah
David Carradine
Vivica A. Fox
Michael Madsen
Gordon liu
Lucy Liu


Notas: O clássico "Pulp Fiction" e "Cães Danados" são filmes que recomendo da filmografia de Tarantino.

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