
Alice no País das maravilhas? Uma nova Neverland? Ambos, nenhum e para além deles.
Nos dias de hoje os grandes filmes de animação que estreiam nas salas de cinema, são na sua maioria animações computorizadas. Já transcendeu o estatuto de moda ou novidade há alguns anos para ser agora uma instituição. Para alguém que cresceu com a chamada animação tradicional, ainda não me habituei completamente ao facto de esta ser agora tão minoritária. Claro que as razões para isto serão de foro económico acima de tudo: os filmes de animação computorizada atraem grande quantidade de expectadores, são uma garantia de rentabilidade. Isto deve-se a um monopólio que os estúdios Norte-Americanos detêm no que diz respeito a estabelecer tendências; contudo assiste-se ao emergir de um novo tipo de world-cinema que vem provar que para cada centro há uma margem bem viva.
A animação tradicional está viva, ainda que de uma forma quantitativamente menos expressiva. Para provar isso mesmo falo agora de uma dos meus filmes favoritos pelas mãos de um dos grandes mestres da animação: Hayao Miyazaki.
Estreado em 2001, A viagem de Chihiro começa com a protagonista Chihiro - óbvio eu sei já que o nome está no título - a fazer uma viagem - estou a navegar em território de La Palice - com os seus pais para uma nova casa, numa nova cidade. Pelo caminho a família perde-se e depara-se com um misterioso túnel. Ao atravessá-lo descobrem o que parece ser uma feira, ou parque de diversões abandonado, mas por estranho que pareça tem comida acabada de cozinhar exposta em várias explanadas. Chihiro parte à descoberta da feira e encontra um rapaz chamado Haku que age como se já a tivera conhecido. Este avisa-a do perigo de permanecer naquele local e urge-a abandoná-lo rapidamente. Chihiro regressa para perto dos seus pais apenas para os encontrar transformados em porcos. Para piorar a situação o túnel por onde veio é agora um intransponível rio. A situação fica ainda mais estranha quando espíritos invadem a feira e começam a celebrar.
Haku leva Chihiro para uma espécie de termas ou banhos públicos e convence-a a procurar emprego ali, até ele poder reverter a situação dos seus pais. A dona das termas é Yubaba, uma mulher com uma cabeça tão grande como o resto do seu corpo - uma das muitas fantásticas personagens criadas por Miyazaki - cuja perfídia só encontra paralelo no tamanho do seu crânio. Chihiro é empregada nas termas a troco de abdicar do seu nome, ficando assim ao serviço de Yubaba para sempre. Nas termas a protagonista terá que dar banho e servir alguns dos espíritos mais difíceis daquele local.
Este é o inicio de um filme repleto de elementos do reino da fantasia como dragões, deuses, espíritos, homens com seis braços, bebés gigantes e a lista continua. Graças ao traço detalhado de Miyazaki estes elementos ganham uma aura de realismo à medida que nos são apresentados e vamos procurando todos os pequenos detalhes. As cores são vibrantes no seu uso ponderado - uma contradição que só pode ser explicada visualizando-a - e os cenários tem um elemento onírico, que assenta perfeitamente no tom de um filme que é também uma viagem à toca do coelho - aqui teremos que substituir não só a Alice, como também os elementos do mito e folclore europeu, pelo temas e motifs orientais.
Não podemos esquecer a mensagem ambientalista, presente em outras obras deste autor, personificada aqui através de um certo espírito do rio, num dos mais belo momentos de metamorfose do filme.
De facto, um dos grandes temas do filme é exactamente a transformação, o crescimento e o que isso implica. Chihiro é no início do filme uma criança mimada, egoísta e pessimista, mas a sua estadia a trabalhar nas termas vai transformá-la numa pessoa optimista, trabalhadora que aprende a preocupar-se com os outros. Talvez no outro espectro jaz Boh o filho de Yubaba, que é um bebé gigante mimado e supostamente agorafóbico - agorafobia é o medo de espaços abertos ou amplos. Ele também irá experimentar um crescimento interior às mãos de Chihiro. Haku o misterioso rapaz que ajuda Chihiro logo no princípio também irá sofrer uma metamorfose e relembrar-se de quem é na verdade. As personagens despertam o seu crescimento e afirmam-se como seres em devir, começando assim a realizar o seu potencial.
Sou um grande apaixonado pela cultura oriental e este filme é para mim como um cristalizar de muitas ideias que tenho dessa cultura: toda a aura de nobreza de um povo, o respeito pelas tradições do fantástico e um elo entre o homem e a natureza, que mesmo para essa mesma cultura, hoje já não está tão intacto. Mas sobretudo gosto deste filme, porque fala sobre os receios de crescer, de ser adulto quando isso implica perder uma certa candura, um olhar apaixonado interessado pela vida. Chihiro prova que não tem que ser assim e que é possível mantermos viva a capacidade de sonhar e abraçar a transformação que é crescer. Todo o mundo descoberto pela protagonista é uma espécie de Terra do Nunca, e tal como a Wendy, também Chihiro voltará mais crescida graças às suas experiências. Esta articulação com a história de Barry não será porventura tão forte como com a obra de Charles Lutwidge Dodgson, Alice no país das Maravilhas. Mas também esta articulação é apenas um exercício que fiz em posteriores visionamentos, porque no primeiro deixei o encanto fluir e vivi as aventuras de Chihiro com a vontade de estar lá - algo que poucos filmes são capazes de me incutir.
Por isso para quem não viu, recomendo que entrem no túnel, em direcção à feira que parece abandonada. Irão encontrar um mundo vivo, repleto de fantásticas visões, mistérios e detalhes deliciosos. Para os que já lá estiveram nunca é demais voltar a visitar.
Veredicto: 5/5 ( Dragões)
Realizador: Hayao Miyazaki
Elenco:
Rumi Hiragi
Miyu Hirino
Mari Natsuki
Takashi Naito
Yasuko Sawaguchi
(Japão)
Daveigh Chase
Jason Marsden
Michael Chicklis
Lauren Holly
Suzanne Pleshette
David Ogden Stiers
(E.U.A)
Notas: Como recomendar apenas um filme de Miyazaki é dificil, gostaria de recomendar todos. Mas como sei que isso seria imprudente, deixo duas recomendações: O castelo andante ( Howl's moving castle) e Princesa Mononoke (Princess Mononoke) - este ultimo irá certamente receber um post neste blog num futuro próximo.

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