
Um épico cómico
Falar dos Monty Python é falar de um estilo de comédia que, quando surgiu, varreu completamente a face do humor televisivo. Aplicar esse humor tão sui generis ao grande ecrã resulta uma experiência única e delirante. Este filme aborda a demanda de Rei Artur pelo cálice sagrado. Para atingir esse feito, o Rei mitológico vai durante o curso da sua viagem recrutar os seus cavaleiros da mesa redonda, para formar um grupo valoroso de guerreiros. E assim chegamos ao fim de qualquer semelhança que este filme tem com a lenda de Rei Artur e do cálice sagrado.
O que vemos durante aproximadamente noventa minutos é uma sequência de cenas onde o humor típico dos Python está tão impresso em cada linha de diálogo, como uma impressão digital impossível de remover. E é um humor plural: absurdo, non-sequitur, negro, surrealista, político, satírico, auto-referencial, físico, libidinoso e non-sense.
Cenas como a do Cavaleiro Negro, A besta de Caerbannog, os Cavaleiros que dizem Ni, ou até mesmo os créditos iniciais, mostram que desde o primeiro segundo este filme não está interessado em ser normal. De facto as piadas muitas vezes quebram a quarta dimensão e estamos cientes que as personagens sabem que estão num filme. E é preciso ter isto em consideração quando presenciamos o clímax - ou o anti-clímax - deste filme. Claro que chegamos ao fim sabendo que uma obra tão desregrada, anárquica e inovadora como esta, não podia acabar de outra forma que não a que nos é apresentada.
Existe um gozo indisfarçável no rosto destes comediantes, enquanto subvertem um dos mitos mais conhecidos da literatura europeia e fonte de inúmeras adaptações televisivas e cinematográficas. Este piscar de olho a nós espectadores, torna-nos cúmplices e obriga-nos a estar atentos a todos os detalhes, desde as expressões faciais até aos adereços usados.
Falando em adereços, este filme foi filmado com poucos recursos e nem os realizadores nem os actores quiseram esconder isso. Logo de parcos recursos surgem amplas oportunidades de humor, desde os efeitos de pirotecnia baratos, aos cenários falsos, maquilhagem sofrível e substitutos para equídeos - naquele que é uma das piadas visuais mais conseguidas do filme.
Não obstante tudo isto, nunca por um segundo colocamos a credibilidade do filme em questão. Este é um épico sem dúvida, mas por razões diferentes, que não valores orçamentais.
O grande defeito deste filme é uma certa tradição de humor televisivo que acaba por ser transportado para o grande ecrã. As cenas assemelham-se a sketches, que nem sempre se articulam totalmente entre si, levando-nos a esquecer a razão da sua relevância para o enredo - mas tendo em conta a forma como o enredo é (mal)tratado, talvez isso seja propositado. Este estatuto estanque das cenas retira coesão ao filme, mas dado que são na sua maioria inovadoras e genuinamente engraçadas, é uma falha qe facilmente se esquece.
Este é um filme repleto de um humor que ataca em várias direcções, religião e política incluídos - se bem que não tanto como em filmes posteriores dos Pyhon - e que também brinca com conceitos filosóficos e existencialistas, relembrando-nos que a razão para os Monthy Python serem baluartes da comédia, é o facto de o seu humor ser de facto inteligente.
Para nos fazer rir e para nos provocar, sem reservas.
Veredicto: 5/5 (Coelhos brancos)
Realizador:
Terry Gilliam, Terry Jones
Elenco:
Graham Chapman
John Cleese
Eric Idle
Terry Jones
Michael Palin
Notas: Dos Python aconselho o seminal "A vida de Brian"
e "O sentido da vida".

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