
Um demónio com coração mole
Há muito tempo travou-se uma batalha entre humanos e criaturas mágicas. Como em qualquer batalha, as perdas eram enormes para ambos os lados. Um dia um goblin oferece a Rei Balor (Roy Dotrice), soberano da terra dos elfos, a arma ideal para terminar a guerra: um exército composto de 70x70 guerreiros de ouro, incansável e indestrutível. Não vendo outra forma de terminar a guerra, o rei aceita a oferta e o exército é construído. O exército dourado era incansável e implacável: a sua vitória foi tão cruel como esmagadora. Vendo a carnificina o Rei Balor decidiu estabelecer uma trégua: os humanos ficariam com as suas cidades e as criaturas mágicas ficariam com as florestas. O filho do rei, o príncipe Nuada (Luke Goss) discordava da trégua e partiu em exílio. A coroa que controlava o exercito foi dividia em três para que o exército nunca mais fosse invocado, ficando duas peças com os elfos e uma foi dada aos humanos.
Assim começa Hellboy II, com o protagonista, ainda um demónio petiz a ouvir esta história para adormecer, contada pelo seu pai adoptivo. A forma como o filme começa marca de imediato o tom desta história de mundos antigos e misteriosos que lutam por perdurar numa altura mem que o domínio do homem é intrusivo, assimilador e destrutivo. A aura de conto de fadas, com tons de fantástico sombrio, está imprimida em todo o filme. Ver Hellboy (Ron Perlman) quando era pequeno é uma óptima forma não só de nos afeiçoar-mos à personagem - ao seu lado mais humano portanto - como de nos apercebermos do tom de história que mencionei: tal como o protagonista no início, também o realizador nos está a contar uma história com criaturas mágicas e eventos fantásticos.
Após a história ser contada e rolarem os créditos iniciais somos transportados para o presente. Aqui o Príncipe Nuada regressa com a intenção de quebrar o pacto estabelecido pelo seu pai. Para o fazer tenciona recuperar os três fragmentos da coroa e controlar o exército dourado.
Para lhe fazer frente estará Hellboy obviamente,mas não sem a ajuda de: Liz (Selma Blair), a sua namorada, que tem poderes piroquinécticos - ela dá um novo significado à expressão ferver em pouca água; Abe Sapien (Doug Jones), que é um ictio-sapien - ou homem-peixe que soa menos pomposo - de enorme intelecto; e Johann Krauss (Seth Macfarlane), um psíquico que vive sob a forma de ectoplasma - a substância de que são feitos os fantasmas - dentro de o que parece ser um fato de mergulhado arcaico.
Este conjunto de seres estranhos são o obstáculo no caminho do príncipe e da sua demanda genocida, afinal de contas ele quer destruir os humanos completamente.
Esta é a premissa do filme , algo simples de facto. Contudo este não é um filme que quer ser complexo ou com um enredo intrincado. Guillermo del Toro quis criar um conto fantástico, como aqueles que ouvíamos quando crianças; aí as histórias também eram sobre o bem e o mal, monstros e princesas e batalhas épicas. Claro que o imaginário do realizador e o universo de Mike Mignola - o criador da bd original na qual Hellboy é baseado - criam um ambiente mais adulto, mas no fundo a ideia é a mesma: criar um mundo rico e credível. Nesse aspecto a missão é cumprida de forma extraordinária pois a atenção posta nos detalhes é incrível, resultando num todo coerente e imersivo: as criaturas são detalhadas, originais e únicas, os ambientes luxuosos, vibrantes e vivos.
O filme desperta um dilema no nosso herói, que apesar de não ser muito explorado creio que acrescenta um pouco de profundidade ao enredo. Hellboy é um demónio, mas luta pelos humanos e como tal deseja ser aceite por eles. Contudo isso não acontece e apesar de ele derrotar criaturas mágicas, tal como ele, para defender os humanos, esta ingratidão e até mesmo agressividade com que é recebido deixa-o a sentir-se um pária, um ser que habita um nexo: não quer voltar às suas raízes demoníacas, mas não é aceite no mundo em que vive. O filme deixa entrever que as consequências desta situação serão resolvidas numa próxima sequela. Dada qualidade deste segundo filme, creio que isso cria uma antecipação positiva que não diminui a sua qualidade nem o deixa num enclave, como tantas vezes acontece numa segunda parte de uma trilogia, em que o segundo filme parece começar e acabar a meio. Nesse aspecto Hellboy II consegue ser um filme autónomo do primeiro, não sendo preciso ver o anterior para compreender o seu enredo.
O filme tem cenas de grande beleza e detalhe, mas uma certamente se destaca e é a prova definitiva do detalhe, do rigor e da fantástica mente criativa do seu realizador. Falo portanto do mercado troll, local escondido dos olhares humanos e localizado no coração de Manhattan. O mercado troll é um local de comércio frequentado por criaturas mágicas de todas as formas e feitios: seres enormes com cabeças cilíndricas, seres híbridos, meio homem meio peixe, que vendem peixe fresco - ironia talvez -, pequenas criaturas bi-céfalas que vagueiam por entre a multidão, artistas de rua que tocam bizarros instrumentos....enfim um mundo de detalhe que é impossível de capturar totalmente da primeira que o vemos. O detalhe é tanto que não é possível senão ceder à fantasia que se desenrola perante os nossos olhos. Mesmo de sobreaviso podem tentar apanhar o maior numero possível de detalhes, mas num segundo visionamente certamente encontrarão muita coisa que não viram da primeira vez. Simplesmente assombroso.
O tom do filme é também deliciosamente cómico, mas de uma forma suave, imiscuindo-se perfeitamente no mundo de fantasia recriado. Isto deve-se primeiramente à personagem de Hellboy que tem consegue alternar entre o registo do herói sério e do herói com a piada certa num momento tenso. Um dos momentos mais cómicos e ternos é o dueto musical entre Hellboy e Abe Sapien, causado por sentimentos amorosos.
No fim Hellboy consegue ser tudo: conto de fadas sombrio, filme de super-herói e história de amor - em dose dupla. É também um triunfo visual estrondoso, de um realizador, que tal como Tim Burton, por exemplo, se destaca como um verdadeiro autor, capaz de conferir o seu cunho próprio: encantado, mágico e sombrio.
Veredicto: 4/5 (Fadas dos dentes)
Realizador: Guillermo del Toro
Elenco:
Ron Perlman
Selma Blair
Doug Jones
Jeffrey Tambor
Luke Goss
Anna Walton
John Hurt
Seth Macfarlane
Roy Dotrice
Notas: de Del Tor recomendo o primeiro Hellboy, o Labirinto do Fauno e Blade II, para confirmarem a visão tão própria deste realizador de filmes, amiúde ligados ao fantástico.

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