Monday, March 16, 2009

Batman




Ser herói é solitário

Bruce Wayne (Michael Keaton) é um homem com uma vida dupla. De dia é o herdeiro de uma enorme fortuna e Presidente da Wayne Enterprises. Wayne é um filantropo com reputação de playboy e que não gosta de dar nas vistas para além das suas vistosas festas e outras acções de caridade. De noite assume a identidade de um vigilante mascarado chamado Batman, que causa medo no coração do submundo criminal de Gotham City. Como Batman, a sua personalidade é sombria e os criminosos não tem como parar este justiceiro marginal.

Contudo este anti-herói não terá que lidar com um tipo de criminoso bem mais nefasto que os habituais fora da lei. Um gangster chamado Jack Napier (Jack Nicholson), braço direito do senhor do crime Grissom (Jack Palance) é traído pelo seu chefe e num confronto com Batman fica horrivelmente desfigurado: cabelo verde, cara branca e um permanente sorriso de orelha a orelha - literalmente - Jack torna-se no Joker, um ser ainda mais sádico e desvairado que antes.

Entre estes dois homens mascarados está Vicky Vale (Kim Bassinger), uma repórter enviada para envestigar o fenómeno do Batman e que cedo cai nos braços de Bruce Wayne e no gosto do Joker. Está será uma luta não só pelo controlo da cidade, como também pelos afectos de uma mulher.

A galeria de personagens ainda é considerável, mas obviamente que o foco da atenção será o duelo entre herói e vilão. De facto o vilão é na verdade a personagem que parece merecer as cenas mais delirantes, cómicas e assustadoras - esta tendência para o Joker roubar a luz da ribalta repete-se no "Cavaleiro das Trevas". O Joker que Nicholson criou é uma personagem espampanante, grosseira, com um humor macabro, uma gargalhada intimidante e uma presença imponente. O Joker não é bonito, mas a sua pose pode ser sedutora; é psicótico, mas perspicaz e inteligente. A sua presença implica que algo de perigoso, ruidoso e polvilhado de humor macabro vai acontecer e por isso estamos sempre em antecipação quando ele está em cena.

Batman por seu lado é soturno e monossilábico. Atormentado pela morte dos seus pais à sua frente, quando ainda era criança, Batman/Wayne não retira prazer do que faz: a sua demanda é por justiça, não fama nem glória. Os criminosos temem-no, mas a opinião pública também faz dele um criminoso. A polícia é na sua maioria corrupta, excepção maior será o comissário Gordon, por isso este vigilante também não granjeia a simpatia das forças policiais. Batman é por isso um anti-herói, opera às margens da lei, para a fazer cumprir. No entanto, o seu método é de captura e não de destruição; o Batman não mata criminosos, mas captura-os pois ele não é juiz, nem carrasco. Este código de ética impede-o de se tornar como aqueles que caça.

Contudo muitas vezes parece que o Batman não nos cativa tanto como o Joker, mas isso não significa que a personagem não seja caracterizada de forma competente pelo actor Michael Keaton. Na verdade creio que isto é prova da sua qualidade, porque Batman e Joker são opostos na sua dimensão física: um é calado e soturno, outro é maniacamente ruidoso e espampanante; um intimida com o olhar e outro com o seu sorriso desfigurado; Batman é quase monocromático - uniforme preto, com um símbolo amarelo no peito - e o Joker é uma palete de roxo, branco, verde e vermelho.

De resto são mais parecidos do que poderíamos pensar: dois párias da sociedade, incapazes de pertencer e atraídos um para o outro para se destruírem. vença quem vencer nenhum será aclamado herói, o vencedor será sempre temido por uma sociedade que os criou mas não os aceita. O Joker é um destruidor, causador de caos e anarquia que faz tudo com um sorriso nos lábios; Batman é um ser só empenhado em fazer justiça, que vive uma vida dupla, mas que ambas as suas facetas são viradas para o combate ao crime.

As restantes personagens são bem mais planas, principalmente Vicky Vale que não é mais que um interesse amoroso e a dama em perigo. A sua presença também serve para validar a constatação que Bruce Wayne não é muito mais que um sonho de normalidade do Batman: inepto a criar relações, a sua máscara de bilionário inconsequente é ténue.

O filme tem um tom negro. A metrópole de Gotham city não se parece com nenhuma cidade que tenhamos visto antes: repleta de edifícios imponentes com gárgulas, ruas com muito fumo, quase uma fusão da américa dos anos 50, com a estética dos comic books dos anos 80 e o imaginário tão próprio de Tim Burton. Os vilões são uma amalgama dos gangsters de um filme sobre Al Capone e rufias do boom inicial do rap. Burton cria uma cidade, um universo muito próprio que é uma homenagem às banda-desenhadas do Cavaleiro das Trevas, mas sem perder o realismo próprio de um filme em imagem real.

Este é um filme que abriu caminho para o género dos filmes de super-heróis. Uma visão pessoal do realizador, sobre um dos (anti-)heróis mais famosos da banda desenhada. Não é um filme alegre, consegue ser até bastante negro, mas é visualmente arrebatador, emocionante e espectacular. Um Jack Nicholson inspirado é também uma boa razão para ver esta aventura. Os fãs de Burton também gostarão, pois o ambiente e a estética são claramente "Burtonianos".

Veredicto: 4/5 (Dentaduras mecânicas)

Realizador:
Tim Burton
Elenco:
Jack Nicholson
Michael Keaton
Kim Bassinger
Robert Wuhl

Notas: A sequela "Batman Regressa" é de visonamento obrigatório para todos os que gostaram deste filme.

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