Um escultor de formas e emoções
Lá fora está a nevar, num cenário retirado de um catálogo de casas nos subúrbios; dentro de uma casa igual a tantas outras que a rodeiam, uma avó conta uma história à sua neta que está na cama. A partir desse momento somos levados para outro local, como costumava acontecer quando éramos crianças, mas desta vez fazemos essa viagem como adultos. Este é um conto de fadas sem fadas, uma história para os adultos que ainda acham que é possível sonhar, mesmo que o mundo real tente negar esse privilégio.
A história que vamos ver e ouvir - como se fossemos nós deitados na cama a ouvir a nossa avó contar um conto - é sobre um homem chamado Edward, que foi criado - literalmente - e educado por um cientista. Contudo esse cientista morreu antes de lhe construir umas mãos e Edward (Johnny Depp) fica sozinho numa mansão que representa a totalidade do seu mundo e em vez de mãos humanas possui afiadas tesouras.
Um dia Edward será afastado do seu pequeno mundo, por uma vendedora de produtos de beleza que o levará para uma realidade diferente: um mundo de ruas alinhadas, com casas simétricas idênticas e ajardinadas. Aí Edward vai interagir com pessoas variadas e descobrir que o mundo pode ser um local bem mais complicado do que alguma vez poderia imaginar. A família que o acolhe será o seu novo núcleo familiar e durante algum tempo o nosso silencioso protagonista irá redescobrir as maravilhas do contacto humano.
Contudo Edward é um ser bondoso, incapaz de malícia e um conjunto de enganos, e as actividades de pessoas invejosas e más vão tornar a sua vida complicada. Não é necessário explicar muito mais do enredo, não porque há grandes reviravoltas ou segredos, mas porque este filme assenta o seu encanto no mundo construído e na personagem principal.
Esta é uma história de amor, com contornos de contos de fada e umas pinceladas góticas. O bairro onde a acção decorre é perfeito de uma forma enfadonha e deprimente, sendo a mansão gótica e imponente onde Edward mora, tão deslocada como um hipopótamo numa feira de pinguins - mas não tão engraçada. Este filme mostra o que acontece quando o imaginário negro, mas humorado de Burton foge para a pacata realidade.
Com certeza que repararam, que não descrevi Edward fisicamente, para além das suas mãos, porque a sua imagem está bem enraizada na cultura popular. Para aqueles que não sabem quem ou como ele é, descobri-lo será certamente uma experiência única. Johnny Depp construiu uma personagem que diz muito não por palavras mas por gesto. Além disso nunca um olhar triste foi tão versátil e expressivo como aqui.
Depois existe Kim (Winona Ryder) a filha do casal que acolhe Edward. Uma beleza loira e esplendorosa apenas ultrapassada pela beleza que habita no coração de Edward. A história de amor que surge entre ambos é clássica no seu molde e única na sua aparência; possui um encanto juvenil que os adultos parecem esquecer, mas retem um travo agri-doce que só com a experiência aprendemos a identificar.
Sobre que é este filme? Talvez sobre os nossos sonhos perdidos. Talvez sobre o que é sermos diferentes e incapazes de nos adaptarmos. Ou talvez sirva para nos lembrar do que a natureza humana é capaz. E falando de natureza humana, será Edward humano? Não foi ele construido? Depois de ver este filme nem sequer pensei duas vezes sobre isto. Não é preciso ser monstro para destruir nem humano para amar. Um coração é sempre um coração e é a natureza do que lá reside que nos define.
Para os apreciadores de Tim Burton e não só, um conto de fadas sem fadas, mas com muita magia.
Veredicto: 5/5 (Flocos de neve)
Realizador: Tim Burton
Elenco:
Johnny Depp
Winona Ryder
Vincent Price
Dianne Wiest
Anthony Michael Hall
Kathy Baker
Notas: Para ver Depp encarnar personagens únicas e excentricas recomendo "Delírio em Las Vegas" e "Charlie e a Fábrica de chocolate"

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