
Os silêncios entre as palavras
Hong Kong, 1942. Chow Mo-Wan (Tony Leung), um jornalista, aluga um quarto num apartamento pertencente a uma família de Shangai. No mesmo dia So Lai-Zhen (Maggie Cheung), uma secretária de uma companhia de exportação faz o mesmo. Eles tornam-se vizinhos. Ambos tem esposos que estão ausentes em trabalho deixando-os sozinhos durante os seus longos turnos. Apesar da presença de uma senhoria simpática e de um número grande e constante de jogadores de mahjong, Chow e So passam a maior parte do seu tempo sozinhos nos seus quartos e eventualmente uma amizade entre os dois ganha forma. Não demora muito tempo até ambos chegarem a uma conclusão sobre a razão para os seus esposos estarem sempre ausentes: estão envolvidos numa relação adúltera...um com o outro. Chow convence So a re-imaginar o que ela acha que poderia estar a acontecer entre o marido dela e a esposa dele. A partir desse momento a linha entre um jogo de representação e um romance real começa a esbater-se.
A proximidade de ambos leva as pessoas que os rodeiam a suspeitar que estão apaixonados, mas Chow e So concordaram que envolverem-se um com o outro significaria tornarem-se no mesmo que os seus esposos adúlteros. Esta racionalização dita o ritmo de todo um filme sobre duas pessoas que se desejam, mas agem não de acordo com o que sentem, mas com o que acham que o outro sente. Chow pensa que So não quer mais que uma amizade e logo não tenta consumar o desejo que sente; So por seu lado segue uma linha de pensamento idêntica. Sim, ambos professam verbalmente o seu acordo em não se envolverem, mas sempre seguindo aquilo que acham que o outro pensa ser correcto. Este é portanto um filme sobre duas pessoas que estavam disponíveis para amar, mas provavelmente não estavam no sítio ou tempo ideal para que tal acontecesse.
Estes amantes secretos - até para eles mesmos - são nos apresentados num clima intimista: existe sempre paredes a rodea-los, quartos exíguos ou na falta disso uma enorme multidão que apenas realça a intimidade do par. As suas pequenas rotinas, como ir à mercearia, um pequeno diálogo debaixo das escadas, um cigarro sedutor ou um simples contemplar, estão carregadas de um amor platónico e de um desejo mal escondido que Chow e So sentem.
As suas conversas, todos os momentos juntos exalam um desejo de amar, não há duvida que são dois seres que querem muito estar um com o outro: a presença um do outro afasta tudo o resto, porque os amantes deixam de reparar onde estão; as suas palavras nunca são aborrecidas ou repetitivas, porque quando se fala num código de amor, fala-se do que queremos partilhar com o outro, mesmo que queiramos ocultá-lo com silêncios ou pausas, esses espaços são preenchidos com as nossas expectativas de felicidade.
Este filme foge a muitas das convenções de filmes de amantes impossíveis. Um dos mais importantes é a total relegação dos esposos ausentes e adulteros: eles de facto nunca estão presentes, a sua traição nunca é filmada, nem precisa de o ser, poisa a sua presença faz-se sentir de qualquer forma. Um dos momentos mais inspirados fo filme é a representação feita por So do que se poderia estar a passar entre o seu esposo e a amante. Podemos compreender isso, porque faz parte das nossas inseguranças imaginar aquilo que não podemos ou queremos ver, como uma forma de escape ou de tortura, ou até ambos. Mas o foco é Chow e So e creio que partilham dos momentos mais puros e sublimes que já vi no grande ecrã. Em contraste, o adultério que não vemos, mas sentimos ser vulgar e aborrecido, eleva o romance dos protagonistas a um patamar perto do sublime. A força maior deste filme reside no facto de não sentirmos a necessidade de nos identificar com os protagonistas, mas antes de simpatizarmos com eles. Neste sentido, as recompensas que o filme nos dá acabam por ser maiores e mais ricas.
Poderemos ficar a pensar qual dos dois terá mais desejo ou qual estará mais receoso de admitir que quer se entregar, mas esta é uma das várias interpretações que o filme abre e nesse aspecto é uma obra aberta no que diz respeito a emoções como o amor, o desejo e também a dilemas de consciência, porque às vezes o obstáculo que está entre nós e a felcididade, não são os outros mas nós mesmos.
Permitam-se descobrir este filme algo contemplativo, muito belo, povoado por um jogo de cores sombras, fumo de cigarro - aqui o fumo de cigarro é uma neblina que descortina as personagens, na melhor tradição do género Noir - e uma cidade tão viva como claustrofóbica. Apenas recomendo que esqueçam as convenções mais estabelecidas dos filmes românticos de Hollywood e se deixem levar pelo turbilhão de emoções que este filme terno apresenta. Quando vejo este filme apercebo-me que, no que diz respeito ao amor e ao desejo, os seus precalços aventuras e desfechos nunca são um fim, mas sim um princípio de algo esplendoroso.
Veredicto: 4/5 (Cigarros)
Realizador: Wong Kar-Wai
Elenco:
Maggie Cheung
Tony Leung
Rebecca Pan
Lai Chin Ah
Notas: De Wong Kar-Wai recomendo a pseudo sequela deste filme 2046 e num tom diferente, mas com o mesmo tema de caminho que se cruzam, apesar de as intenções não, Chungking Express.

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