
A vida polvilhada com sonhos
Num futuro próximo uma invenção chamada "DC mini" permite ao seu usuário ver e entrar nos sonhos das outras pessoas. Num departamento de psicoterapia, este método é testado para ajudar paciente com problemas psiquiátricos. A chefiar este departamento está a Dra. Atsuko chiba (Megumi Hayashibara) que não se limita a ter um papel de mera observadora: sob o disfarce de um alter ego chamado Paprika, Atsuko entra nos sonhos dos seus pacientes e ajuda-os a compreender e a superar traumas e medos que residem no seu subconsciente. Contudo o governo ainda não aprovou o uso do "DC mini" portanto a legalidade das acções de Atsuko / Paprika é questionável.
Cedo a situação complica-se quando três dispositivos "DC mini" são roubados. Numa reunião para se debater o que fazer, o chefe do principal do instituto de psicoterapia exibe comportamentos erráticos, como se sonhasse acordado: a sua psique é invadida por o sonho de outra pessoa. Nesse sonho aparece um enorme desfile recheado de animais que tocam instrumentos, objectos inanimados que ganham vida e vários icones culturais - este desfile é um elemento recorrente do filme e o seu significado está aberto a várias interpretações.
Começa então a investigação para descobrir quem anda a usar os "DC mini" para invadir os subsconscientes das pessoas criando ilusões e devaneios que as colocam em risco, pois a linha entre real e onírico esbate-se facilmente. O jogo de gato e rato que se segue seria enfadonho e meramente funcional se não fosse pela forma como é executado: fusão do real e do mundo dos sonhos e do inconsciente dá lugar a uma imagética misteriosa, intrigante que deixa as personagens e o espectador na dúvida sobre no que acreditar. Contudo este exercício não é cansativo ou forçado: o resultado é encantador e hipnótico porque a imagética do insconsciente que se funde com o real torna os cenários, que de outra forma seriam comuns, em locais que queremos explorar.
Na verdade a maior valência deste filme é a sua componente visual, os elementos oníricos e a sua apresentação moldam a realidade criando uma aura surreal, que não estranhamos mas aceitamos, porque também os nossos sonhos são assim, um cruzamento do real com o surreal.
O ùltimo acto do filme é particularmente belo, uma fusão de reinos oníricos, e uma imagética transcendente de beleza desenhada - talvez esteja a ser demasiado entusiasta, mas também é natural dado o tema do filme e como me identifico com ele - cheia de simbolismo. Um acto final digno de um filme que fala dos nossos sonhos e desejos que nem sempre queremos confessar porque achamos que o cinzentismo do mundo não tem lugar para eles. Contudo Paprika prova que há sempre lugar para ideias coloridas que enalteçam os grandes sentimentos e o gosto pela vida.
Não vejam pela história, mas sim por toda a estética, imagética que nos leva para um lugar especial: o lugar onde os sonhos nascem, sem abdicar de quererem ser reais.
Veredicto: 4/5 ( Bébés gigantes)
Realizador:
Satoshi Kon
Elenco:
Megumi Hayashibara
Akio Otsuka
Koichi Yamadera
Toro Foruya
Notas: Do mesmo realizador recomendo "Perfect Blue" e "Millennium Actress" dois exemplos de como a animação pode ser o veículo para filmes de grande reflexão que rivalizam com qualquer película em imagem real.

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