Thursday, March 26, 2009

Kill Bill






Here comes the bride...

Uma das controvérsias em torno do quarto filme de Tarantino gerou-se com a decisão de dividir a obra em duas parte, algo que muitos viram como uma jogada sem escrúpulos para receber mais dinheiro por um só filme. A minha opinião sobre os motivos que levaram à divisão do filme em dois não interessam, mas a minha leitura sobre o díptico é a seguinte: Kill Bill deve ser visto como um só filme; a parte dois não é uma sequela, mas sim a segunda metade que o completa. A parte um não faz sentido sem a parte dois, seria como ler um livro do meio até ao fim ou do início até ao meio. Contudo a divisão em duas partes, apesar de tornar os filmes algo desiquilibrados, permite analisar a diferença de tom e muitas das referências com as quais Tarantino, como cinéfilo, povoou o filme.

A narrativa é contada através de uma ordem cronológica não-linear, ao estilo do seminal "Pulp Fiction" e dividida em capítulos. Conhecemos a história da Noiva (Uma Thurman), uma assassina reformada, que é atacada no dia do seu casamento, estando grávida ainda para mais, pelo seu antigo chefe e amante, Bill (David Carradine). Desde o ínicio sabemos que esta será uma história de vingança, pois a Noiva, cujo verdadeiro nome apenas conhecemos no volume 2, sobrevive ao violentíssimo ataque do Esquadrão de Víboras, os assassinos de elite de Bill. Após o seu longo coma e tendo perdido a sua filha, a Noiva prepara uma lista de alvos a abater, sendo o último obviamente o titular Bill.

Esta é a simples premissa, como normalmente esperamos de um filme com a vingança como pano de fundo e de facto todo o percurso bebe inspiração de filmes mais antigos com temáticas de vingança. Tarantino essencialmente pegou em dois géneros que são clássicos do cinema mundial e que abordaram inúmeras vezes o tema da vingança: são eles o western e o filme de samurais. Culturalmente enraizados nos países de origem e na mente de cinéfilos de todo o mundo este tipo de filmes sempre mostraram homens e mulheres, que em situações adversas fazem justiça pelas próprias mãos. Claro que os temas não se esgotam aí, mas a vingança sempre assentou bem nas áridas planícies do deserto americano ou sob as amendoeiras em flõr de um Japão feudal.

Esta é claramente a primeira e mais óbvia diferença entre a primeira e a segunda parte. Se no volume um, a homenagem é totalmente direccionada aos épicos de artes marciais, na segunda é o western que assume destaque. Claro que se virmos os filmes como deviam ser vistos, ou seja de uma só vez, a transição é fluída, mas vistos separadamente a ideia que fica, é que o primeiro concentra a maior parte da violência e o segundo a maior parte dos diálogos e do desenvolvimento das personagens. Por mais que isto seja verdade, ambos os filmes são bem sucedidos naquele que é o seu objectivo principal: serem homenagens sentidas a um tipo de cinema de série B que teve o seu apogeu na década de 70 em ambos continentes Asiático e Norte-Americano.

A viagem da Noiva faz-se pelos subúrbios americanos, pelos bairros futurísticos e coloridos a neon do Japão, as vastas planíces desertas dos E.U.A e as praias do Novo México. Até chegar a Bill ela terá que enfrentar o seu esquadrão de assassinos, todos com nomes de código que remetem para uma espécie mortal de víbora - na melhor tradição de filmes de artes marciais em que os grupos de guerreiros tinham nomes de animais. Esse grupo é uma galeria de personagens diversas e muito especiais, que vão de Vernica Green, uma dona de casa verdadeiramente perigosa (Vivica A. Fox), uma loira e ciclópica assasina Elle Driver (Daryl Hannah), um aparentemente estafado e inútil segurança de um stripclub e irmão de Bill, Bud (Michael Madsen) - um actor que renasce sempre que é chamado por Tarantino - e O' Ren Ishi, uma chefe da máfia japonesa com ar angelical e um coração de gelo ( Lucy Liu).

Até embate final somos brindados com sequências de acção muito sangrentas, mas muito estilizadas - ao bom estilo dos filmes japoneses de acção - que o sangue jorra em quantidades absurdas; mas a intenção não é fazer rir, são simplesmente códigos estéticos que estão para os filmes de artes marciais, como os duelos ao amanhacer para os westerns. Os embates entre A Noiva e os "Víboras" são sempre épicos, cada um de forma diferente e sempre jogando com a noção que cada um de nós tem de como uma batalha entre titãs deve ser. Claro que tenho que destacar no segundo volume, o flashback do treino que a Noiva se submete às mãos do exigente e severo Pai Mai ( Gordon Liu). Este segmento coloca na nossa retina toda a mística representada pelo estereótipo do mestre eremita que é um deus do combate e da meditação. É um capítulo que quebra o tom de Western que domina a segunda parte, para nos enviar de novo para ambientes orientais. Na primeira parte a música de Nancy Sinatra "Bang Bang (My baby shot me down)" lembrava-nos o velho oeste enquanto a acção se desenrola no oriente. Tarantino prova que sabe jogar com os símbolos e ícones, numa sinestesia cinematográfica que só está ao alcance dos realizadores mais dotados.

Tarantino não inventa nada de novo, serve-se de todos os clichés que existem nos filmes que homenageia e aplica-lhes uma roupagem moderna, simultaneamente prestando-lhes reverência. Não só isso mas a forma como cria as personagens e as cenas indicam o carinho de alguém que cresceu a ver filmes de série B e que agora quer partilhar essa experiência com o público - e para os conhecedores o filmes está repleto de referências a outros filmes, tornando esta obra num meta-filme.
Claro que depois há os inigualáveis diálogos à la Tarantino: mordazes, incisivos, irónicos, rápidos e auto-referenciais - sendo que que a fala de Bill "Isto sou eu no meu mais masoquista" é já um clássico. Esta mescla cria um filme que é sem dúvida um épico e acção. Aqui o que está em causa é entreter e piscar o olho aqueles que sabem que o material que aqui está presente não é novo, mas é bem tratado, logo todo o tipo de cinéfilos que adoram filmes de acção, em que as personagens não são de cartão, vão encontrar aqui algo que lhes agradará.

Em suma Kill Bill entretém se for visto em separado, mas a sua escala e grandeza épica é melhor compreendida e saboreada se visto na sua completude de uma só vez - aceita-se um intervalo mais longo, até porque a duração total atinge as quatro horas. No fim desta viagem com a vingança como mote, como sede que tem que ser satisfeita, compreendemos que o cinema é como a literatura, feito de hiperligações em que um filme remete para outro e como a leitura de objectos diferentes pode servir para os aproximar. Este filme pode ser visto de várias maneiras, mas a primeira de todas deve ser em nome da diversão e do prazer pelo cinema. Tudo o resto que possamos receber são guloseimas que nos deleitam. Como cinéfilo quase fanático, antes de realizador, Tarantino sabe como adoçar a nossa boca.

Veredicto: 5/5 (Sequências de anime inesperadas)

Realizador:
Quentin Tarantino
Elenco:
UmaThurman
Daryl Hannah
David Carradine
Vivica A. Fox
Michael Madsen
Gordon liu
Lucy Liu


Notas: O clássico "Pulp Fiction" e "Cães Danados" são filmes que recomendo da filmografia de Tarantino.

Monday, March 23, 2009

Os Guardiões - Watchmen




A natureza humana sob uma máscara

Na América existem vigilantes mascarados que combatem o crime. Nas décadas de 30 e 40 esses vigilantes formam um grupo chamado os Minutemen. Este grupo atrai a atenção do público e é de certa forma bem sucedido no combate ao crime. Contudo vários membros não são capazes de combater os seus próprios demónios - sob a forma de alcool, drogas, ou outros comportamentos que levam a que outros ou eles próprios ponham termo às suas vidas. Décadas depois uma segunda geração de vigilantes forma um novo grupo designado os Watchmen. Este novo grupo desempenhará um papel fulcral em ganhar a guerra do Vietname, a favor dos E.U.A. Como consequência disso em 1985 Richard Nixon é ainda presidente e os E.U.A estão em plena guerra fria com a Rússia, mas o holocausto nuclear está mais perto que nunca.

Contudo o público começa a ficar descontente e revolta-se contra a existência de vigilantes mascarados que eles consideram agir impunemente em relação à lei e como consequência no início da década de 80 os vigilantes mascarados são proibidos.

A acção principal decorre em 1985 com a morte de um dos membros dos Watchmen, O Comediante ( Jeffrey Dean Morgan). Claro que ninguém sabe que ele era um dos vigilantes mascarados, ninguém até outro antigo membro do mesmo grupo decidir investigar aquele homicídio. Entra em cena Rorschach (Jackie Earle Haley) o único elemento dos Watchmen que ainda opera como um vigilante mascarado, ainda que às margens da lei. Ele vai tropeçar num plano que consiste na aniquilação de todos os antigos vigilantes mascarados, cujos objectivos colocam em perigo toda a humanidade.

Esta é a premissa do filme e sobre ela não será necessário revelar mais, contudo ressalvo desde já que o enredo é coeso e bastante credível naquilo que ainda se pode considerar um filme de super heróis. Contudo "Watchmen" traz muito mais que isso. A minha entrada anterior neste blog falava de como o "Batman" de Tim Burton, marcava uma nova era nos filmes de super-heróis. Em 2008 três filmes vieram elevar ainda mais este género cinematográfico, colocando-os num patamar de entretenimento, que ousa ser mais do que ligeiro, ousa desafiar o intelecto, ousa oferecer mais que acção estilizada e efeitos cgi - esses filmes são Hellboy 2, Iron Man e The Dark Knight. Em 2009 a fasquia eleva-se um pouco mais com este filme.

Acima de tudo importa estabelecer desde já o seguinte: estes não são heróis no sentido tradicional do termo. De todos eles apenas um tem super-poderes, o Dr. Manhatan ( Billy Crudup), sendo os restantes capazes de manifestar proezas a nível físico e intelectual, que estando a cima da média do homem comum, não estão no reino da total inverosimilhança. Aqui ninguém voa, dispara lazers dos olhos, teias dos pulsos, ou é imune a balas. São todos mortais. Não apenas isso. São pessoas. As máscaras não escondem as suas personalidades, acentuam-nas, para o melhor ou para o pior.

O elenco é vasto e reside nele a força do filme. Edward Blake/O Comediante, cuja morte abre o filme, é-nos apresentado como uma irredutível máquina de guerra; um -aparentemente - amoral homem que só vive para destruir. Contudo surpreende-nos com a sua capacidade de analisar a sociedade que nos rodeia e o verdadeiro espírito da humanidade. Chama-se O Comediante, contudo nada nele é engraçado, é antes trágico, cru e real. Dele saem as verdades que toda a gente vê mas não quer enfrentar.

Walter Kovacs/Rorschach é um vigilante cuja máscara assume diferentes padrões - em tempo real, como que a reflectir o seu estado de espírito- a preto e branco, como um teste de Rorschach - daí o seu nome. A sua visão do mundo é, tal como a sua máscara, a preto e branco; esta visão absolutista torna-o amoral no que toca à punição dos criminosos, algo que ele faz com brutalidade e talvez algum prazer. Não há para ele condicionantes nos comportamentos humanos. É um absolutista que acredita que não existem concessões: a verdade tem que ser sempre encontrada, não obstante as consequências.

Laurie Jupiter/Silk Spectre (Malin Akerman) é uma antiga vigilante e a namorada de Dr. Manhatan. Uma mulher dividida entre o amor por um homem e o amor por um super homem. Sente saudades dos seus dias de combate ao crime. Sente que perdeu o seu lugar.

Daniel Dreiberg/ Nite Owl II passa os seus dias a remniscir sobre o passado. Nutre uma paixão irrealizada por Laurie. Se Bruce Wayne fosse descrito como um aborrecido e envelhecido excêntrico, talvez fosse assim. Contudo existe uma candura e uma força dormente neste Daniel Dreiberg que é despertada graças à paixão.

Adrian Veidt/Ozymandias é um homem que construiu a sua fortuna á volta da sua imagem como vigilante, vendendo merchandizing da sua personagem Ozymandias. é considerado o homem mais inteligente do mundo. Está empenhado em livrar o mundo da sua dependência de combustíveis fósseis, que na sua opinião é causa não só de poluição, como também do estado de medo nuclear que o mundo vive. Esta personagem é das mais complexas e o seu papel não é tão linear como poderíamos julgar. Na verdade o papel que ele desempenha suscitará algum debate quanto à sua natureza.

Dr. Jon Osterman/ Dr. Manhatan um cientista que após um acidente se torna num ser que vive num espaço quântico. Além da sua tonalidade azul, Jon tornou-se capaz de ver o seu próprio passado e futuro, mudar a constituição atómica do que o rodeia, teleportar-se, alterar o seu tamanho, desintegrar seres humanos...em suma ganhou poderes quase divinos. Vivendo numa realidade diferente da dos humanos, Dr. Manhatan vai perdendo a ligação com a humanidade, pois a sua percepção do tempo e das relações humanas altera-se. Para ele o tempo é relativo, pois não envelhece, o peso da vida humana é também relativo para ele que se torna imortal. O seu distanciamento da humanidade é um tema chave do filme e nele pesa não só uma reflexão sobre o valor da vida humana como da sua singularidade. Num momento comovente ele aperceber-se-á que a via humana é importante devido ao milagre que é surgir do caos, algo tão belo, neste caso a sua amada Laurie.

Mostrar os super-heróis como seres humanos, falíveis e com os quais nos podemos identificar, é uma tarefa admirável porque aqui é bem executada. Mas também levanta a questão: se eles não tem poderes o que tem de "super" um bando de homens e mulheres mascarados que combatem o crime, mas que podem ser - e alguns são de facto - mais perigosos que aqueles que combatem? De facto no filme não é usada a palavra super-herói, mas sim vigilantes mascarados e não creio que seja á toa. Podemos mascarar-nos, mas isso não nos torna heróis, as máscaras são escudos, algumas vezes de impunidade. Se os Watchmen são heróis, em certos momentos bem perto de um modelo olimpiano, é porque eles tem que fazer o que muitas vezes tem que ser feito, mas ninguém o quer fazer; porque queremos sentir-nos seguros, mas não queremos saber o que é preciso ser feito para atingir essa segurança.

Este tipo de reflexão é permitida neste filme e quando a tentamos aplicar a outros filmes deste género, conseguimos ver a diferença entre entretenimento inconsequente e entretenimento que respeita a nossa inteligência. Sim este filme tem cenas de acção estilizadas, é violento, negro e pede que suspendamos a nossa crença - tal como em qualquer outro filme de super-heróis; existem momentos em que sabemos que estamos a ver um filme de acção, quando há combates impossíveis, naves e homens azuis que manipulam os átomos e destroem tanques sem qualquer esforço. Só que para cada cena destas em que os códigos do cinema fantástico estão presentes, recebemos uma ou duas em que o que vemos são pessoas que lutam por serem sãs num mundo cada vez mais insano.

Ainda há muito mais para falar. Há uma cidade chuvosa e cinzenta saída de um policial, os flashbacks que nos explicam a vida de cada personagem sem serem intromissas ou aborrecidas; uma banda sonora inspiradíssima que passa por Nate King Cole, Bob Dylan,Leonard Cohen e muitos outros, que nunca destoa e é capaz de nos absorver ainda mais; há um comentário subjacente ao medo do Apocalipse criado pelo homem e como ele parece cego para o evitar; existem claros ecos do 11 de Setembro particularmente numa das ultimas cenas; existe uma análise das relações entre pais e filhos e subsequentemente entre inteiras gerações que tem que herdar o peso das expectativas que lhes são colocadas.

Sim isto é entretenimento. Sim é um filme com gente mascarada a lutar, a morrer, a amar e a falhar. Tanto que ainda poderia dizer sobre este filme: como quebra as regras do género em que se insere, mas será que ao fazê-lo não está a criar um novo sub-género? O do comic book film realista? Não sei, ainda preciso de o rever e aprender ainda mais sobre cinema. Sei que antes de o ver tive um pressentimento, que verbalizei com um amigo meu: este filme ou irá ser um marco ou cairá no esquecimento, votado a tudo o que é medíocre. Para mim a resposta agora é inequívoca.

Veredicto: 5/5 (Relógios marcianos)

Realizador: Zack Snyder
Elenco:
Malin Akerman
Billy Crudup
Mathew Goode
Peter Spellos
Jackie Earle Haley
Jeffrey Dean Morgan
Patrick Wilson

Notas: Do mesmo realizador aconselho aquilo que considero ser um exercício em estilo, "300". Não se aproxima deste filme é mais um filme pipoqueiro cuja força maior é a estonteante apresentação visual.

Monday, March 16, 2009

Batman




Ser herói é solitário

Bruce Wayne (Michael Keaton) é um homem com uma vida dupla. De dia é o herdeiro de uma enorme fortuna e Presidente da Wayne Enterprises. Wayne é um filantropo com reputação de playboy e que não gosta de dar nas vistas para além das suas vistosas festas e outras acções de caridade. De noite assume a identidade de um vigilante mascarado chamado Batman, que causa medo no coração do submundo criminal de Gotham City. Como Batman, a sua personalidade é sombria e os criminosos não tem como parar este justiceiro marginal.

Contudo este anti-herói não terá que lidar com um tipo de criminoso bem mais nefasto que os habituais fora da lei. Um gangster chamado Jack Napier (Jack Nicholson), braço direito do senhor do crime Grissom (Jack Palance) é traído pelo seu chefe e num confronto com Batman fica horrivelmente desfigurado: cabelo verde, cara branca e um permanente sorriso de orelha a orelha - literalmente - Jack torna-se no Joker, um ser ainda mais sádico e desvairado que antes.

Entre estes dois homens mascarados está Vicky Vale (Kim Bassinger), uma repórter enviada para envestigar o fenómeno do Batman e que cedo cai nos braços de Bruce Wayne e no gosto do Joker. Está será uma luta não só pelo controlo da cidade, como também pelos afectos de uma mulher.

A galeria de personagens ainda é considerável, mas obviamente que o foco da atenção será o duelo entre herói e vilão. De facto o vilão é na verdade a personagem que parece merecer as cenas mais delirantes, cómicas e assustadoras - esta tendência para o Joker roubar a luz da ribalta repete-se no "Cavaleiro das Trevas". O Joker que Nicholson criou é uma personagem espampanante, grosseira, com um humor macabro, uma gargalhada intimidante e uma presença imponente. O Joker não é bonito, mas a sua pose pode ser sedutora; é psicótico, mas perspicaz e inteligente. A sua presença implica que algo de perigoso, ruidoso e polvilhado de humor macabro vai acontecer e por isso estamos sempre em antecipação quando ele está em cena.

Batman por seu lado é soturno e monossilábico. Atormentado pela morte dos seus pais à sua frente, quando ainda era criança, Batman/Wayne não retira prazer do que faz: a sua demanda é por justiça, não fama nem glória. Os criminosos temem-no, mas a opinião pública também faz dele um criminoso. A polícia é na sua maioria corrupta, excepção maior será o comissário Gordon, por isso este vigilante também não granjeia a simpatia das forças policiais. Batman é por isso um anti-herói, opera às margens da lei, para a fazer cumprir. No entanto, o seu método é de captura e não de destruição; o Batman não mata criminosos, mas captura-os pois ele não é juiz, nem carrasco. Este código de ética impede-o de se tornar como aqueles que caça.

Contudo muitas vezes parece que o Batman não nos cativa tanto como o Joker, mas isso não significa que a personagem não seja caracterizada de forma competente pelo actor Michael Keaton. Na verdade creio que isto é prova da sua qualidade, porque Batman e Joker são opostos na sua dimensão física: um é calado e soturno, outro é maniacamente ruidoso e espampanante; um intimida com o olhar e outro com o seu sorriso desfigurado; Batman é quase monocromático - uniforme preto, com um símbolo amarelo no peito - e o Joker é uma palete de roxo, branco, verde e vermelho.

De resto são mais parecidos do que poderíamos pensar: dois párias da sociedade, incapazes de pertencer e atraídos um para o outro para se destruírem. vença quem vencer nenhum será aclamado herói, o vencedor será sempre temido por uma sociedade que os criou mas não os aceita. O Joker é um destruidor, causador de caos e anarquia que faz tudo com um sorriso nos lábios; Batman é um ser só empenhado em fazer justiça, que vive uma vida dupla, mas que ambas as suas facetas são viradas para o combate ao crime.

As restantes personagens são bem mais planas, principalmente Vicky Vale que não é mais que um interesse amoroso e a dama em perigo. A sua presença também serve para validar a constatação que Bruce Wayne não é muito mais que um sonho de normalidade do Batman: inepto a criar relações, a sua máscara de bilionário inconsequente é ténue.

O filme tem um tom negro. A metrópole de Gotham city não se parece com nenhuma cidade que tenhamos visto antes: repleta de edifícios imponentes com gárgulas, ruas com muito fumo, quase uma fusão da américa dos anos 50, com a estética dos comic books dos anos 80 e o imaginário tão próprio de Tim Burton. Os vilões são uma amalgama dos gangsters de um filme sobre Al Capone e rufias do boom inicial do rap. Burton cria uma cidade, um universo muito próprio que é uma homenagem às banda-desenhadas do Cavaleiro das Trevas, mas sem perder o realismo próprio de um filme em imagem real.

Este é um filme que abriu caminho para o género dos filmes de super-heróis. Uma visão pessoal do realizador, sobre um dos (anti-)heróis mais famosos da banda desenhada. Não é um filme alegre, consegue ser até bastante negro, mas é visualmente arrebatador, emocionante e espectacular. Um Jack Nicholson inspirado é também uma boa razão para ver esta aventura. Os fãs de Burton também gostarão, pois o ambiente e a estética são claramente "Burtonianos".

Veredicto: 4/5 (Dentaduras mecânicas)

Realizador:
Tim Burton
Elenco:
Jack Nicholson
Michael Keaton
Kim Bassinger
Robert Wuhl

Notas: A sequela "Batman Regressa" é de visonamento obrigatório para todos os que gostaram deste filme.

Saturday, March 14, 2009

O estranho mundo de Jack - The nightmare before christmas




Quando o Halloween tentou roubar o Natal


Halloween Town. Um mundo de fantasia repleta de monstros, mas são monstros nada assustadores, bizarros é certo, mas inofensivos; um mundo onde os cidadãos normais são tudo menos normais: lobisomens, diabretes, vampiros , bruxas e outras aparições sobrenaturais povoam as ruas serpentinas e algo góticas desta cidade tão peculiar. E no entanto nada nos assusta; somos "convidados" a conhecer a cidade e os seus habitantes, cujas personalidades são tão peculiares como a sua aparência.

Todos anos ocorre uma assombrosa celebração do dia das bruxas, liderada pelo Rei Abóbora, Jack Skellington (Chris Sarandon). No entanto Jack começa a cansar-se da rotina em que se tornou a celebração anual do dia das bruxas, ele sente que falta chama e novidade. Um dia Jack encontra acidentalmente um portal que o leva para a cidade do Natal. Encantado com o espírito e celebração do Natal, o Rei Abóbora decide que vai apoderar-se do Natal.

Esta é a premissa para uma aventura tão estranha como encantadora. A existência de uma cidade da qual dia das bruxas emerge e cujos habitantes são monstros é genialmente animada pela fabulosa técnica de stop motion - que voltaríamos a ver na obra de Burton em " A noiva cadáver". A cidade revela um aspecto gótico onde abóboras de sorrisos traiçoeiros, árvores contorcidas, gárgulas de pedra e outros adereços macabros criam uma atmosfera tipicamente de uma obra de Tim Burton: suficientemente negra para ser sobrenatural, mas não o suficiente para ser intimidadora. A cidade do Natal e o mundo humano estão também muito bem conseguidos e a diferença de ambiente, estética e a palete de cores, estabelece bem a antítese entre os diferentes mundos, conferindo a cada uma, um ar único e cativante. Contudo a cidade do Halloween destaca-se claramente e é natural já que é o pano de fundo principal de toda a acção.

As personagens são um hino á criatividade artística, à sensibilidade e até homenagem a monstros clássicos do cinema e de histórias de terror: desde as bruxas, cientistas loucos, passando pelo bicho papão, o monstro debaixo da cama, e numerosas outras, não esquecendo o adorável cão fantasmagórico de Jack, Zero ; são todos soberbamente animados e suportados por um competentíssimo elenco vocal. E claro não nos podemos esquecer de Jack, o esquelético rei de Halloween town: de mebros finos e esqueléticos, cadavericamente pálido, mas terrivelmente expressivo; os seus momentos de dança e cantoria são dos pontos mais altos de todo o filme, pois Jack Skellington é uma personagem muito carismática e com este filme tornou-se um ícone do cinema - e também um ícone de merchandising, nas suas mais variadas formas.

Este é um filme de animação intergeracional, aliás como são os grandes clássicos da Disney, mas "O estranho mundo de Jack" possui uma estética e uma premissa que o torna único, um patinho feio - e aqui este comentário funciona como um elogio - cheio de personalidade e magia. Os números musicais são elegantes e cativantes, a acção é povoada de humor e algum suspense próprio de um filme que não se leva demasiado a sério e quer acima de tudo entreter. E ainda há uma história de amor entre uma boneca de trapos - talvez uma reinvenção da noiva de Frankenstein, mas bem mais encantadora - chamada Sally, que rouba o coração (?) do rei Jack.

No fim Jack e Sally estão juntos no topo de uma colina encaracolada e Halloween town está em festa. Voltaremos sempre para os visitar.

Veredicto: 5/5 ( Beijos sob o luar)


Realizador:
Henry Selick
Elenco:
Danny Elfman
Chris Sarandon
Catherine O'Hara
William Hickey
Glen Shadix
Ken Page

Notas: Do mesmo realizador estreou recentemente "Coraline", outro filme sobre mundos encantados alternativos. O estilo é remniscente de Burton, apesar da obra conseguir alguma autonomia estética. No entanto deve agradar, talvez não na mesma medida, a quem gosto deste "Pesadelo".

Wednesday, March 4, 2009

Paprika




A vida polvilhada com sonhos


Num futuro próximo uma invenção chamada "DC mini" permite ao seu usuário ver e entrar nos sonhos das outras pessoas. Num departamento de psicoterapia, este método é testado para ajudar paciente com problemas psiquiátricos. A chefiar este departamento está a Dra. Atsuko chiba (Megumi Hayashibara) que não se limita a ter um papel de mera observadora: sob o disfarce de um alter ego chamado Paprika, Atsuko entra nos sonhos dos seus pacientes e ajuda-os a compreender e a superar traumas e medos que residem no seu subconsciente. Contudo o governo ainda não aprovou o uso do "DC mini" portanto a legalidade das acções de Atsuko / Paprika é questionável.

Cedo a situação complica-se quando três dispositivos "DC mini" são roubados. Numa reunião para se debater o que fazer, o chefe do principal do instituto de psicoterapia exibe comportamentos erráticos, como se sonhasse acordado: a sua psique é invadida por o sonho de outra pessoa. Nesse sonho aparece um enorme desfile recheado de animais que tocam instrumentos, objectos inanimados que ganham vida e vários icones culturais - este desfile é um elemento recorrente do filme e o seu significado está aberto a várias interpretações.

Começa então a investigação para descobrir quem anda a usar os "DC mini" para invadir os subsconscientes das pessoas criando ilusões e devaneios que as colocam em risco, pois a linha entre real e onírico esbate-se facilmente. O jogo de gato e rato que se segue seria enfadonho e meramente funcional se não fosse pela forma como é executado: fusão do real e do mundo dos sonhos e do inconsciente dá lugar a uma imagética misteriosa, intrigante que deixa as personagens e o espectador na dúvida sobre no que acreditar. Contudo este exercício não é cansativo ou forçado: o resultado é encantador e hipnótico porque a imagética do insconsciente que se funde com o real torna os cenários, que de outra forma seriam comuns, em locais que queremos explorar.

Na verdade a maior valência deste filme é a sua componente visual, os elementos oníricos e a sua apresentação moldam a realidade criando uma aura surreal, que não estranhamos mas aceitamos, porque também os nossos sonhos são assim, um cruzamento do real com o surreal.

O ùltimo acto do filme é particularmente belo, uma fusão de reinos oníricos, e uma imagética transcendente de beleza desenhada - talvez esteja a ser demasiado entusiasta, mas também é natural dado o tema do filme e como me identifico com ele - cheia de simbolismo. Um acto final digno de um filme que fala dos nossos sonhos e desejos que nem sempre queremos confessar porque achamos que o cinzentismo do mundo não tem lugar para eles. Contudo Paprika prova que há sempre lugar para ideias coloridas que enalteçam os grandes sentimentos e o gosto pela vida.

Não vejam pela história, mas sim por toda a estética, imagética que nos leva para um lugar especial: o lugar onde os sonhos nascem, sem abdicar de quererem ser reais.

Veredicto: 4/5 ( Bébés gigantes)

Realizador:
Satoshi Kon
Elenco:
Megumi Hayashibara
Akio Otsuka
Koichi Yamadera
Toro Foruya

Notas: Do mesmo realizador recomendo "Perfect Blue" e "Millennium Actress" dois exemplos de como a animação pode ser o veículo para filmes de grande reflexão que rivalizam com qualquer película em imagem real.