Thursday, February 26, 2009

Jack Burton nas garras do Mandarim - Big trouble in Little china




East meets West, com resultados inesperados

O camionista Jack Burton (Kurt Russel) e o seu amigo Wang (Dennis Dun) vão até ao aeroporto para receber amigos que vêm de visita da China. Mas, e tem que haver sempre um "mas", a namorada de olhos verdes de Wang é raptada no aeroporto por um gang e cabe a Jack e a Wang resgatá-la. A perseguição leva-os até ao misterioso e místico submundo de chinatown. Aí irão deparar-se com um ancião feiticeiro de nome Lo Pan (James Hong) que necessita de sacrificar uma rapariga de olhos verdes para poder quebrar uma maldição que lhe colocaram - os vilões tem sempre aquilo que merecem, principalemente quando são feiticeiros com mais de dois mil anos.

Jack irá deparar-se com gangs proficientes em artes marciais, seres sobre-humanos que controlam os elementos, pântanos místicos mesmo sob Chinatown e muitos outros obstáculos sobrenaturais e místicos, não esquecendo o supracitado feiticeiro malévolo. Para o ajudar terá não só Wang, mas Gracy Law ( Kim Cattrall) uma advogada, Egg Shen ( Victor Wong) um feiticeiro condutor de um autocarro turístico e também a colaboração do gang Chang Sing.

Se até agora tudo isto soa surreal e pouco coerente, deixo desde já o aviso que a nível de narrativa as coisas não vão melhorar, mas vão ficar mais divertidas. John Carpenter estabeleceu-se como um mestre do horror, mas neste filme apresenta-nos uma aventura com tons cómicos que é uma mescla de vários tipos de cinema: desde os filmes de artes marciais orientais, passando pelo género do fantástico, com cenas dignas de um típico filme de acção Hollywoodesco e ainda algum humor situacional. Carpenter brinca com os estereótipos inerentes a todos este géneros: cenas de acção estilizadas, tiroteios dsenfreados em que os vilões nunca acertam no herói - o que põe em causa a credibilidade de uma organização maléfica com mão de obra tão pouco qualificada -, a já habitual troca de galhardetes entre herói e vilão, momentos de grande emoção alicerçados por efeitos especiais grandiosos, havendo sempre espaço para o normal e esperado beijo entre o herói e o seu interesse amoros - que parece sempre antecer ou preceder imediatamente um grande embate.

As personagens não tem grande profundidade, na verdade caminham a ténue linha entre a caricatura e a planitude de uma mesa de mármore, mas aqui nem considero isso uma falha. Este filme é uma homenagem e até uma celebração de todos os géneros e estereótipos cinematográficos nele presentes. Um filme de entretenimento que não rouba ideias para as menorizar, mas antes para lhe prestar a devida vassalagem, ainda que numa roupagem cómica e cartoonesca. Depois temos Jack Burton o herói despistado, que julga ser capaz de todas as proezas, com uma postura de bravo, mas que vai sobrevivendo, mais devido à sorte e intervenção oportuna de seus aliados, do que devido a mérito próprio. Esta caricatura de uma espécie de John Wayne moderno e trapalhão é uma das forças maiores do filme.

Visualmente Carpenter criou uma Chinatown subterrãnea repleta de túneis sombrios e nevoados, templos orientais ocultos, salas emperiais que combinam néons vivos e monumentos orientais antigos, criando um mundo paralelo singular, mas estranhamente imersivo, ainda que nem sempre congruente e algo anacronístico de acordo com os estilos mais modernos - por outro lado é um visual muito típico dos anos oitenta e os fãs dessa época e dos filmes tão intrinsecamente "eighties" vão certamente gostar.

Sem grandes rodeios, este filme é para ver com o espírito de quem quer se entreter com um cocktail visual repleto de cenas de acção comédia e uma aura de espalhafato e humor auto-referencial. Não é um filme que se leva a sério e tendo em conta a premissa e o seu desenrolar essa é uma das suas maiores forças.

Veredicto: 3.5 (Tempestades)

Realizador:
John Carpenter
Elenco:
Kurt Russel
Kim Cattrall
Victor Wong
Dennis Dun
James Hong

Notas: Carpenter é por excelência um realizador de filmes de terror. Aconselho o seminal "Halloween", "Veio do espaço" ou num estilo mais dramático e fantástico "Starman".

Sunday, February 22, 2009

Quem quer ser bilionário? - Slumdog Millionaire




From India with love...and song, and dance, and laughter, and....


Hoje terá lugar a cerimónia dos Óscares, considerada o expoente máximo dos eventos que premeiam os intervenientes do mundo do cinema - apesar do evento estar a perder espectadores e talvez a precisar de uma remodelação, continua a ter um grande relevo e visibilidade. Hoje vou fazer algo que não fazia parte dos meus planos para este blogue. Hoje vou falar de um filme que ainda só vi uma vez; um filme que ainda está nos cinemas; um filme nomeado - um dos que detêm mais nomeações - para a edição de 2009 dos Óscares da academia. Todos os filmes que destaquei neste blogue já os vi inúmeras vezes e fazem parte da minha dvdteca. Mas este não. Este é um filme que irei revisitar, mas no momento em que escrevo, passaram 48 horas desde a única vez que o vi.

A razão pela qual quebro uma regra não escrita deste blogue é simples: este "Quem quer ser bilionário?" entrou directamente para a minha lista de favoritos. Um filme vibrante e arrebatador que nos agarra a atenção desde o primeiro minuto e nos suga numa montanha-russa de emoções que só termina quando o ecrã do cinema fica escuro e as luzes da sala se acendem.

Jamal Malik (Dev Patel) é um concorrente na versão indiana do programa "Quem quer ser milionário?". No início do filme uma frase revela-nos que ele está a uma pergunta de obter o prémio máximo. E o filme confronta-nos com uma pergunta :
- Como é que ele o fez?
A: Fez batota;
B: Teve sorte;
C: É um génio;
D: Está destinado.
No fim o próprio filme fornece uma resposta, mas até lá somos espectadores do percurso de Jamal, desde criança pobre nos bairros degradados de Dharavi até aos seus 20 anos, sentado numa cadeira de um concurso televisivo, com a possibilidade de se tornar rico.

A história subverte o tempo narrativo em alguns momentos, apresentando-nos momentos de Jamal em criança e como vários acontecimentos na sua vida providenciaram as respostas para as perguntas que vão surgindo no programa. Somos turistas numa índia de contrastes: um país de pobreza extrema, de riqueza proliferante, de intolerância religiosa, de monumentos e paisagens majestosas, de crueldade humana e de profundo sentimento humano. O filme consegue ser colorido, vivaz, com música que nos eleva; consegue ser soturno, apresentando uma visão negra do espírito humano e da sua corrupção.

Acima de tudo este é uma fábula moderna sobre um rapaz que ousa sobreviver e depois se apaixona. A partir do momento que se apaixona o seu móbil é reunir-se com o seu amor e concretizá-lo - ou seja torna-se um caso de boy meets girl, boy looses girl, boy meets girl again...only to loose her again. Soa enfadonho? Então vejam e descubram como o realizador Danny Boyle consegue construir uma história de amor cheia de obstáculos sem a tornar enfadonha ou risível. Descubram como capta imagens de grande beleza, nos faz preocupar com as personagens, nos apresenta momentos de ternura, de tensão, de tristeza e de emoção. E tudo de forma tão articulada que não conseguimos deixar de querer antecipar o que se vai passar de seguida ou qual o destino das personagens.

O filme também aborda a questão do destino e sua importância, contudo para aqueles que não acreditam em tais coisas, é possível extrair uma leitura própria que não desvirtua o filme aos olhos daqueles que acreditam no destino e aos olhos dos que acreditam na sorte - será a mesma coisa?

Outra característica do filme é ser capaz de abordar várias componentes, e temas, e sendo verdade que não é capaz de explorar nenhum a fundo, consegue gerar alguma reflexão sobre eles: o comentário social sobre a Índia está presente nas assimetrias a nível económico, os conflictos religiosos, a corrupção; o país é representado como uma terra onde também é possível um zé-niguém ascender aos estrelato - numa variação do tema da terra prometida que eram (são?) os E.U.A; a história de dois irmãos e os elos que os unem e as diferenças que os separam - apesar de nenhum ser intrinsecamente mau, Salim deixa-se sugar para uma vida de crime, enquanto Jamal não; a história de amor, apesar de ser vivida quase exclusivamente do ponto de vista de Jamal é capaz de nos prender, mas o papel de Latika pode ser questionado - seria ela algo mais que apenas um objecto de desejo, ou estamos perante um caso de um amor puro e idealizado?

Diria que este é um pequeno filme, com um espírito de colosso: uma história de amor embrulhada em várias camadas de emoção, suspense, ternura, humor. sombra e cor. Uma ode à vida e a todas as possibilidades de felicidade. Se vai ganhar muitos Óscares, não sei, mas em breve descobrirei. No entanto não precisou de ter qualquer troféu para me arrebatar da forma que o fez.
Ir ao cinema, sair com uma atitude positiva e com a sensação de ter presenciado algo especial: foi o que este filme me deu. O cinema também é isto.

Veredicto: 4/5 (Notas de 100 dólares)

Realizador: Danny Boyle
Elenco:
Dev Patel
Freida Pinto
Anil Kapoor
Irrfan Khan
Ayush Mahesh Khedekar
Tanay Chheda
Saurabh Shukla
Mahesh Manjrekar

Notas: de Danny Boyle e também com dinheiro como tema que não é central, mas aparenta ser, recomendo "Millions". Boyle também teve uma passagem pelo género de terror com o muito agradável "28 dias depois". Para quem nunca viu, o clássico de culto "Trainspotting" é também um filme a ver.

Monday, February 16, 2009

Hellboy II: Exército dourado - Hellboy II: The golden army





Um demónio com coração mole

Há muito tempo travou-se uma batalha entre humanos e criaturas mágicas. Como em qualquer batalha, as perdas eram enormes para ambos os lados. Um dia um goblin oferece a Rei Balor (Roy Dotrice), soberano da terra dos elfos, a arma ideal para terminar a guerra: um exército composto de 70x70 guerreiros de ouro, incansável e indestrutível. Não vendo outra forma de terminar a guerra, o rei aceita a oferta e o exército é construído. O exército dourado era incansável e implacável: a sua vitória foi tão cruel como esmagadora. Vendo a carnificina o Rei Balor decidiu estabelecer uma trégua: os humanos ficariam com as suas cidades e as criaturas mágicas ficariam com as florestas. O filho do rei, o príncipe Nuada (Luke Goss) discordava da trégua e partiu em exílio. A coroa que controlava o exercito foi dividia em três para que o exército nunca mais fosse invocado, ficando duas peças com os elfos e uma foi dada aos humanos.

Assim começa Hellboy II, com o protagonista, ainda um demónio petiz a ouvir esta história para adormecer, contada pelo seu pai adoptivo. A forma como o filme começa marca de imediato o tom desta história de mundos antigos e misteriosos que lutam por perdurar numa altura mem que o domínio do homem é intrusivo, assimilador e destrutivo. A aura de conto de fadas, com tons de fantástico sombrio, está imprimida em todo o filme. Ver Hellboy (Ron Perlman) quando era pequeno é uma óptima forma não só de nos afeiçoar-mos à personagem - ao seu lado mais humano portanto - como de nos apercebermos do tom de história que mencionei: tal como o protagonista no início, também o realizador nos está a contar uma história com criaturas mágicas e eventos fantásticos.

Após a história ser contada e rolarem os créditos iniciais somos transportados para o presente. Aqui o Príncipe Nuada regressa com a intenção de quebrar o pacto estabelecido pelo seu pai. Para o fazer tenciona recuperar os três fragmentos da coroa e controlar o exército dourado.
Para lhe fazer frente estará Hellboy obviamente,mas não sem a ajuda de: Liz (Selma Blair), a sua namorada, que tem poderes piroquinécticos - ela dá um novo significado à expressão ferver em pouca água; Abe Sapien (Doug Jones), que é um ictio-sapien - ou homem-peixe que soa menos pomposo - de enorme intelecto; e Johann Krauss (Seth Macfarlane), um psíquico que vive sob a forma de ectoplasma - a substância de que são feitos os fantasmas - dentro de o que parece ser um fato de mergulhado arcaico.
Este conjunto de seres estranhos são o obstáculo no caminho do príncipe e da sua demanda genocida, afinal de contas ele quer destruir os humanos completamente.

Esta é a premissa do filme , algo simples de facto. Contudo este não é um filme que quer ser complexo ou com um enredo intrincado. Guillermo del Toro quis criar um conto fantástico, como aqueles que ouvíamos quando crianças; aí as histórias também eram sobre o bem e o mal, monstros e princesas e batalhas épicas. Claro que o imaginário do realizador e o universo de Mike Mignola - o criador da bd original na qual Hellboy é baseado - criam um ambiente mais adulto, mas no fundo a ideia é a mesma: criar um mundo rico e credível. Nesse aspecto a missão é cumprida de forma extraordinária pois a atenção posta nos detalhes é incrível, resultando num todo coerente e imersivo: as criaturas são detalhadas, originais e únicas, os ambientes luxuosos, vibrantes e vivos.

O filme desperta um dilema no nosso herói, que apesar de não ser muito explorado creio que acrescenta um pouco de profundidade ao enredo. Hellboy é um demónio, mas luta pelos humanos e como tal deseja ser aceite por eles. Contudo isso não acontece e apesar de ele derrotar criaturas mágicas, tal como ele, para defender os humanos, esta ingratidão e até mesmo agressividade com que é recebido deixa-o a sentir-se um pária, um ser que habita um nexo: não quer voltar às suas raízes demoníacas, mas não é aceite no mundo em que vive. O filme deixa entrever que as consequências desta situação serão resolvidas numa próxima sequela. Dada qualidade deste segundo filme, creio que isso cria uma antecipação positiva que não diminui a sua qualidade nem o deixa num enclave, como tantas vezes acontece numa segunda parte de uma trilogia, em que o segundo filme parece começar e acabar a meio. Nesse aspecto Hellboy II consegue ser um filme autónomo do primeiro, não sendo preciso ver o anterior para compreender o seu enredo.

O filme tem cenas de grande beleza e detalhe, mas uma certamente se destaca e é a prova definitiva do detalhe, do rigor e da fantástica mente criativa do seu realizador. Falo portanto do mercado troll, local escondido dos olhares humanos e localizado no coração de Manhattan. O mercado troll é um local de comércio frequentado por criaturas mágicas de todas as formas e feitios: seres enormes com cabeças cilíndricas, seres híbridos, meio homem meio peixe, que vendem peixe fresco - ironia talvez -, pequenas criaturas bi-céfalas que vagueiam por entre a multidão, artistas de rua que tocam bizarros instrumentos....enfim um mundo de detalhe que é impossível de capturar totalmente da primeira que o vemos. O detalhe é tanto que não é possível senão ceder à fantasia que se desenrola perante os nossos olhos. Mesmo de sobreaviso podem tentar apanhar o maior numero possível de detalhes, mas num segundo visionamente certamente encontrarão muita coisa que não viram da primeira vez. Simplesmente assombroso.

O tom do filme é também deliciosamente cómico, mas de uma forma suave, imiscuindo-se perfeitamente no mundo de fantasia recriado. Isto deve-se primeiramente à personagem de Hellboy que tem consegue alternar entre o registo do herói sério e do herói com a piada certa num momento tenso. Um dos momentos mais cómicos e ternos é o dueto musical entre Hellboy e Abe Sapien, causado por sentimentos amorosos.

No fim Hellboy consegue ser tudo: conto de fadas sombrio, filme de super-herói e história de amor - em dose dupla. É também um triunfo visual estrondoso, de um realizador, que tal como Tim Burton, por exemplo, se destaca como um verdadeiro autor, capaz de conferir o seu cunho próprio: encantado, mágico e sombrio.

Veredicto: 4/5 (Fadas dos dentes)

Realizador: Guillermo del Toro
Elenco:
Ron Perlman
Selma Blair
Doug Jones
Jeffrey Tambor
Luke Goss
Anna Walton
John Hurt
Seth Macfarlane
Roy Dotrice

Notas: de Del Tor recomendo o primeiro Hellboy, o Labirinto do Fauno e Blade II, para confirmarem a visão tão própria deste realizador de filmes, amiúde ligados ao fantástico.

Tuesday, February 10, 2009

Eduardo Mãos de Tesoura - Edward Scissorhands




Um escultor de formas e emoções


Lá fora está a nevar, num cenário retirado de um catálogo de casas nos subúrbios; dentro de uma casa igual a tantas outras que a rodeiam, uma avó conta uma história à sua neta que está na cama. A partir desse momento somos levados para outro local, como costumava acontecer quando éramos crianças, mas desta vez fazemos essa viagem como adultos. Este é um conto de fadas sem fadas, uma história para os adultos que ainda acham que é possível sonhar, mesmo que o mundo real tente negar esse privilégio.

A história que vamos ver e ouvir - como se fossemos nós deitados na cama a ouvir a nossa avó contar um conto - é sobre um homem chamado Edward, que foi criado - literalmente - e educado por um cientista. Contudo esse cientista morreu antes de lhe construir umas mãos e Edward (Johnny Depp) fica sozinho numa mansão que representa a totalidade do seu mundo e em vez de mãos humanas possui afiadas tesouras.

Um dia Edward será afastado do seu pequeno mundo, por uma vendedora de produtos de beleza que o levará para uma realidade diferente: um mundo de ruas alinhadas, com casas simétricas idênticas e ajardinadas. Aí Edward vai interagir com pessoas variadas e descobrir que o mundo pode ser um local bem mais complicado do que alguma vez poderia imaginar. A família que o acolhe será o seu novo núcleo familiar e durante algum tempo o nosso silencioso protagonista irá redescobrir as maravilhas do contacto humano.

Contudo Edward é um ser bondoso, incapaz de malícia e um conjunto de enganos, e as actividades de pessoas invejosas e más vão tornar a sua vida complicada. Não é necessário explicar muito mais do enredo, não porque há grandes reviravoltas ou segredos, mas porque este filme assenta o seu encanto no mundo construído e na personagem principal.

Esta é uma história de amor, com contornos de contos de fada e umas pinceladas góticas. O bairro onde a acção decorre é perfeito de uma forma enfadonha e deprimente, sendo a mansão gótica e imponente onde Edward mora, tão deslocada como um hipopótamo numa feira de pinguins - mas não tão engraçada. Este filme mostra o que acontece quando o imaginário negro, mas humorado de Burton foge para a pacata realidade.

Com certeza que repararam, que não descrevi Edward fisicamente, para além das suas mãos, porque a sua imagem está bem enraizada na cultura popular. Para aqueles que não sabem quem ou como ele é, descobri-lo será certamente uma experiência única. Johnny Depp construiu uma personagem que diz muito não por palavras mas por gesto. Além disso nunca um olhar triste foi tão versátil e expressivo como aqui.

Depois existe Kim (Winona Ryder) a filha do casal que acolhe Edward. Uma beleza loira e esplendorosa apenas ultrapassada pela beleza que habita no coração de Edward. A história de amor que surge entre ambos é clássica no seu molde e única na sua aparência; possui um encanto juvenil que os adultos parecem esquecer, mas retem um travo agri-doce que só com a experiência aprendemos a identificar.

Sobre que é este filme? Talvez sobre os nossos sonhos perdidos. Talvez sobre o que é sermos diferentes e incapazes de nos adaptarmos. Ou talvez sirva para nos lembrar do que a natureza humana é capaz. E falando de natureza humana, será Edward humano? Não foi ele construido? Depois de ver este filme nem sequer pensei duas vezes sobre isto. Não é preciso ser monstro para destruir nem humano para amar. Um coração é sempre um coração e é a natureza do que lá reside que nos define.

Para os apreciadores de Tim Burton e não só, um conto de fadas sem fadas, mas com muita magia.

Veredicto: 5/5 (Flocos de neve)

Realizador: Tim Burton
Elenco:
Johnny Depp
Winona Ryder
Vincent Price
Dianne Wiest
Anthony Michael Hall
Kathy Baker

Notas: Para ver Depp encarnar personagens únicas e excentricas recomendo "Delírio em Las Vegas" e "Charlie e a Fábrica de chocolate"

Friday, February 6, 2009

O último Samurai - the last Samurai




Dos homens e da honra


Nathan Algren (Tom cruise), é um desencantado e alcoólico ex-capitão do exército Norte-Americano que viaja até Tokio para ajudar a modernizar e treinar o novo exército Imperial Japonês. Contudo o "exército" que Algren tem nas suas mãos não é mais que um grupo de camponeses e pedintes, que ele nem tem oportunidade de formar em condições pois cedo são despachados para defender uma linha de caminhos de ferro de um grupo de samurais rebeldes.

Os soldados de Algren são derrotados e forçados a retirar. Algren acaba por ser capturado e poupado a uma morte certa, graças a uma coincidência onírica: o líder dos samurais, Katsumoto (Ken Watanabe) tivera um sonho sobre um tigre branco que o ajudara numa batalha, e Nathan usou uma lança com uma bandeira que continha a imagem de um tigre branco. Katsumoto decide levar Nathan consigo para o acampamento e aprender mais sobre o seu adversário.

O Japão representado nesta época, surge como uma nação que se quer afirmar como moderna e poderosa. A revolução industrial começa a impor-se com a força do vapor, dos caminhos de ferro e as armas de fogo. Num mundo a modernizar-se os samurais e o seu código de honra e de vida parecem já não ter lugar.

No seu cárcere Nathan começará uma viagem de transformação, á medida que vai conhecendo melhor uma cultura tão particular e o estilo de vida dos lendários guerreiros samurais: os ultimos baluartes de um modo de pensar e estar assente em códigos de honra, lealdade e sacríficio. Nathan terá não só que se adaptar a uma realidade que não conhece, como também vencer os seus demónios pessoais.

O filme tem um tom calmo, quase zen , algo que quem estiver habituado a ver os blockbusters em que Cruise participa, poderá achar estranho. Contudo este é um épico com muita alma e quando vemos Nathan a treinar a arte de lutar com uma katana, rodeado por imensas colinas sentimos que há algo nestas imagens de transcendente. "O ultimo samurai" tem cenas de batalha elaboradas e grandiosas, contudo os melhores momentos do filme são os duelos ideológicos entre Katsumoto e Nathan. Aqui vemos duas grandes mentes debater questões filosóficas sobre a vida e a morte, a guerra e a paz. Pode soar enfadonho, mas não é graças à presença que ambos os actores trazem para a tela, deixando-nos presos a cada palavra que proferem. Vemos o desenvolver de um laço de admiração entre dois homens cujas culturas são diferentes, mas cujos valores são os mesmos.

Outro aspecto que acho que vale a pena realçar é a relação entre Nathan e a mulher de um samurai morto pelo protagonista. Ela, Taka (Koyuki Kato), é forçada a acolher em sua casa o homem que a enviuvou, um estranho que odeia. Contudo com o passar do tempo vemos no seu olhar a luta interior desta mulher que deseja e odeia o mesmo homem. Não existe a típica cena de amor entre eles, ou melhor existe mas está invertida: a cena mais romântica e de certa forma erótica ocorre quando Taka ajuda Nathan a preparar-se para a batalha; a forma como ela o veste, manusei-a os tecidos, tocando o corpo dele é um nada erótica e terna, culminando num beijo antes da partida do guerreiro.

No fim há um confronto entre samurais e o novo moderno exército Japonês. Sabemos que o que está em confronto é intemporal: ideologias diferentes, códigos diferentes, visões díspares do mundo. A única falha do filme reside realmente no seu final. Não vou revelar o fim obviamente, mas vou dizer o seguinte: uma das grandes mensagens do filme é veiculada por Katsumoto quando afirma que o seu bushido - estilo de vida do samurai, regido pela espada - é uma forma de ver o mundo, uma forma de viver e isso implica também uma forma de encarar a morte. Aprendemos que um guerreiro Samurai não teme a morte e que uma boa morte seria morrer em batalha. Contudo Katsumoto não é nenhum guerreiro sanguinário com um desejo de morte; é antes um espírito nobre em paz com tudo o que o rodeia, mas desiludido com um mundo que já não lhe reconhece a utilidade ou gratidão de outrora. Katsumoto sabe a diferença entre morrer por aquilo em que se acredita e morrer por causa daquilo em que se acredita.
Infelizmente o realizador e argumentistas não se lembraram disso e o filme acaba por obedecer á lógica dos grandes projectos blockbuster. Vejam o filme para saber do que falo.

De resto este é um filme em que o americano não é o conversor da cultura que encontra, mas é antes convertido a essa cultura. Esta é uma abordagem refrescante e bem realista. Todo o filme acaba por ser bem original nas ideias que traz para o grande ecrã e na minha opinião apenas o final, que convenhamos não é horrível, o impede de ser algo de verdadeiramente único. Não deixa de ser um dos meus filmes favoritos, um que é tão idealista como Katsumoto. No fim fica a pergunta: afinal quem é o ultimo samurai do título? Nathan Algren? Katsumoto?

Veredicto: 4/5 (Katanas)

Realizador: Edward Zwick
Elenco:
Tom Cruise
KenWatanabe
Timothy Spall
Koyuki Kato
Billy Connolly

Notas: Deste realizador aconselho os filmes "Diamante de sangue" e "Lendas de paixão".

Monday, February 2, 2009

Princesa Mononoke - Mononoke Hime


Magnum opus de Miyazaki

Hayao Miyazaki é um dos maiores contadores de histórias da sétima arte. Apresentou aquele que é, da sua vasta e fantástica carreira, o meu filme favorito. Tornou-se comum chamar a Miyazaki o Walt Disney do oriente, mas para mim, que detesto comparações, este paralelismo era absolutamente dispensável. De facto a importância de Miyazaki só não é maior a nível mundial, porque os seus filmes não tiveram, na sua maioria a visibilidade dos de Walt Disney. De resto admito que a popularidade que cada um recebe nos seus países de origem é semelhante: são ambos baluartes do cinema de animação. Mas passemos ao filme.

Em "Princesa Mononoke" as personagens principais são Ashitaka (Yoji Matsuda), um príncipe que tenta estabelecer tréguas entre os humanos de uma cidade e as criaturas da floresta que a rodeiam e San (Yuriko Ishida), uma rapariga selvagem criada por lobos. No início do filme, Ashitaka é amaldiçoado por um animal doente enquanto tenta proteger a sua aldeia. A maldição começa a consumir o seu corpo e este entra numa corrida contra o tempo para tentar descobrir uma cura.

Na sua procura pela génesa da maldição o jovem príncipe irá encontrar um monge de nome Jigo (Kaoru Kobayashi). O monge dirá que a cura para a maldição jaz na captura da cabeça do espírito da floresta, capaz de curar tudo.

Na sua viagem o príncipe irá deparar-se com um acampamento humano designado Irontown. Aí a regente da cidade, Lady Eboshi (Yoko Tanaka) gere não só a defesa daqueles que habitam a cidade, como instalou uma pequena produção metalúrgica para a produção de armas e subsistência daquele aglomerado. Contudo a exploração metalúrgica implica a destruição da àrea circundante da floresta, pelo que os humanos de Iron town estão em constante guerra com as criaturas que habitam a floresta.

Numa dessas escaramuças, Ashitaka encontra San, uma rapariga guerreira que luta pelo lado dos animais. Abandonada em criança, San foi criada pela Deusa loba Moro e detesta todos os humanos devido às atrocidades que estes cometem contra a natureza.
Miyazaki coloca nas suas narrativas uma mensagem ecologista, mas este é o seu filme mais directo nesse aspecto, pois coloca em confronto directo homem e natureza.

As criaturas que habitam a floresta são visualmente encantadoras e credíveis: os alvos lobos gigantes, os enormes e brutos javalis, as luminescentes fadas da floresta ou o misterioso e exótico espírito da floresta. A própria floresta é um local de vegetação verdejante e luxuriante, com uma aura de magia e inocência. Sem dúvida que os momentos de maior beleza visual se desenrolam na floresta.

Os ambientes urbanos, particularmente Iron town são vivos, detalhados e coloridos. Fumo sai das chaminés, pessoas várias caminham dentro das muralhas, veiculando um buliçio tão característico de uma revolução social e industrial que se estava a operar naquela era - uma era em que os senhores feudais perdiam poder, uma era em que a tradição dava lugar ao modernismo.

Os humanos são personagens complexas pelas quais nos interessamos: Ashitaka é um príncipe tenta salvar a sua vida, mas ao mesmo tempo procura uma solução para o conflicto que encontra em Iron town. Apesar de ser o arquétipo de herói incorruptível, representa o melhor que a humanidade tem para oferecer: argúcia, desejo de paz e compaixão.

San é uma humana que odeia humanos. Esta contradição marca um ponto importante da narrativa: não devem homens e animais partilhar o mesmo espaço em harmonia em vez de o destruir e de se destruirem uns aos outros?

Lady Eboshi é provavelmente a personagem mais complexa. O seu caracter dual prova que neste filme não existe uma linha definida entre o que é o bem e o mal. Se por um lado as suas acções são catalizadoras de alguns momentos trágicos do filme, por outro Eboshi é uma mulher que demonstra compaixão, respeito pelos seus pares, que apenas quer defender o seu lar - apesar das consequências desse desejo.

Miyazaki consegue cristalizar num só filme vários elementos: mitologia japonesa, principalmente na forma das criaturas da floresta, uma mensagem ecológica, um ideal de paz, uma história de amor, sequências de aventura, personagens apelativas, cenários ricos e detalhados e uma técnica de animação irrepreensível e belíssima. O resultado é um filme com consciência, magia e encanto. Um clássico intemporal

Veredicto: 5/5 (Kodamas)

Realizador: Hayao Miyazaki
Elenco:
Yoji Matsuda
Yuriko Ishida
Akihiro Miwa
Yuko Tanaka
Kaoru Kobayashi
Sumi Shimamoto
(Japão)
Billy Crudup
Claire Danes
Gillian Anderson
Minnie Driver
Billy Bod Thornton
Jada Pinkett Smith
(E.U.A)

Notas: Continuando na senda de recomendar filmes de Miyazaki, sugiro "Nausicaa of the valley of the wind".