
Entro na sala de cinema e sento-me. Normalmente nunca sou o primeiro a chegar, gosto da lotaria dos lugares não marcados. Gosto de ter que escolher um lugar, sabendo que a sala pode estar cheia e ter que ficar num canto, ou descobri-la vazia e sentar-me na fila central no lugar que mais me parece estar centrado com o ecrã.
Preparo o meu conforto da melhor maneira possível: tiro o casaco, desligo o som do telemóvel e começo a comer pipocas e nem os trailers começaram. Se estiver acompanhado a conversa não tem que ser sobre o filme que vai ser projectado, mas se for trocam-se expectativas, opiniões que já se conhecem ou informação trivial sobre o filme em questão.
Depois a sala começa a escurecer e assisto a alguma publicidade e trailers que servem para aguçar o apetite para outras vindas ao cinema. A apreciação dos trailers é um assunto que deixarei para outra altura, pois é mais longo que a duração dos mesmos.
Então o filme começa e a sala silencia. O som das pipocas a serem mastigadas não é um estorvo, mas uma adição sonora que nos suga ainda mais, para um momento em que deixamos a nossa realidade por algum tempo.
Sigo o desenrolar da acção na tela, vejo a luz do projector sob a minha cabeça, observo a expressão de quem está ao meu lado, deixo-me levar pelas imagens, palavras, sons que vem do ecrã luminoso que preenche toda a sala deixando apenas uma moldura de escuridão.
Não estou sozinho no cinema. Ver um filme é simultaneamente uma experiência pessoal e colectiva; por um lado o filme cria em mim um conjunto de emoções e sensações irrepetíveis e únicas, mas por outro existe uma comunhão de experiências: quando o vilão se aproxima do herói ferido para o matar, toda a audiência fica suspensa esperando que o vilão seja mal sucedido; quando Harry e a Sally ficam juntos no fim do filme, há uma aura colectiva de satisfação; quando uma insuspeita vítima está prestes a ser atacada pelo Freddy Krueger, a sala fica em antecipação num misto de horror e ansiedade. E que dizer da gargalhada comum, partilhada por uma vasta audiência face aos disastres de um Jim Carrey, Ben Stiller ou Borat? Ou do terno encanto de um Jack Skellington a cantar pelas ruas de Halloween town? Partilho estes sentimentos com pessoas que não conheço, mas durante a duração do filme estamos a viver uma experiência conjunta.
No fim rolam os créditos finais e as luzes acendem-se. Quando estou só gosto de ficar até ao fim dos créditos e reflectir um pouco sobre o filme. Umas vezes gosto, outras gosto menos, mas quando saio da sala de cinema estou um pouco mais enriquecido. O pacote de pipocas já está vazio tal como a sala. Para a semana há mais com a garantia que será diferente, mas sempre com a possibilidade de ser sublime.

No comments:
Post a Comment