Friday, January 23, 2009

A Noiva Cadáver - Corpse Bride



A morte fica-lhe tão bem

Tim Burton é um dos realizadores actuais cujo estilo é impossível de não reconhecer. A vasta maioria da sua obra apresenta-nos protagonistas que são maioritariamente párias da sociedade por serem diferentes quer física quer psicologicamente. Não só isto, marca o estilo de Burton conhecido por nos introduzir em mundos sobrenaturais, fantásticos, pontuados por um estilo gótico salpicado de humor um humor tão negro como caloroso. Soa contraditório? Talvez, mas em na obra de Burton importa ver para compreender, pois o seu estilo visual é único.

Em "A Noiva Cadáver" - só o título parece saído de um poema de Poe - ficamos a conhecer Victor Van Dort ( Johnny Depp), um jovem cujos pais, comerciantes de peixe recentemente endinheirados o querem casar com uma mulher que ele nunca viu. A noiva é Victoria Everglot (Emily Watson) uma jovem e bela mulher filha de aristocratas decadentes e corruptos. A Victor não agrada nada a ideia de casar com alguém que nunca viu e não conhece, mas apesar de algumas falsas partidas e expectativas negativas, ele e Victoria cedo se começam a conhecer e apaixonam-se quase imediatamente. Contudo Victor engana-se no ensaio do casamento e o padre proíbe-o de voltar á igreja sem este decorar os votos de casamento.

Vagueando pela floresta ele vai recitando sempre de forma falhada os votos, até que, enchendo-se de coragem coloca o anel num ramo seco que parece uma mão humana e recita-os com sucesso. Contudo o ramo era de facto uma mão humana, que o agarra. Do solo emerge a Noiva Cadáver Emily (Helena Bonham Carter). Com um vestido bolorento e ela própria em franca decomposição, Emily declara Victor seu marido e após alguma luta beija-o. Este desmaia e quando recupera a consciência acorda no mundo dos mortos.

Está dado o mote para uma história com alguns contornos macabros, como é apanágio de Burton, mas sempre contada com coração e muito música e cor. Que divertido é constatar que o mundo dos mortos é infinitamente mais colorido e divertido que o dos humanos. Números musicais interpretados por esqueletos e outros seres sem batimentos cardíacos, mas que são mais joviais e mais vivos que os cinzentos humanos que vivem à superfície. De facto os humanos são apresentados com um ar de enfado, um tom de pele cinza e olheiras de quem já não dorme semanas a fio; o tempo é sempre cinzento e chuvoso ao ponto de quando nos é apresentado o mundo dos mortos ficamos a pensar que todo o filme podia ser passado ali. Claro que isso descaracterizava esta obra que assenta exactamente no contraste entre a apatia do mundo dos vivos e o tom quase de cabaret do mundo sobrenatural.

Os mortos são seres visualmente interessantes e contêm indivíduos tão coloridos como General Bonesapart, Bonejangles ou o carismático cão Scraps. A breve reunião que ocorre entre os mortos e os vivos é dos momentos mais ternos do filme e não deve ser descurado.

Ao vermos este filme é impossível não nos relembrarmos de Halloween town em "O estranho mundo de Jack" ou da vida após a morte em "Beetlejuice: os fantasmas divertem-se". Em ambos os casos podemos ver semelhanças estilísticas nos reinos sobrenaturais ali representados, ou não fossem essas obras de Burton também.

O filme é eficaz em criar uma história de amor simples, mas recheada de personagens adoráveis no caso de Emily, Victor, Victoria, Scraps ou detestáveis no caso dos interesseiros pais dos noivos ou do vilão principal - que não revelarei para quem ainda não viu. Os momentos musicais são da estarei a que Burton já nos habituou nos seus filmes, com letras espirituosas, momentos de humor visual deliciosos e melodias que ficam no ouvido. O filme nunca perde o seu tom alegre apesar do que o tema possa indicar, mesmo nas cenas mais tensas. Burton consegue mais uma vez um filme que é capaz de atingir um publico transversal sem sacrificar o seu estilo.

A técnica de stop-animation aqui empregue é do mais sublime que já vi, com os modelos das personagens muito expressivos, detalhados e complexos. O processo moroso que implica a concretização desta técnica de animação, em que cada movimento tem que ser preparado e fotografado frame por frame, apenas dá mais valor ao producto final, que é não só um excelente filme de fantasia, como um dos melhores filmes de animação que já tive o prazer de ver.

Para ver e rever.

Veredicto: 5/5 (Ossos)

Realizador: Tim Burton
Elenco:
Johnny Depp
Helena Bonham Carter
Emily Watson
Cristopher Lee
Tracey Ullman
Paul Whitehouse
Joanna Lumley
Albert Finney

Notas: Tim Burton é um dos meus autores favoritos e recomendar os seus filmes é fácil. Para quem é um iniciado na sua obra e quer se manter por este terreno fantástico da dicotomia entre o reino dos vivos e dos mortos recomendo "O estranho mundo de Jack" e "Beetlejuice: os fantasmas divertem-se".

1 comment:

  1. Como admirador convicto de Tim Burton, e sobretudo seguidor da sua obra, não serei provavelmente imparcial no meu julgamento, mas a opinião de um cinéfilo nunca o é, já que depende sempre dos seus gostos, da sua personalidade e até, por vezes, do estado do espírito com que encara um filme. Confesso que a ideia de um filme de animação com este tema seguindo os princípios de Tim Burton me parecia condenado ao insucesso. A difusão da película demonstrou-me o contrário e de que maneira! Mais uma vez, Burton faz-nos entrar num mundo que só a ele pertence, mas que temos a felicidade de poder apreciar em certas deliciosas oportunidades como é este filme. A história, pela sua simplicidade, agarra qualquer um sem ter de recorrer a demasiadas explicações entediantes, e tem ao mesmo tempo um ritmo único, aquele tempo perfeitamente trabalhado por Burton que, como sempre, mistura com absoluta mestria os ingredientes de suspense, humor, acção e drama. O resultado é uma receita saborosa, que pode ser apreciada tanto por adultos como pelos mais novos. Um filme a ver e rever sem ter medo de indigestão.
    Este é o primeiro comentário de muitos que não deixarei de fazer a este blog, pelo qual te dou os parabéns, e agradeço a divulgação. Abraço.

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