
Música, amor e outras atribulações
O enredo de "Alta fidelidade" gira em torno de Rob Gordon (John Cusack) um melómano com pouco jeito para lidar com relações amorosas. Quando a sua namorada Laura (Iben Hjejle) termina a relação, John decide revisitar velhas paixões para tentar compreender o que falha nas suas relações.
Rob passa os dias na sua loja de discos, Championship Vynil, fazendo observações sobre os seus clientes - ou a falta deles. Juntamente com os seus amigos Dick (Todd Louiso) e Barry - um Jack Black em estado de graça que rouba todas as cenas em que participa e tem a mais engraçada tirada do filme - forma um trio de elitistas musicais que troça da ignorância dos seus clientes, elabora os mais variados "top 5" acerca de tudo o que possam imaginar e ás vezes vendem discos.
Entretanto Rob descobre que a sua ex-namorada está com outro homem e enquanto revisita as restantes 4 mulheres mais importantes da sua vida, vai tentando descobrir o que faz dele um bom ou mau namorado - ao mesmo tempo que faz cenas de ciúmes em frente a Laura.
Cada encontro que Rob tem com uma das mulheres com quem namorou, acentua simultaneamente a personalidade e transição que ele fez ao amadurecer e a ideossincrática personalidade de mulheres que ele parece já não conhecer. Estes encontros são simultaneamente fonte de humor e reflexão - mais para Rob do que para o espectador.
Um dos aspectos mais singulares desta obra é o facto de Rob se dirigir ao ecrã para falar, ou seja estabelece um diálogo com o espectador, quebrando a quarta dimensão. Esta característica cria proximidade, à medida que Rob confidencia em nós os seus desejos, ansiedades, medos e confusões. Tornamo-nos seus confidentes, ainda que não necessariamente seus amigos o que nos permite julgá-lo, mas nunca, na minha opinião deixar de simpatizar com ele - Cusack criou uma personagem, que não obstante os seus defeitos é fácil de gostar.
"Alta fidelidade" é um filme rodeado de música, quer nos diálogos que gravitam á volta do tema, quer nas melodias que servem de banda sonora para os diferentes momentos emocionais do filme. Contudo a música presente é normalmente diegética, o que confere um tom realista a um filme que, dado o tema, podia cair nos braços de um pseudo-musical, estragando a ambiência e capacidade emotiva de certas cenas-chave.
Este é um filme sobre e com música, mas também é um filme sobre pessoas: pessoas que amam, que erram, que estao frágeis e que procuram alguém para partilhar um futuro. Rob é particularmente pungente como um snob melómano, que age como adulto em part-time, reservando o resto do seu tempo para agir como um adolescente hormonal. A sua forma de agir com as mulheres de quem gostou permite-nos conhecer um homem com medo de compromissos, que se acha rebelde; alguém que sente o apelo de uma vida adulta, mas teme perder algo nessa transição. Uma espécie de Peter Pan dos tempos modernos.
Aqui não vão encontrar uma típica comédias de equívocos ou humor situacional. O tom é ligeiro, o humor subtil, mas inteligente e permite momentos de maior impacto dramático...um pouco como a vida real. Aqui o humor também surge muita das personagens que são carismáticas e dos actores que realmente as encarnam - sentimos que estas personagens podem de facto existir.
Um filme com sensibilidade, sentido de humor e muita música: aquela que ouvimos, aquela de que falam e aquela que imaginamos.
Veredicto: 4/5 (músicas sobre pessoas que estão em coma)
Realizador:
Stephen Frears
Elenco:
John Cusack
Iben Hjejle
Jack Black
Tim Robbins
Todd Louiso
Catherine Zeta-Jones
Lisa Bonet
Notas: De John Cusack aconselho os filmes "Gross point blanck", "Identidade Misteriosa" - desconstrução simpática do género trhiller - e "A barreira invisível".

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