Monday, January 19, 2009

Contado ninguém acredita - Stranger than fiction



Tempus fugit versus Carpe diem

Harold Crick (Will Ferrell) é um auditor do IRS ( Internal Revenue Service) cuja vida é ditada por um conjunto de regras e rotinas destinadas a poupar tempo. Essas rotinas incluem: escovar os dentes 38 vezes para trás e para a frente, 38 vezes para cima e para baixo; usar um nó de gravata que lhe permite poupar 43 segundos ao fazê-lo; fazer uma média de 52 passos por quarteirão para apanhar o autocarro sempre à mesma hora. Harold é um homem de números e torna-se impossível não pensar, desde os primeiros minutos do filme, que a sua vida é vazia e que este homem mais se assemelha um autómato. De facto esta sinopse não pode despertar grande interesse, afinal de contas, um filme sobre um homem que trabalha para as finanças e que vive obcecado com a poupança do tempo não soa divertido ou empolgante.

Desde o início do filme ouvimos uma narração feminina a detalhar os passos de Harold no seu dia-a-dia, mas em pouco tempo Harold começa a ouvir essa voz também. A reação de Harold a essa voz omnisciente é um dos momentos de humor mais subtil que Will Ferrel nos apresenta, longe de um registo mais histriónico, que é sua imagem de marca. Um dia a narradora anuncia que Harold vai morrer, despoletando aí uma corrida contra o tempo: Harold terá que tentar descobrir a origem da voz e evitar o seu fim prematuro.

Harold vai descobrir com a ajuda de um professor de literatura, que ele é uma personagem num livro que está ainda a ser escrito. O professor, interpretado pelo sempre genial Dustin Hoffman, incumbe Harold de descobrir se a sua vida é uma comédia ou uma tragédia - num dos vários apontamentos literários que o filme inclui e que nos fazem relfectir sobre a literariedade da vida.
Há ainda tempo para o florescer de um romance entre Harold e Ana ( Maggie Gyllenhaal) uma padeira tão doce como aguerrida, a quem o primeiro vai fazer uma auditoria. E claro ficamos também a conhecer a narradora e escritora do livro no qual Harold é protagonista, Karen Eiffel (Emma Thompson).

Como comédia este filme é bastante low key, o seu tom é calmo, mas não chega a ser maçudo. Na verdade é facil ficar a gostar de Harold, um homem só, sem chama , mas que um dia desperta para a vida quando sente que poderá não ter muito mais para viver. Sem grande espalhafato vemos que nunca é tarde demais para perseguir pequenos sonhos, pequenas realizações mundanas, mas que fazem todo o sentido quando sentimos que o tempo está contra nós. Harold Crick deixa de querer poupar tempo e passa a querer vivê-lo. Não é um filme de gargalhadas amplas, mas antes de sorrisos ternos. A palete de cores é sóbria quando vemos a casa do protagonista, o seu escritório e as ruas da cidade, tudo parece estéril e impessoal; mas depois existe a pastelaria de Ana, um pequeno cantinho colorido e prazenteiro iluminado pelos olhos felinos e sorriso solarengo da padeira que coloca Harold no trilho do amor. A implementação de informação através de gráficos, para representar os comportamentos rotineiros e mecânicos de Harold, acrescentam mais ao tom estéril da sua vida no início do filme.

Para um fenómeno de articulação entre a narrativa escrita e a filmada, o filme dá-nos muito mais da segunda, mas é sem duvida eficaz em criar um certo mistério à volta da origem da voz e do desfecho que a história - e aqui esta palavra ganha um significado ainda maior - de Harold terá. As referências literárias tomam lugar maioritariamente nas interacções entre Harold e o professor Jules Hilbert nos momentos mais surrealistas do filme. Afinal de contas quantas conversas já tiveram baseadas neste pressuposto: a minha vida é um livro inacabado, mas quando este estiver terminado será literalmente o meu fim - reparem no uso da palavra literalmente.

Existem certos momentos do filme involvendo a escritora Karen Eiffel que destoam um pouco, pois são soturnos e crípticos. Tem a sua relevância para o enredo, mas acabam por estar de certa forma deslocados do tom contemplativo e até upbeat do resto do filme.
Claro que não podia deixar de fazer referência à premissa principal do filme em que o protagonista ouve a narração da sua própria vida. Todos nós podemos certamente narrar os nossos próprios passos, mas quão bizarro será ter alguém a fazê-lo por nós. Ainda para mais isso acontece a um homem cuja vida até esse ponto daria um livro menos interessante que a leitura das páginas amarelas. Esta articulação entre literatura e cinema acaba por ser esquecida em pontos do filme, à medida que a faceta humana de Harold vai despertando; esta é uma falha que não incomoda, porque na verdade este filme é sobre termos segundas oportunidades na vida e não sobre como nos comportarmos quando somos parte de uma obra de ficção.

Creio que é importante, mantermos a nossa suspensão da crença e entrarmos neste jogo sem procurar demasiadas respostas, para o porquê de existir uma pessoa que escreve e como consequência controla a vida de um estranho - isto afinal de contas uma comédia surreal onde as consequências são mais importantes que as causas. Importa sim descobrir ou relembrar que a vida tem muito para oferecer através de pequenos detalhes e pessoas extraordinárias. Este é também um filme sobre o crescimento e o enobrecer do espírito humano, mas contado de uma forma pautada. Ainda deixa espaço para reflectir sobre a influência da arte na vida e da influência do espírito humano na arte. Qual tem predominância? Nenhuma resposta é simples neste humilde filme que ainda tem espaço para dar protagonismo a um relógio.

Veredicto: 3.5/5 (autocarros)

Realizador: Marc Forster
Elenco:
Will Ferrel
Maggie Gyllenhaal
Dustin Hoffman
Emma Thompson
Queen Latifah
Tony Hale

Notas: para ver mais filmes deste realizador, que tem sido capaz de navegar por géneros díspares, aconselho: Á procura da Terra do Nunca ( Finding Neverland) e 007 Quantum of Solace.

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