
Quando o Halloween tentou roubar o Natal
Halloween Town. Um mundo de fantasia repleta de monstros, mas são monstros nada assustadores, bizarros é certo, mas inofensivos; um mundo onde os cidadãos normais são tudo menos normais: lobisomens, diabretes, vampiros , bruxas e outras aparições sobrenaturais povoam as ruas serpentinas e algo góticas desta cidade tão peculiar. E no entanto nada nos assusta; somos "convidados" a conhecer a cidade e os seus habitantes, cujas personalidades são tão peculiares como a sua aparência.
Todos anos ocorre uma assombrosa celebração do dia das bruxas, liderada pelo Rei Abóbora, Jack Skellington (Chris Sarandon). No entanto Jack começa a cansar-se da rotina em que se tornou a celebração anual do dia das bruxas, ele sente que falta chama e novidade. Um dia Jack encontra acidentalmente um portal que o leva para a cidade do Natal. Encantado com o espírito e celebração do Natal, o Rei Abóbora decide que vai apoderar-se do Natal.
Esta é a premissa para uma aventura tão estranha como encantadora. A existência de uma cidade da qual dia das bruxas emerge e cujos habitantes são monstros é genialmente animada pela fabulosa técnica de stop motion - que voltaríamos a ver na obra de Burton em " A noiva cadáver". A cidade revela um aspecto gótico onde abóboras de sorrisos traiçoeiros, árvores contorcidas, gárgulas de pedra e outros adereços macabros criam uma atmosfera tipicamente de uma obra de Tim Burton: suficientemente negra para ser sobrenatural, mas não o suficiente para ser intimidadora. A cidade do Natal e o mundo humano estão também muito bem conseguidos e a diferença de ambiente, estética e a palete de cores, estabelece bem a antítese entre os diferentes mundos, conferindo a cada uma, um ar único e cativante. Contudo a cidade do Halloween destaca-se claramente e é natural já que é o pano de fundo principal de toda a acção.
As personagens são um hino á criatividade artística, à sensibilidade e até homenagem a monstros clássicos do cinema e de histórias de terror: desde as bruxas, cientistas loucos, passando pelo bicho papão, o monstro debaixo da cama, e numerosas outras, não esquecendo o adorável cão fantasmagórico de Jack, Zero ; são todos soberbamente animados e suportados por um competentíssimo elenco vocal. E claro não nos podemos esquecer de Jack, o esquelético rei de Halloween town: de mebros finos e esqueléticos, cadavericamente pálido, mas terrivelmente expressivo; os seus momentos de dança e cantoria são dos pontos mais altos de todo o filme, pois Jack Skellington é uma personagem muito carismática e com este filme tornou-se um ícone do cinema - e também um ícone de merchandising, nas suas mais variadas formas.
Este é um filme de animação intergeracional, aliás como são os grandes clássicos da Disney, mas "O estranho mundo de Jack" possui uma estética e uma premissa que o torna único, um patinho feio - e aqui este comentário funciona como um elogio - cheio de personalidade e magia. Os números musicais são elegantes e cativantes, a acção é povoada de humor e algum suspense próprio de um filme que não se leva demasiado a sério e quer acima de tudo entreter. E ainda há uma história de amor entre uma boneca de trapos - talvez uma reinvenção da noiva de Frankenstein, mas bem mais encantadora - chamada Sally, que rouba o coração (?) do rei Jack.
No fim Jack e Sally estão juntos no topo de uma colina encaracolada e Halloween town está em festa. Voltaremos sempre para os visitar.
Veredicto: 5/5 ( Beijos sob o luar)
Realizador:
Henry Selick
Elenco:
Danny Elfman
Chris Sarandon
Catherine O'Hara
William Hickey
Glen Shadix
Ken Page
Notas: Do mesmo realizador estreou recentemente "Coraline", outro filme sobre mundos encantados alternativos. O estilo é remniscente de Burton, apesar da obra conseguir alguma autonomia estética. No entanto deve agradar, talvez não na mesma medida, a quem gosto deste "Pesadelo".

Was about time to return:)
ReplyDelete"As personagens são um hino á criatividade artística, à sensibilidade e até homenagem a monstros clássicos do cinema e de histórias de terror: desde as bruxas, cientistas loucos, passando pelo bicho papão, o monstro debaixo da cama, e numerosas outras, não esquecendo o adorável cão fantasmagórico de Jack, Zero ; são todos soberbamente animados e suportados por um competentíssimo elenco vocal."
Depois de algo descrito assim... como não querer ver:) Apesar de ter visto imagens, de ter ouvido sobre e lido sobre também, nada fixou a minha atenção como este texto tão artisticamente escrito. Com descrições minuciosamente naturais e encantadas, despoletas uma vontade de sonhar com estas personagens e de viver o (i)real através deste filme. Mais um que o conhecedor de um mundo da 7ª arte de forma tão sensível e personalizada descreve e incita à descoberta.
"Este é um filme de animação intergeracional." this being said... all is said. Gostei muito:)