
A natureza humana sob uma máscara
Na América existem vigilantes mascarados que combatem o crime. Nas décadas de 30 e 40 esses vigilantes formam um grupo chamado os Minutemen. Este grupo atrai a atenção do público e é de certa forma bem sucedido no combate ao crime. Contudo vários membros não são capazes de combater os seus próprios demónios - sob a forma de alcool, drogas, ou outros comportamentos que levam a que outros ou eles próprios ponham termo às suas vidas. Décadas depois uma segunda geração de vigilantes forma um novo grupo designado os Watchmen. Este novo grupo desempenhará um papel fulcral em ganhar a guerra do Vietname, a favor dos E.U.A. Como consequência disso em 1985 Richard Nixon é ainda presidente e os E.U.A estão em plena guerra fria com a Rússia, mas o holocausto nuclear está mais perto que nunca.
Contudo o público começa a ficar descontente e revolta-se contra a existência de vigilantes mascarados que eles consideram agir impunemente em relação à lei e como consequência no início da década de 80 os vigilantes mascarados são proibidos.
A acção principal decorre em 1985 com a morte de um dos membros dos Watchmen, O Comediante ( Jeffrey Dean Morgan). Claro que ninguém sabe que ele era um dos vigilantes mascarados, ninguém até outro antigo membro do mesmo grupo decidir investigar aquele homicídio. Entra em cena Rorschach (Jackie Earle Haley) o único elemento dos Watchmen que ainda opera como um vigilante mascarado, ainda que às margens da lei. Ele vai tropeçar num plano que consiste na aniquilação de todos os antigos vigilantes mascarados, cujos objectivos colocam em perigo toda a humanidade.
Esta é a premissa do filme e sobre ela não será necessário revelar mais, contudo ressalvo desde já que o enredo é coeso e bastante credível naquilo que ainda se pode considerar um filme de super heróis. Contudo "Watchmen" traz muito mais que isso. A minha entrada anterior neste blog falava de como o "Batman" de Tim Burton, marcava uma nova era nos filmes de super-heróis. Em 2008 três filmes vieram elevar ainda mais este género cinematográfico, colocando-os num patamar de entretenimento, que ousa ser mais do que ligeiro, ousa desafiar o intelecto, ousa oferecer mais que acção estilizada e efeitos cgi - esses filmes são Hellboy 2, Iron Man e The Dark Knight. Em 2009 a fasquia eleva-se um pouco mais com este filme.
Acima de tudo importa estabelecer desde já o seguinte: estes não são heróis no sentido tradicional do termo. De todos eles apenas um tem super-poderes, o Dr. Manhatan ( Billy Crudup), sendo os restantes capazes de manifestar proezas a nível físico e intelectual, que estando a cima da média do homem comum, não estão no reino da total inverosimilhança. Aqui ninguém voa, dispara lazers dos olhos, teias dos pulsos, ou é imune a balas. São todos mortais. Não apenas isso. São pessoas. As máscaras não escondem as suas personalidades, acentuam-nas, para o melhor ou para o pior.
O elenco é vasto e reside nele a força do filme. Edward Blake/O Comediante, cuja morte abre o filme, é-nos apresentado como uma irredutível máquina de guerra; um -aparentemente - amoral homem que só vive para destruir. Contudo surpreende-nos com a sua capacidade de analisar a sociedade que nos rodeia e o verdadeiro espírito da humanidade. Chama-se O Comediante, contudo nada nele é engraçado, é antes trágico, cru e real. Dele saem as verdades que toda a gente vê mas não quer enfrentar.
Walter Kovacs/Rorschach é um vigilante cuja máscara assume diferentes padrões - em tempo real, como que a reflectir o seu estado de espírito- a preto e branco, como um teste de Rorschach - daí o seu nome. A sua visão do mundo é, tal como a sua máscara, a preto e branco; esta visão absolutista torna-o amoral no que toca à punição dos criminosos, algo que ele faz com brutalidade e talvez algum prazer. Não há para ele condicionantes nos comportamentos humanos. É um absolutista que acredita que não existem concessões: a verdade tem que ser sempre encontrada, não obstante as consequências.
Laurie Jupiter/Silk Spectre (Malin Akerman) é uma antiga vigilante e a namorada de Dr. Manhatan. Uma mulher dividida entre o amor por um homem e o amor por um super homem. Sente saudades dos seus dias de combate ao crime. Sente que perdeu o seu lugar.
Daniel Dreiberg/ Nite Owl II passa os seus dias a remniscir sobre o passado. Nutre uma paixão irrealizada por Laurie. Se Bruce Wayne fosse descrito como um aborrecido e envelhecido excêntrico, talvez fosse assim. Contudo existe uma candura e uma força dormente neste Daniel Dreiberg que é despertada graças à paixão.
Adrian Veidt/Ozymandias é um homem que construiu a sua fortuna á volta da sua imagem como vigilante, vendendo merchandizing da sua personagem Ozymandias. é considerado o homem mais inteligente do mundo. Está empenhado em livrar o mundo da sua dependência de combustíveis fósseis, que na sua opinião é causa não só de poluição, como também do estado de medo nuclear que o mundo vive. Esta personagem é das mais complexas e o seu papel não é tão linear como poderíamos julgar. Na verdade o papel que ele desempenha suscitará algum debate quanto à sua natureza.
Dr. Jon Osterman/ Dr. Manhatan um cientista que após um acidente se torna num ser que vive num espaço quântico. Além da sua tonalidade azul, Jon tornou-se capaz de ver o seu próprio passado e futuro, mudar a constituição atómica do que o rodeia, teleportar-se, alterar o seu tamanho, desintegrar seres humanos...em suma ganhou poderes quase divinos. Vivendo numa realidade diferente da dos humanos, Dr. Manhatan vai perdendo a ligação com a humanidade, pois a sua percepção do tempo e das relações humanas altera-se. Para ele o tempo é relativo, pois não envelhece, o peso da vida humana é também relativo para ele que se torna imortal. O seu distanciamento da humanidade é um tema chave do filme e nele pesa não só uma reflexão sobre o valor da vida humana como da sua singularidade. Num momento comovente ele aperceber-se-á que a via humana é importante devido ao milagre que é surgir do caos, algo tão belo, neste caso a sua amada Laurie.
Mostrar os super-heróis como seres humanos, falíveis e com os quais nos podemos identificar, é uma tarefa admirável porque aqui é bem executada. Mas também levanta a questão: se eles não tem poderes o que tem de "super" um bando de homens e mulheres mascarados que combatem o crime, mas que podem ser - e alguns são de facto - mais perigosos que aqueles que combatem? De facto no filme não é usada a palavra super-herói, mas sim vigilantes mascarados e não creio que seja á toa. Podemos mascarar-nos, mas isso não nos torna heróis, as máscaras são escudos, algumas vezes de impunidade. Se os Watchmen são heróis, em certos momentos bem perto de um modelo olimpiano, é porque eles tem que fazer o que muitas vezes tem que ser feito, mas ninguém o quer fazer; porque queremos sentir-nos seguros, mas não queremos saber o que é preciso ser feito para atingir essa segurança.
Este tipo de reflexão é permitida neste filme e quando a tentamos aplicar a outros filmes deste género, conseguimos ver a diferença entre entretenimento inconsequente e entretenimento que respeita a nossa inteligência. Sim este filme tem cenas de acção estilizadas, é violento, negro e pede que suspendamos a nossa crença - tal como em qualquer outro filme de super-heróis; existem momentos em que sabemos que estamos a ver um filme de acção, quando há combates impossíveis, naves e homens azuis que manipulam os átomos e destroem tanques sem qualquer esforço. Só que para cada cena destas em que os códigos do cinema fantástico estão presentes, recebemos uma ou duas em que o que vemos são pessoas que lutam por serem sãs num mundo cada vez mais insano.
Ainda há muito mais para falar. Há uma cidade chuvosa e cinzenta saída de um policial, os flashbacks que nos explicam a vida de cada personagem sem serem intromissas ou aborrecidas; uma banda sonora inspiradíssima que passa por Nate King Cole, Bob Dylan,Leonard Cohen e muitos outros, que nunca destoa e é capaz de nos absorver ainda mais; há um comentário subjacente ao medo do Apocalipse criado pelo homem e como ele parece cego para o evitar; existem claros ecos do 11 de Setembro particularmente numa das ultimas cenas; existe uma análise das relações entre pais e filhos e subsequentemente entre inteiras gerações que tem que herdar o peso das expectativas que lhes são colocadas.
Sim isto é entretenimento. Sim é um filme com gente mascarada a lutar, a morrer, a amar e a falhar. Tanto que ainda poderia dizer sobre este filme: como quebra as regras do género em que se insere, mas será que ao fazê-lo não está a criar um novo sub-género? O do comic book film realista? Não sei, ainda preciso de o rever e aprender ainda mais sobre cinema. Sei que antes de o ver tive um pressentimento, que verbalizei com um amigo meu: este filme ou irá ser um marco ou cairá no esquecimento, votado a tudo o que é medíocre. Para mim a resposta agora é inequívoca.
Veredicto: 5/5 (Relógios marcianos)
Realizador: Zack Snyder
Elenco:
Malin Akerman
Billy Crudup
Mathew Goode
Peter Spellos
Jackie Earle Haley
Jeffrey Dean Morgan
Patrick Wilson
Notas: Do mesmo realizador aconselho aquilo que considero ser um exercício em estilo, "300". Não se aproxima deste filme é mais um filme pipoqueiro cuja força maior é a estonteante apresentação visual.

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